Um homem como um porco

Boussè, Burkina Faso, 2009. Foto de Marco Bellucci

O ônibus parou no ponto da Avenida Vital Brasil, quando olho pela janela, logo alí, ao meu lado e para todo mundo ver – mas parece que quase ninguém vê -, um senhor com aparência de morador de rua enfiava um copo descartável dentro de um saco preto de lixo, retirando para comer sua refeição, o copo cheio de macarrão misturado a outros dejetos. E ele não parou. Com sua barba mal feita, toda suja com o primeito copo com os restos do macarrão, ele enfia novamente a mão lá e volta a colocar o lixo na boca. O LIXO NA BOCA.

Dá vontade de chorar. Não posso fazer nada naquele momento, apenas ver aquele senhor abandonado, um ser humano que certamente tem uma história, que já teve pai e mãe, que tem anseios e medos como todo nós. Já teve um amor? Já foi amado? Já sentiu o carinho de outro ser humano? Quem não foi e quem não teve. Sonhos e esperança? Ele ri de algo? Talvez não mais.

Hoje está na rua como um porco. A diferença é sua consciência de não ser um porco.

A imagem não sairá da minha memória. A pior quase depois de um mês após voltar de três meses de viagem. É difícil, às vezes, não bater uma profunda tristeza e desejar nunca ter tido consciência desse mundo.


O problema da uniformidade na educação do Brasil: questionamentos

(Publicado originalmente dia 13 de dezembro de 2007 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/12051.html)

Um excerto do livro Da Educação (1926), de Bertrand Russel, capítulo I, Postulados da moderna teoria educacional, páginas 7, 8 e 9. Traduação de Monteiro Lobato, de 1977, do original em inglês On EducationEspecially in Early Childhood (Companhia Editora Nacional).

Ao lermos até mesmo os melhores tratados antigos de educação, observamos certas alterações ocorridas na teoria educacional. Os dois grandes reformadores da educação, antes do século XIX, foram Locke e Rousseau. Ambos merecem a fama que gozam, porque repudiaram muitos erros largamente correntes em seus dias. Mas nenhum foi tão longe em suas idéias pessoais como a quase totalidade dos educadores modernos. Ambos, por exemplo, pertencem à tendência que levou ao liberalismo e à democracia; ainda assim, só consideraram a educação de uma criança aristocrata, à qual um homem tinha que consagrar todo o seu tempo. Por melhores que fossem os resultados desse sistema, nenhum homem de visão moderna dar-lhe-ia atenção, pois é, aritimeticamente, impossível dedicar a uma criança todo o tempo de um professor. Este sistema, pois, só pode ser empregado por uma casta privilegiada; seria impossível num mundo justo. O homem moderno, ainda quando possa buscar vantagens especiais para seus filhos na prática, só considerará o problema teórico da educação como resolvido quando a vir franqueada a todos ou, pelo menos, a todos de capazes de com ela se beneficiarem. Não quero dizer que os abastados devam desistir de certas oportunidades educacionais, pelo simples fato de não as verem franqueadas a todos. Fazê-lo seria sacrificar a civilização por amor à justiça. Minha opinião é que devemos procurar, para o futuro, um sistema educacional que abra a todos os meninos e a todas as meninas as melhores oportunidades possíveis. O sistema ideal de educação deve ser democrático, embora não comporte realização imediata. Creio que ninguém contestará isso. Vou, pois, manter-me no ponto de vista democrático. O que advogarei poderá vir a ser universal, mas no interregno da espera, o indivíduo não deverá sacrificar seus filhos ao “mal vigente”, se tiver inteligência e oportunidade para obter algo melhor. Nem essa atenuada forma de princípio democrático encontramos em Locke e em Rousseau. Rousseau, um descrente da aristocracia, nunca refletiu sobre o que, em matéria de educação, a sua descrença implicava.

Essa questão de democracia e educação é das que exigem a maior clareza. Seria desastroso insistir no ponto morto da uniformidade. Algumas crianças se revelam mais capazes do que outros e podem obter maiores benefícios de uma educação mais apurada. Alguns professores são mais preparados, ou mais naturalmente aptos do que outros, mas é impossível que todos possam ser ensinados por esse diminuto número de professores melhores. Ainda que a mais alta educação fosse desejável para todos (o que duvido), é impossível a todos tê-la no momento e, por isso, uma rígida aplicação dos princípios democráticos poderá levar à conclusão de que ninguém deverá tê-la. A adoção desse modo de ver seria fatal ao progresso científico, e faria com que o nivel geral da educação, daqui a cem anos, fosse desnecessariamente baixo. O progresso não deve ser sacrificado a uma igualdade mecânica atual; precisamos nos aproximar cuidadosamente da democracia, de modo a destruir o menor número possível de valiosos produtos que possam estar associadas à injustiça social.

