Um homem como um porco

Boussè, Burkina Faso, 2009. Foto de Marco Bellucci

O ônibus parou no ponto da Avenida Vital Brasil, quando olho pela janela, logo alí, ao meu lado e para todo mundo ver – mas parece que quase ninguém vê -, um senhor com aparência de morador de rua enfiava um copo descartável dentro de um saco preto de lixo, retirando para comer sua refeição, o copo cheio de macarrão misturado a outros dejetos. E ele não parou. Com sua barba mal feita, toda suja com o primeito copo com os restos do macarrão, ele enfia novamente a mão lá e volta a colocar o lixo na boca. O LIXO NA BOCA.

Dá vontade de chorar. Não posso fazer nada naquele momento, apenas ver aquele senhor abandonado, um ser humano que certamente tem uma história, que já teve pai e mãe, que tem anseios e medos como todo nós. Já teve um amor? Já foi amado? Já sentiu o carinho de outro ser humano? Quem não foi e quem não teve. Sonhos e esperança? Ele ri de algo? Talvez não mais.

Hoje está na rua como um porco. A diferença é sua consciência de não ser um porco.

A imagem não sairá da minha memória. A pior quase depois de um mês após voltar de três meses de viagem. É difícil, às vezes, não bater uma profunda tristeza e desejar nunca ter tido consciência desse mundo.

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Antigamente éramos mais humanos?

Lendo agora o texto da jornalista Cristina Castro, Não nos acostumemos mais!, e por causa de uma conversa ontem no encontro do Adote um Vereador, no Pátio do Colégio, acabei lembrando o relato de uma senhora num dia que estava indo para o aeroporto de Guarulhos, isso em 2009. Essa senhora, que já devia ter mais de 80, começou a conversar com o motorista sobre os moradores de rua, na medida em que passávamos no centro de São Paulo e víamos muitos deles dormindo na rua.

Puxando da memória o que ficou, disse ela: “Nossa, quando eu era mais jovem, se víssemos alguém morando na rua, a vizinhança, o pessoal do bairro, logo ia ver porque ele estava assim, o que havia ocorrido para estar lá, na rua e sozinho.” E o motorista, um pouco mais jovem, mostrava seu desconforto diante da situação. O número de moradores de rua hoje é tão grande hoje na cidade de São Paulo, em torno de 13 mil, que esse olhar humano diante de alguém vivendo nas ruas talvez praticamente não existe mais. Ou talvez simplesmente não sabemos o que fazer diante do quadro atual e ficamos quietos. Não podemos ficar quietos.

Durante minha graduação, entre 1999 e 2002, eu pouco vinha para o centro de São Paulo. Tanto que em alguns passeios com alguns amigos estrangeiros que fiz mais tarde, eles mais me guiavam com seus livrinhos do que o contrário. Mas tenho registrado na minha memória, durante a época da graduação, o dia em que vi, pela primeira vez, um ser humano, em plena luz do dia, agachar-se e começar a defecar, logo ali, para todos verem, sentirem o cheiro e, de certo, ignorarem. Foi algo impressionante para alguém pouco acostumado a vir para a região central de São Paulo, pois mais tarde vim a descobrir que isso não era tão incomum.

Há um ano e meio moro na região da Avenida Paulista e também venho frequentando mais a região central. É muito comum eu ter que desviar de alguém dormindo na rua quando ando por aqui ou ver um morador de rua falando sozinho, muitas vezes com cheiro de fezes e urina, algumas vezes andando à esmo nas calçadas de uma das avenidas mais ricas do pais, ali, abandonado, com todos nós não querendo passar perto por causa do cheiro e por causa do medo.

Como morador dessa região, mesmo que recente, minha impressão é que o número de moradores de rua tem aumentado, principalmente após o fechamento dos albergues da região central pelos nossos representantes. Posso falar apenas de impressão, pois nunca contei o número de mendigos, o que deve ser algumas dezenas agora, apenas na área que circulo.

Já transcrevi um trecho do livro O povo brasileiro, do Darcy Ribeiro, em que ele relata esse isolamento dos privilegiados diantes dos estratos mais pobres. O livro é de 1995, já tem mais de 15 anos e o relato é de um quadro que deve ter no mínimo duas décadas. Diante dessa situação de desumanização, que ocorre em outros momentos do nosso dia-a-dia, me pergunto muitas vezes, principalmente quando passo ao lado de um morador, ou quando vejo alguém dormindo dentro de uma caixa de papel, o que precisamos para ter um olhar mais humano para essas pessoas.

