Uma chama de esperança que não pode apagar…

(Publicado originalmente dia 13 de setembro de 2007 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/6567.html)

Lembro-me até hoje do calafrio que senti quando li o prólogo da autobiografia de Bertrand Russell, ainda no meio da minha graduação em física, há alguns anos atrás, What have I lived for (Para que vivi). Tinha descoberto mais um herói.

Three passions, simple but overwhelmingly strong, have governed my life: the longing for love, the search for knowledge, and unbearable pity for the suffering of mankind. These passions, like great winds, have blown me hither and thither, in a wayward course, over a great ocean of anguish, reaching to the very verge of despair. (grifos meus)

Até então admirava Mahatma Gandhi, apesar de apenas conhecer um pouco sobre ele através de um filme, que me marcou quando vi ainda quando eu tinha uns 15 anos, e depois sua autobiografia, que li no começo de minha graduação, por volta do ano 2000. Conheço pouco sobre Gandhi, mas quero acreditar que foi um grande homem, assim como quero acreditar que Russell o foi. Espero descobrir outros heróis.

Acho curioso terem sido raras as ocasiões, durante toda minha vida, em que encontrei pessoas que admirassem outrém. Muito pelo contrário. Cheguei, principalmente quando mais jovem do que atualmente, a me sentir como um passarinho fora do ninho quando comentava sobre minha admiração das idéias e ações de alguns homens. Felizmente, recentemente descobri o seguinte texto de Will Durant, da Introdução do livro ‘Os grandes pensadores’, que encontrei num sebo (excerto):

Dos muito ideais que na mocidade dão à vida uma significação e uma radiância que faltam a algumas friorentas perspectivas da idade madura, um pelo menos não se adormeceu em mim, permanecendo brilhante como no começo – a intrépida adoração dos heróis. Numa idade que nivela tudo e nada reverencia, ponho-me ao lado de Carlyle e acendo minhas velas, como Pico de Mirandola diante da imagem de Platão, no santuário dos grandes homens.

Digo intrépida porque sei como está fora de moda admitir na vida ou na história, gênio mais alto do que nós mesmos. O dogma democrático nivelou não somente todos eleitores com todos líderes; deleitamo-nos em demonstrar que os gênios vivos não passam de mediocridades e que os gênios mortos não passam de mitos. Ao crermos em Wells, César foi um pateta, e Napoleão, um louco. Mas como é contrário o bom-tom de louvar-nos a nós próprios, chegamos ao mesmo fim por uma senda indireta: rebaixando todos os grandes homens da terra. Em alguns isso será, talvez, um nobre impiedoso ascetismo que procura arrancar dos corações os últimos vestígios da adoração, de medo que os deuses voltem e de novo nos aterrorizem.

De minha parte apego-me à religião dos heróis e nela descubro contentamento e estímulo mais duradouro que os peculiares aos êxtases devotos da mocidade. […]

[…]

Contemplar tais homens, insinuar-nos pelo estudo em seu convívio, observá-los no labor e aquecer-nos à flama que os consome – isto é reconquistar alguma coisa do êxtase que a juventude nos dava, quando no altar ou no confessionário sentimos a presença de Deus. Nessa sonhadora juventude criamos que a vida era um mal, e que só a morte nos poderia erguer ao paraíso. Erro. Ainda em vida podemos penetrar no Éden. Cada grande livro, cada obra de arte, cada biografia dum grande homem, constitui um apelo e um abre-te sezamo para os Campos Elísios.

Muito cedo apagamos a chama da nossa esperança e da nossa reverência. Mudemos nossos ídolos e reacendamos as velas.

Está fora de moda admitir gênio mais alto do que nós mesmos. O livro é de meados do século passado. Talvez esteja aí um indício da resposta a minha curiosidade.


Será que isso explica um pouco sobre a apatia dos alunos brasileiros?