Não podemos, no entanto, considerar satisfatório um método de edcuação que não seja suscetível de universalizar-se. Os filhos de gente rica muitas vezes têm, além da mãe, uma ama, uma criada, e ainda parte do tempo da criadagem geral; isso envolve uma soma de atenção que em nenhum sistema social poderia ser dada a todas as crianças. É duvidoso que as crianças bem tratadas ganhem em fazer-se desnecessariamente parasíticas; mas, mesmo que não seja assim, nenhum espírito impoarcial poderia recomendar vantagens especiais para algumas apenas, exceto por motivos peculiaríssimos, como debilidade mental ou genealidade. Se puder, um sábio pai dos nossos dias escolherá para seus filhos um método de educação que não seja de fato universal, e por amor à experimentação, é desejável que esses pais tenham o ensejo de recorrer a novos métodos. Contudo, embora produzindo bons resultados, esses métodos hão que generalizar-se e nunca ficar restritos a uns poucos privilegiados. Felizmente, alguns dos melhores elementos da moderna pedagogia tiveram origem extremamente democrática: os trabalhos de Madame Montessori, por exemplo, começaram nas escolas maternais, nos bairros pobres. Na educação mais elevada tornasse indispensável articular capacidade excepcional com a oportunidade excepcional; aliás, não há razão alguma para que uma criança sofra com a adoção de sistemas que possam ser adotados por todos.

Muitos conceitos importantes como o de democracia e justiça, assim como os fins da educação, precisariam ser discutidos, o que não será feito agora. Sobre civilização, nas palavras do próprio Russell, coloquei um excerto sucinto do texto Educação e Disciplina, do livro O Elogio ao Ócio (1935), num outro post Um pouco sobre civilização nas palavras de Bertrand Russell.

O ponto que me chamou mais atenção foi sobre esse desastre da uniformidade, claramente tão empregada em nossas salas de aula aqui do Brasil, até mesmo nas escolas dos ricos. Precisamos relatar mais e mais o que está ocorrendo nas salas de aula, de todos os níveis, do Brasil. Noto, inclusive, que esse nivelamento por baixo ocorre até mesmo numa universidade dita ser uma das melhores do país, a Universidade de São Paulo. Me refiro aos cursos de graduação do Instituto de Física, local onde estudei nos últimos anos. Isso também precisa ser analisado, com calma, num momento posterior, pois quero enfatizar justamente esse nivelamento por baixo que ocorrem nas salas de aula.

Precisamos parar de sacrificar nossos talentos. Por favor, precisamos parar de sacrificar nossos talentos. Precisamos deixar de enganar o povo dando falsos diplomas, falsos atestados, falsas aulas, falsas escolas, falsos professores. Temos que começar a conversar, e muito, sobre tema tão importante, como é o da educação de nossa população. Só assim poderemos ter um número mínimo de pessoas para passar a levar o assunto a sério.

Quais sistemas educacionais já perceberam isso e eliminaram esse tolo amor a justiça? Quais países levam a sério assunto tão importante como o da educação? Em quais exemplos podemos nos inspirar e aprender, com seus erros e acertos? Quais foram os principais erros que cometemos para chegarmos na situação crítica atual? Como vamos convencer uma população sobre a importância da educação que, ainda, tem como fim primário da vida sobreviver, não viver? Quais foram os homens que por aqui passaram, ou ainda estão vivos, que realmente fizeram, ou ainda fazem, algo para que algumas mudanças claramente necessárias passem para o plano concreto?

As pessoas que realmente se preocupam com esse tema precisam, urgentemente, se unir. Pelo amor a nossas crianças.


Sobre a importância dos intelectuais e o estado crítico da educação no Brasil

(Publicado originalmente dia 5 de dezembro de 2007 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/11315.html)

Apenas um pequeno trecho do The Responsibility of Intellectuals, do Chosmky.

“With respect to the responsibility of intellectuals, there are still other, equally disturbing questions. Intellectuals are in a position to expose the lies of governments, to analyze actions according to their causes and motives and often hidden intentions. In the Western world, at least, they have the power that comes from political liberty, from access to information and freedom of expression. For a privileged minority, Western democracy provides the leisure, the facilities, and the training to seek the truth lying hidden behind the veil of distortion and misrepresentation, ideology and class interest, through which the events of current history are presented to us. The responsibilities of intellectuals, then, are much deeper than what Macdonald calls the “responsibility of people,” given the unique privileges that intellectuals enjoy.”

Ando bastante incomodado com as repetidas notícias que tenho lido nos últimos anos sobre a situação da educação no Brasil. Não só com as notícias, como também com as consequências do pouco caso no nosso país com um assunto tão essencial. Acho desnecessário colocar os links para as últimas notícias, pois imagino que todos aqui devem estar cientes delas.

