Universidade, academia, professor, ciência e filosofia: excertos

(Publicado originalmente dia 9 de janeiro de 2008 http://stoa.usp.br/tom/weblog/13471.html)

Alguns excertos do livro A história do pensamento ocidental (Wisdom of the West), de Bertrand Russell, relacionados a um assunto que muito me interessa e penso há certo tempo, desde a época em que era estudante de graduação: a missão de uma universidade. Meus pensamentos sobre o assunto ainda são imaturos.

Na verdade, há duas atitudes que podem ser adotadas ante o desconhecido. Uma é aceitar as afirmações de pessoas que dizem conhecer, baseadas em livros, mistérios ou outras fontes de inspiração. A outra consiste em sair em busca por si mesmo, e este é o caminho da ciência e da filosofia.

Acho que no prefácio (preciso conferir e não sei onde está o livro, agora).

Num sentido bastante real, este continua sendo o objetivo da genuína ducação, até mesmo nos dias de hoje. Não é função de uma universidade encher a cabeça dos estudantes com o maior número possível de fatos. Sua verdadeira tarefa é inculcar neles hábitos de exame crítico e a compreesão de cânones e critério rederentes a todas as matérias.

Pág. 74, comentário enquanto descrevia a ‘Academia’ fundada por
Platão, em Atenas.

[…] “Lembremos que ciência e filosofia eram estudadas em escolas ou sociedades onde havia estreita colaboração entre alunos e professores. A verdade importante que parece ter sido compreendida desde o início, pelo menos implicitamente, é que o ensino não é um processo de transmitir informação. Em parte, é claro, deve haver isso. Mas não é a única função do professor, nem a mais importante. Na verdade, isso é mais evidente hoje do que àquela época, quando os registros escritos eram mais raros e mais difíceis de se obter do que agora. Atualmente, é razoável pensar que qualquer pessoa que saiba ler poderá recolher informações numa biblioteca. É cada vez menos necessário um professor para transmitir mera informação. E por isso tanto maior é o mérito dos filósofos gregos, por terem compreendido como se deveria realizar uma genuína educação. O papel do professor é de orientar, de levar o aluno a ver por si mesmo.

Págs. 88 e 89, comentário sobre a educação grega.

Esse último comentário me lembra um trecho do prefácio do ‘The Feynman Lectures on Physics’, de Richard Feynman:

Acho, porém, que a única solução para este problema da educação é perceber que o melhor ensino só pode ser praticado quando há uma relação individual direta entre um estudante e um bom professor uma situação em que o estudante discute as idéias, pensa sobre as coisas e fala sobre elas. É impossível aprender muito apenas sentado em uma palestra ou mesmo resolvendo problemas propostos. Mas, em nossos tempos modernos, temos tantos alunos aos quais ensinar que precisamos tentar encontrar um substituto para o ideal. Talvez em algum pequeno lugar onde haja professores e alunos individuais, eles possam obter certa inspiração ou idéias destas palestras. Talvez se divirtam raciocinando sobre elas ou desenvolvendo mais algumas coisas.

Na época, 1999, ano em que ingressei na graduação em física da USP, fiquei impressionado com as palavras do Feynman. Para quem estava acostumado com colégios tradicionais brasileiros (principalmente alguns públicos), local raro para se encontrar seres pensantes (não que mudou muita coisa na universidade, mas melhorou, sim, consideravelmente e, ainda, descobri as bibliotecas!), descobrir Feynman, primeiro, e Russell, depois, são coisas que não têm preço na vida de um jovem estudante. Russell acabei descobrindo mais tarde por causa da autobiografia dele que pode ser lida na biblioteca do IFUSP (um pouco sobre essa descoberta). Essa relação aluno-professor tive um pouco devido à iniciação científica durante o curso de graduação.

Preciso ler mais os gregos. Acho que começarei por Platão, possivelmente com The Republic (se alguém tiver alguma sugestão, ela é bem-vinda).

Também esbarrei hoje com um possível nome interessante para estudar, Otto Maria Carpeaux (alguma sugestão?):

Não está longe o dia em que o MST, julgando a USP improdutiva, não hesitará em invadir aquele campus Butantã, exigindo ciência socialista.

Na década de 1940, Otto Maria Carpeaux, em sua Viena natal, já observara à sua primeira entrada na universidade:

“Vi a biblioteca coberta de poeira, os auditórios barulhentos, estupidez e cinismo em cima e embaixo das cadeiras dos professores, exames fáceis e fraudulentos, brutalidades de bandos que gritavam os imbecis slogans políticos do dia e que se chamavam ‘acadêmicos’.”

Ainda em “A idéia da universidade e as idéias das classes médias”, Carpeaux faz uma extensa análise da motivação violenta que se apoderou das classes médias, não economicamente médias, mas sim espiritualmente. Classes médias do espírito, aquelas que jamais chegarão ao conhecimento da realidade e, por isso, tornam-se violentamente invejosas de quem o possui.