Às vezes penso se pegar minha simples câmera e começar a tirar fotos e fazer vídeos dos moradores de rua seria certo. As fotos, certamente, não seriam para fins comerciais, mas para fins de relatar essa omissão diante dos nossos olhos. É uma das idéias. Me parece claro que órgãos públicos também devem fazer alguma coisa, mas uma pressão da sociedade é necessária para que nossos representantes façam algo. Mas diante da passividade do povo brasileiros em questões que até mesmo lhe dizem respeito diretamente, ficou um tanto desanimado e pessimista.

E você, tem alguma idéia do que poderia ser feito?


Chinês, grego, persa ou alguma outra língua?

(Publicado originalmente 19 de março de 2008 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/18708.html Nota: Há poucos meses optei por aprender árabe, mas isso merece um post explicativo, que farei em breve)

Estou cogitando aprender alguma língua por diversão e, sem pesquisar muito, essas línguas do título do post são algumas que já tinha em mente há um bom tempo, por motivações diversas não muito bem definidas ainda. Quero alguma língua com um alfabeto diferente do latino.

Se for levar em conta o número de nativos que falam a língua, certamente chinês ser a primeira na minha lista. Para ler algo original dos gregos, que ainda quero ler muito, como disse num post antigo, acredito a melhor opo ser o grego mesmo (apesar que pretendo estudá-los lendo mais as traduações para o inglês, pois desconfio que ser mais provável achar algo melhor do que em português, além de ter mais livros e textos disponíveis gratuitamente na Internet em inglês). Uma terceira opção é o persa, mais por causa de uma amiga que tenho no Irã, que conheci pela Internet. Também porque ouvi algumas músicas iranianas que me pareceram legais. Ou seja, minhas motivações ainda estão pouco definidas.

Fui pesquisar agora pouco sobre outros alfabetos, para analisar outras possibilidades, e a Wikipedia tem um artigo interessante, que acabou me deixando com mais dúvidas, History of the alphabet. Talvez vou acabar escolhendo alguma língua oriental, vamos ver. A escolha do grego talvez seria muito ocidentocêntica. :-P Sobre o chinês, desconfio que poderão sugir cada vez mais e mais trabalhos interessantes produzidos na China e disponíveis na Internet, como já podemos ver através da lista de universidade chinesas no OpenCourseWare Consortium. Também tenho motivações toscas para escolher o chinês. Apesar de não parecer, tenho tataravós chineses (junto com toda a misturada européia) e a comida que mais gosto é a chinesa (pelo menos a ocidentalizada :-).

Se algum estuda alguma língua com algum alfabeto diferente do que estamos acostumados, gostaria de saber qual sua principal motivação. Quem sabe não acabo descobrindo algo legal que eu ainda no sei sobre essas outras línguas? :-)

Duas páginas boas com cursos gratuitos de várias lnguas: Free Online Language Courses e FSI Language Courses. Pesquisando na Internet deve existir muito mais.


Por que as pessoas só se revoltam quando ocorrem tragédias?

(Publicado originalmente 18 de julho de 2007 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/4778.html)

Quando vemos casos isolados de violência contra algumas poucas pessoas, ou tragédias em que algumas dezenas ou centenas de pessoas morrem, as pessoas não param de comentar sobre o assunto todas revoltosas, não pára de sair matéria na mídia, não param de tentar achar os responsáveis. Essas são as tragédias locais.

Por que não vemos a mesma revolta nas pessoas e repercussão quando ocorrem eventos que prejudicam toda uma sociedade, por exemplo, os absurdos na administração do dinheiro público que vemos a todo instante, cujas consequências podem ser a morte (lenta, é verdade) de milhões? Inclusive, até soa estranho usar o termo tragédia para esse caso, já que o desvio do dinheiro público não causa piedade ou horror em praticamente ninguém.

As tragédias acabam sendo capa de jornais e revistas durante meses e até anos, enquanto esses problemas que atingem milhões de pessoas, passadas algumas semanas, todo mundo esquece e sempre sai (se sai) apenas num cantinho do jornal.


Animals — Animais

Jaguar

I think I could turn and live with animals,

they are so placid and self-contained

I stand and look at them long and long.

They do not sweat and whine about their condition,

They do not lie awake in the dark and weep for their sins,

They do not make me sick discussing their duty to God,

Not one is dissatisfied,

not one is demented with the mania of owning things,

Not one kneels to another,

nor to his kind that lived thousands of years ago,

Not one is respectable or industrious over the whole earth.