Guardo, em geral, no meu del.icio.us essas informações: http://del.icio.us/everton137/education+Brazil

Acredito que aqueles que se calaram tem uma grande resposabilidade para que as coisas chegassem ao estado atual. Não que sejam os únicos responsáveis. Isso seria bobagem. Mas que quem consente tem responsabilidade, ahhh, se tem!

Precisamos nos unir e, urgentemente, fazer algo.


O abismo entre os estratos sociais do Brasil: por que o silêncio?

(Publicado originalmente dia 29 de fevereiro de 2009 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/43203.html)

Já queria criar esse post com um trecho da Introdução do livro O povo brasileiro (1995), de Darcy Ribeiro. O post do Helder, O mendigo luthier, e alguns comentários dele me impulsionaram a terminá-lo. Ainda estou no começo do livro, mas talvez ele explique um pouquinho porque a minoria privilegiada se cala diante de uma situação tão deplorável que é o abismo social entre ricos e pobres no Brasil.

Segue a transcrição, com alguns trechos destacados por mim (págs. 20 a 22, Companhia de Bolso, 3ª reimpressão):

[…]

Subjacente à uniformidade cultural brasileira, esconde-se uma profunda distância social, gerada pelo tipo de estratificação que o próprio processo de formação nacional produziu. O antagonismo classista que corresponde a toda estratificação social aqui se exacerba, para opor uma estreitíssima camada privilegiada ao grosso da população, fazendo as distâncias sociais mais intransponíveis que as diferenças raciais.

O povo-nação não surge no Brasil da evolução de formas anteriores de sociabilidade, em que grupos humanos se estruturam em classes opostas, mas se conjugam para atender às suas necessidades de sobrevivência e progresso. Surge, isto sim, da concentração de uma força de trabalho escrava, recrutada para servir a propósitos mercantis alheios a ela, através de processos tão violentos de ordenação e repressão que constituíram, de fato, um continuado genocídio e um etnocídio implacável.

Nessas condições, exacerba-se o distanciamento social entre as classes dominantes e as subordinadas, e entre estas e as oprimidas, agravando as oposições para acumular, debaixo da uniformidade étnico-cutural e da uniformidade nacional, tensões dissociativas de caráter traumático. Em conseqüência, as elites dirigentes, primeiro lusitanas, depois luso-brasileiras e, afinal, brasileiras, viveram sempre e vivem ainda sob o pavor pânico do alçamento das classes oprimidas. Boa expressão desse pavor pânico é a brutalidade repressiva contra qualquer insurgência e a predisposição autoritária do poder central, que não admite qualquer alteração da ordem vigente.

A estratificação social separa e opõe, assim, os brasileiros ricos e remediados dos pobres, e todos eles dos miseráveis, mais do que corresponde habitualmente a esses antagonismos. Nesse plano, as relações de classes chegam a ser tão infranqueáveis que obliteram toda comunicação propriamente humana entre a massa do povo e a minoria privilegiada, que a vê e a ignora, a trata e maltrata, a explora e a deplora, como se fosse uma conduta natural. A façanha que representou o processo de fusão racial e cultural é negada, desse modo, no nível aparentemente mais fluido das relações sociais, opondo à unidade de um denominador cultural comum, com que se identifica um povo de 160 milhões de habitantes, a dilaceração desse mesmo povo por uma estratificação classista de nítido colorido racial e do tipo mais cruamente desigualitário que se possa conceber.

O espantoso é que os brasileiros, orgulhosos de sua tão proclamda, como falsa, “democracia racial”, raramente percebem os profundos abismos que aqui separam os estratos sociais. O mais grave é que esse abismo não conduz a conflitos tendentes a transpô-lo, porque se cristalizam num modus vivendi que aparta os ricos dos pobres, como se fossem castas e guetos. Os privilegiados simplesmente se isolam numa barreira de indiferença para com a sina dos pobres, cuja miséria repugnante procuram ignorar ou ocultar numa espécie de miopia social, que perpetua a alternidade. O povo-massa, sofrido e perplexo, vê a ordem social como um sistema sagrado que privilegia uma minoria contemplada por Deus, à qual tudo é consentido e concedido. Inclusive o dom de serem, às vezes, dadivosos, mas sempre frios e perversos e, invariavelmente, imprevisíveis.

Essa alternidade só se potencializou dinamicamente nas lutas seculares dos índios e dos negros contra a escravidão. Depois, somente nas raras instâncias em que o povo-massa de uma região se organiza na luta por um projeto próprio e alternativo de estruturação social, como ocorreu com os Cabanos, em Canudos, no Contestado e entre os Mucker.