(Publicado originalmente dia 25 de fevereiro de 2007 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/465.html)

Excertos do texto em que Feynman comenta sobre o ensino de física no Brasil:

Depois da preleção, alguns estudantes formaram uma pequena delegação e vieram até mim, dizendo que eu não havia entendido os antecedentes deles, que eles podiam estudar sem resolver os problemas, que eles já haviam aprendido aritmética e que essa coisa toda estava abaixo do nível deles. Então continuei a aula e, independente de quão complexo ou obviamente avançado o trabalho estivesse se tornando, eles nunca punham a mão na massa. É claro que eu já havia notado o que acontecia: eles não conseguiam fazer. Uma outra coisa que nunca consegui que eles fizessem foi perguntas. Por fim, um estudante explicou-me: “Se eu fizer uma pergunta para o senhor durante a palestra, depois todo mundo vai ficar me dizendo: “Por que você está fazendo a gente perder tempo na aula? Nós estamos tentando aprender realmente alguma coisa, e você o está interrompendo, fazendo perguntas”. Era como um processo de tirar vantagens, no qual ninguém sabe o que está acontecendo e colocam os outros para baixo como se eles realmente soubessem. Eles todos fingem que sabem, e se um estudante faz uma pergunta, admitindo por um momento que as coisas estão confusas, os outros adotam uma atitude de superioridade, agindo como se nada fosse confuso, dizendo àquele estudante que ele está desperdiçando o tempo dos outros. Expliquei a utilidade de se trabalhar em grupo, para discutir as dúvidas, analisá-las, mas eles também não faziam isso porque estariam deixando cair a máscara se tivessem de perguntar alguma coisa a outra pessoa. Era uma pena! Eles, pessoas inteligentes, faziam todo o trabalho, mas adotaram essa estranha forma de pensar, essa forma esquisita de autopropagar a “educação”, que é inútil, definitivamente inútil!

Por fim, eu disse que não conseguia entender como alguém podia ser educado neste sistema de autopropagação, no qual as pessoas passam nas provas e ensinam os outros a passar nas provas, mas ninguém sabe nada. “No entanto”, eu disse, “devo estar errado.”

Esse sistema de autopropagação de informação também vi muito durante minha graduação em física pela Universidade de São Paulo. Mas escrevo sobre isso em detalhes outro dia.


USP 2034: planejando o futuro sem olhar o presente?

Em 2034 a USP completará 100 anos. Ano passado foi organizado pela atual reitora da universidade, Suely Vilela, um workshop comemorando 75 anos da universidade, com um amplo espaço de discussões  sobre o futuro da USP: Planejando o Futuro: USP 2034. Louvável a iniciativa.

Participei de várias apresentações e debates desse workshop. Uma delas, do Filipe Cassapo, superintentende da FNQ, me chamou muito atenção, pois ele explicou a importância de se formar uma rede social para a USP, colocando seu conteúdo online e como isso poderia agregar valor à instituição. Vale a pena ver a apresentação do Filipe, bastante sucinta e objetiva.

O Conhecimento como Recurso Estratégico Agregando Valor à Instituição (22 minutos)

(Download do PDF da apresentação aqui)

Logo depois, durante o debate sobre a apresentação, chamei atenção para o fato de que a USP já possui (ou possuía?) uma plataforma de rede social, o projeto Stoa, onde seus membros podem divulgar suas idéias através de blogs, há espaço para guardar arquivos, fóruns de discussões ou blogs coletivos etc..Vejam o vídeo com minhas explicações sobre o projeto Stoa e alguns questionamentos:

Nessa época o projeto Stoa tinha um pouco menos de 2 anos de existência. Minha pergunta principal para o Filipe foi “Como estimular os docentes a usarem uma plataforma como o Stoa, usando seus blogs para divulgar seu trabalho?”

