Um homem como um porco

Boussè, Burkina Faso, 2009. Foto de Marco Bellucci

O ônibus parou no ponto da Avenida Vital Brasil, quando olho pela janela, logo alí, ao meu lado e para todo mundo ver – mas parece que quase ninguém vê -, um senhor com aparência de morador de rua enfiava um copo descartável dentro de um saco preto de lixo, retirando para comer sua refeição, o copo cheio de macarrão misturado a outros dejetos. E ele não parou. Com sua barba mal feita, toda suja com o primeito copo com os restos do macarrão, ele enfia novamente a mão lá e volta a colocar o lixo na boca. O LIXO NA BOCA.

Dá vontade de chorar. Não posso fazer nada naquele momento, apenas ver aquele senhor abandonado, um ser humano que certamente tem uma história, que já teve pai e mãe, que tem anseios e medos como todo nós. Já teve um amor? Já foi amado? Já sentiu o carinho de outro ser humano? Quem não foi e quem não teve. Sonhos e esperança? Ele ri de algo? Talvez não mais.

Hoje está na rua como um porco. A diferença é sua consciência de não ser um porco.

A imagem não sairá da minha memória. A pior quase depois de um mês após voltar de três meses de viagem. É difícil, às vezes, não bater uma profunda tristeza e desejar nunca ter tido consciência desse mundo.

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