Para esses, o objetivo da vida deixa de ser o conhecimento, se um dia o foi. Enxergando-se incapazes de adquiri-lo, querem impedir que outros o busquem. Restam as manifestações de significado nulo, cheias de som e fúria. Restam as filiações políticas e os sindicatos. Resta o sentimento de coletividade irresponsável.

E Carpeaux, constatando que a história das universidades é a história espiritual das nações, coloca-nos em uma situação deveras preocupante. Se é que ainda podemos nos chamar nação.

(Por Gerson Faria)

Parece que estamos, infelizmente, bem longe do ideal da academia grega, quando nos lembramos sobre muitos fatos das nossas universidades. Qual será a relação entre os diversos problemas do nosso país, da nossa sociedade, e nossas univerversidades e centros educacionais? Quero estudar melhor o que Carpeaux diz sobre essa relação entre universidade e nação.


Ping-pong intelectual

(Publicado originalmente dia 12 de marçode 2007 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/931.html)

Também experimentei pela primeira vez a controvérsia do debate filosófico. Evans era um debatedor intenso, impaciente e inflexível; como mencionei antes, ele sentia prazer em constranger os ingênuos (talvez demasiado prazer). A atmosfera na sua aula era intimadora e excitante ao mesmo tempo. Como vim a saber mais tarde, essa é uma característica comum do debate filosófico. Não a sonora recitação de vagas profundidades, mas um conflito de intelectos analiticamente brilhantes, com egos palpitantes atrelados a eles. De fato, verdade seja dita, a filosofia e o ego nunca estão muito distantes. A discussão filosófica pode ser uma modalidade violenta de esporte intelectual, no qual os egos são feridos e abatidos, ou até mesmo crucificados. Observei pessoas lívidas e com a boca seca antes de fazerem uma exposição para uma audiência de pessoas seletas, e visivelmente abaladas ao término dela. Ninguém gosta de ser refutado publicamente, e em filosofia isso acontece o tempo todo. Percebi em Evans alguém com uma habilidade considerável para o debate e sem dúvida fiquei atraído pelo tipo de poder e respeito que isso proporciona. Mostrar-se por vaidade é também uma característica da vida filosófica.

‘Lógica e linguagem’, do livro ‘A construção de um filósofo‘, Colin McGinn (filósofo descrevendo o quadro de um departamento de filosofia em Oxford na década de 70).

Será que no Brasil existe um ambiente como esse? Me parece improvável, senão impóssível. Pelo menos no momento.

Muitos de nós sabemos que muito existe dessa recitação de vagas profundidades…


Um pouco sobre civilização nas palavras de Bertrand Russell

(Publicado originalmente dia 2 de outubro de 2007 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/7218.html)

Toda teoria educacional séria deve ter dois componentes: uma concepção dos objetivos da vida e uma ciência da dinâmica psicológica, isto é, das leis da mudança mental. Duas pessoas que discordem quanto ao objetivo da vida não podem pretender concordar sobre educação. Em toda a civilização ocidental, a máquina educacional é dominada por duas teorias éticas: o cristianismo e o nacionalismo. Levadas a sério, essas duas teorias são incompatíveis, como vem sendo evidenciado na Alemanha. De minha parte, digo que onde elas divergem o cristianismo é preferível e onde elas concordam estão ambas erradas. A idéia alternativa que eu adotaria como o propósito da educação é a de civilização, termo cujo significado, tal como eu vejo, é em parte individual, em parte social. No plano individual, a civilização consiste em certas qualidades intelectuais e morais: as qualidades intelectuais são um mínimo de conhecimento geral, uma boa qualificação técnico profissional e o hábito de formar opiniões baseadas em evidências; as qualidades morais são a imparcialidade, a bondade e um certo grau de autocontrole. Eu acrescentaria ainda uma qualidade que não é moral nem intelectual, mas talvez fisiológica: entusiasmo e alegria de viver. No plano social, a civilização exige o respeito às leis, relações humanas justas, objetivos que não impliquem danos permanentes a nenhum setor da humanidade e adaptação inteligente dos meios aos fins.

Betrand Russell, Educação e Disciplina, do livro O Elogio ao Ócio.

Será possível termos uma sociedade onde a maioria das pessoas possuam as qualidades definidas por Russell no seu conceito de civilização? Será que o ser humano pode se aproximar desse ideal? O que podemos fazer para incutirmos esses propósitos em nossas crianças? Como fazer? Por onde começar, se nem o bê-a-bá é ensinado para uma fração considerável do planeta?

Eu gostaria mesmo de acreditar que é possível, mas a cada dia perco um pouco mais da esperança…