Após a resposta do Filipe, quem falou foi o professor Glaucious Oliva, elogiando o  que falei sobre o projeto Stoa, tocando num ponto importante, o de que temos que transformar as pessoas. Transcrevo um trecho sobre o que ele disse, com alguns grifos meus:

“O Everton, talvez um dos mais jovens entre os aqui presentes capitou o que eu considero talvez o grande desafio nosso. São as pessoas que vão fazer a diferença. A Universidade de São Paulo tem uma história de 75 anos, tem uma infra-estrutura, um patrimônio, uma tradição, um ativo físico que é expressivo, mas para uma universidade do século XXI, a gente sabe, é o conhecimento o nosso principal ativo e são as pessoas que vão fazer essa transformação. Que dizer, as ferramentas, como o Stoa, por exemplo, estão disponíveis. É um sistema na Internet que o CTI disponibiliza a possibilidade dos professores e estudantes fazerem suas páginas, os seus blogs… mas nós temos que transformar as pessoas, que vão ter que utilizar e que vão ter que aplicar essas ferramentas. Os recursos, como o professor Krieger muito bem lembrou, hoje estão como nunca disponíveis para pesquisa, mas são as pessoas que vão ter que mudar sua maneira de encarar a pesquisa. Quer dizer, nós ainda operamos, seja em sala de aula, seja em laboratório, de uma forma muito linear. O nosso ensino é linear, eu vou para sala de aula, com o giz, e o que o estudante vai aprender ele vai ouvir da boca do professor. Ou eu vou para meu laboratório com os meus estudante, vou estabelecer uma pergunta científica e vou resolvê-la com aquele grupo. Essa linearidade mudou. O mundo hoje é uma rede. O fenômeno Web, que a gente observou explosivamente nos últimos 10 anos, ele se reflete também agora na sociedade como um todo e na universidade em particular. Eu não posso talvez mais imaginar que daqui a 5 ou 10 ou 15 anos o ensino será feito exclusivamente do professor ensinando o aluno. Ele tem hoje acesso à informação, ao conhecimento pela Internet. Então nós temos que encontrar uma maneira de mudar essa relação do acesso ao conhecimento, usando as redes, usando os blogs, usando a Internet, usando também as ferramentas presenciais, é claro.

[…]

“Mas o futuro da ciência com impacto no desenvolvimento econêmico e social do país ele passa pelas redes colaborativas inter-disciplinares. Então também não dá mais para a gente imaginar que somos os detentores do conhecimento e que esse conhecimento será suficiente. Então esse trabalho de compartilhamento, de entender que a soma das partes é mais que o todo, isso vai depender da mudança das pessoas e das lideranças, naturalmente. nós estamos aqui, talvez com 100 pessoas, numa universidade que tem 100 mil, então temos 0,1% da comunidade universitária aqui representada. Mas isso é importante. É importante que as lideranças tenham essa consciência e que nós vamos precisar transformar as pessoas, pois são as pessoas que vão fazer a diferença.

Logo em seguida o professor Marcos Felipe de Sá disse algo curioso, sobre a dificuldade dos docentes usarem essas novas tecnologias, por causa da idade já avançada. O professor Marcos disse explicitamente que isso é uma questão de tempo, pois quando essa geração for substituída (o público presente riu nesse momento), as pessoas vão passar a usar mais essas ferramentas. Isso me lembra o que o Edgar (Walrus) disse, após meu perfil ter sido removido do Stoa, que alguns desses problemas que estamos vendo só serão resolvidos quando uma parte dessa geração atual morrer.

Após ter percebido que na Universidade de São Paulo não há espaço para iniciativas como o Stoa, pois liberdade de expressão parece (ainda!) ser um tabu entre algumas membros com alto poder político nessa instituição, repito o que o professor Glaucius tão bem enfatizou: temos que mudar as pessoas.

Felizmente é possível, atualmente, manifestarmos nossas opiniões na Internet usando serviços de terceiros (no caso, estou usando um serviço gratuito do WordPress, localizado em um outro país! Vejam essa observação de Alexandre Abdo, doutorando da USP).

Assim com meu amigo Carlos Otta disse em seu blog sobre esse episódio, o estado atual de nossa universidade apenas me entristece mais ainda. Tomara que algum dia mude para melhor. Que fique registrado (engraçado que aqui me sinto confortável para escrever, sem medo de ter minhas opiniões tolhidas) para as futuras gerações onde erramos. Uma melhora dessa situação atual independe de termos uma infra-estrutura maravilhosa e ferramentas tecnológicas modernas, se não conseguirmos mudar as pessoas.

Espero podermos olhar bem nossos erros do presente para, aí sim, podermos planejar melhor o futuro.