Nessas condições de distanciamento social, a amargura provocada pela exacerbação do preconceito classista e pela consciência emergente da injustiça bem pode eclodir, amanhã, em convulsões anárquicas que conflagrem toda a sociedade. Esse risco sempre presente é que explica a preocupação obsessiva que tiveram as classes dominantes pela manutenção da ordem. Sintoma peremptório de que elas sabem muito bem que isso pode suceder, caso se abram as válvulas de contenção. Daí suas “revoluções preventivas”, conducentes a ditaduras vistas como um mal menor que qualquer remendo na ordem vigente.

[…]

Lembro de ter visto há anos, nos Contos da Meia-Noite, da TV Cultura (bem que poderiam fazer mais e retransmitir os episódios já existentes, hein?!), uma excelente atuação de Maria Luisa Mendonça, atriz fantástica, que mostrava bem esse isolamento entre ricos e pobres, relatando toda a parafernália tecnológica, cãmeras, muros, segurança, armas de uma família de classe média para ficarem “seguros” da violência gerada pela pobreza. Infezlimente não consigo lembrar do nome do conto, nem do autor. Se alguém aqui souber, agradeço.


Será que isso explica um pouco sobre a apatia dos alunos brasileiros?

(Publicado originalmente dia 25 de fevereiro de 2007 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/465.html)

Excertos do texto em que Feynman comenta sobre o ensino de física no Brasil:

Depois da preleção, alguns estudantes formaram uma pequena delegação e vieram até mim, dizendo que eu não havia entendido os antecedentes deles, que eles podiam estudar sem resolver os problemas, que eles já haviam aprendido aritmética e que essa coisa toda estava abaixo do nível deles. Então continuei a aula e, independente de quão complexo ou obviamente avançado o trabalho estivesse se tornando, eles nunca punham a mão na massa. É claro que eu já havia notado o que acontecia: eles não conseguiam fazer. Uma outra coisa que nunca consegui que eles fizessem foi perguntas. Por fim, um estudante explicou-me: “Se eu fizer uma pergunta para o senhor durante a palestra, depois todo mundo vai ficar me dizendo: “Por que você está fazendo a gente perder tempo na aula? Nós estamos tentando aprender realmente alguma coisa, e você o está interrompendo, fazendo perguntas”. Era como um processo de tirar vantagens, no qual ninguém sabe o que está acontecendo e colocam os outros para baixo como se eles realmente soubessem. Eles todos fingem que sabem, e se um estudante faz uma pergunta, admitindo por um momento que as coisas estão confusas, os outros adotam uma atitude de superioridade, agindo como se nada fosse confuso, dizendo àquele estudante que ele está desperdiçando o tempo dos outros. Expliquei a utilidade de se trabalhar em grupo, para discutir as dúvidas, analisá-las, mas eles também não faziam isso porque estariam deixando cair a máscara se tivessem de perguntar alguma coisa a outra pessoa. Era uma pena! Eles, pessoas inteligentes, faziam todo o trabalho, mas adotaram essa estranha forma de pensar, essa forma esquisita de autopropagar a “educação”, que é inútil, definitivamente inútil!

Por fim, eu disse que não conseguia entender como alguém podia ser educado neste sistema de autopropagação, no qual as pessoas passam nas provas e ensinam os outros a passar nas provas, mas ninguém sabe nada. “No entanto”, eu disse, “devo estar errado.”

Esse sistema de autopropagação de informação também vi muito durante minha graduação em física pela Universidade de São Paulo. Mas escrevo sobre isso em detalhes outro dia.


Enquanto isso, no brasil… Corte de verbas para Ciência

(Publicado dia 22 de janeiro de 2009 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/41270.html)

Aqui você é o palhaço

Enquanto o presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama, está a caminho de um maior estímulo a pesquisas científicas em seu país, tendência mundial, como na Índia, Coréia do Sul, China (alguém acha um link?) e possivelmente muitos outros países, o Brasil está cortando 18% das verbas destinadas para ciência e tecnologia.

O ministro da ciência e tecnologia, Sérgio Resende, considera o corte de R$ 1,1 bilhão como irresponsável. Segundo a matéria da Folha, o responsável pelo corte é o senador Delcídio Amaral (PT-MS).

Me pergunto, o que o minstro fez para evitar esse corte absurdo?  O que podemos fazer na prática como forma de protesto? Não sei se é reversível, mas os responsáveis devem pagar. Que tal algum leitor daqui adotar o senador Delcídio? (Melhor estender mais ainda a campanha Adote um Vereador, como já sugerido pelo Névio.)

Notícias relacionadas (entendendo a crise):

Veja também

Estou repetindo o post que escrevi no Ars Physica hoje pela manhã.