Walt Whitman

Creio que poderia transformar-me e viver com os animais,

eles são tão calmos e donos de si.

Detenho-me para contemplá-los sem parar.

Eles não anseiam nem se queixam da própria condição,

Eles não passam a noite em claro, remoendo as suas culpas,

Nem me aborrecem falando de sua obrigações para com Deus,

Nenhum deles se mostra insatisfeito,

nenhum deles se acha dominado pela mania de possuir coisas,

Nenhum deles fica de joelho diante de outro,

nem diante da recordação de outros da mesma espécie que viveram há milhares de anos,

Nenhum deles é respeitável ou desgraçado em todo mundo.

Walt Whitman

Foto: Adrian Jones


Sou um criminoso

Você já trocou algumas músicas com seus amigos? Fez alguma cópia de um filme passando na TV para assistir mais tarde? Fez alguma cópia de um DVD ou CD que você comprou? Ao invés de ir até a biblioteca mais próxima, leu no seu computador algum livro em formato eletrônico que estava a um clique de distância? Deixou na pasta da sua disciplina um livro para seus alunos fazerem uma cópia? Já copiou algum livro ou trecho de livro, porque seria economicamente inviável comprar todos os livros necessários para um determinado fim? Usou algum artigo científico que não constava na lista de periódicos de sua universidade? Até mesmo copiou algum poema sem pedir autorização para o autor, usando num cartão romântico para sua pessoa querida? Usou algum avatar de alguma figura que achou na Internet e nem sequer notificou o autor? Contou alguma piada sem se preocupar com quem a criou? Usou alguma figura que achou na Internet ou revista para algum trabalho do colégio ou faculdade? Ou você é daqueles que roubou algo da lista de David Weinberger?!

Se respondeu sim a alguma dessas perguntas, você juntou-se ao grupo dos criminosos do “copyright”. Vou tirar uma foto mais tarde e enviar para eles.

(Publicado originalmente dia 13 de setembro de 2008 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/31970.html)


Juno: sugestão para quem enfrenta o problema da gravidez durante a adolêscencia

Juno_an_Paulie

Se você é uma jovem adolescente que acaba de se deparar com o problema da gravidez precoce e chegou até aqui, deixo logo minha sugestão, caso não leia até o final do texto: assista ao filme Juno (crítica em português). Certamente muitas de vocês já devem ter ouvido as mais absurdas opiniões, como “Engravidou, agora você é responsável pelos seus atos.” Quero deixar claro que, apesar de considerar um erro um jovem casal gerar uma criança, não acho que eles devam, como uma punição moral, se sentirem culpados pelo descuido e, num país como o nosso, muito provavelmente ignorância ou falta de perspectiva a longo prazo. Me refiro a ignorância não apenas sobre métodos contraceptivos, como também, principalmente, sobre a responsabilidade de criar uma criança. Como pode alguém achar que um adolescente é capaz de dar os cuidados necessários que toda criança merece? Acredito que quem pensa que sim não pode estar usando a razão e quer, devido ao seu senso de justiça moral, impor a punição nos adolescentes, quando, na verdade, o principal prejudicado é o novo ser que está por vir a nascer.

Em relação ao filme, logo no começo, quando a adolescente de 16 anos, Juno, representada por Ellen Page (que atuação simpática!), uma das primeiras coisas que ela pensa em fazer é abortar. Chega a ir numa clínica de aborto, mas desiste (apesar de eu ser a favor da possibilidade de escolha de aborto pela mãe, não vou entrar no mérito da questão aqui, ainda mais por viver numa sociedade como a nossa, onde crenças dogmáticas preponderam). Percebe-se que Juno, ao querer contar para os pais que está grávida, demonstra um enorme sentimento de culpa. A reação dos pais, após descobrirem o que ocorrera, é um tanto amigável. Outra atitude que acho importante para os pais numa situação como essa: apoiar seus filhos e não crucificá-los cruelmente, os ajudando a tomar a melhor decisão diante do já ocorrido.

Abandonada a idéia do aborto, Juno decide doar sua criança. Como num passe de mágica (comum a um filme), logo encontra um casal e vai, mais tarde, conhecê-los para certificar que são as pessoas adequadas para cuidarem da criança. Atitude louvável, na minha opinião, para quem é contra o aborto. Se temos na sociedade pessoas com condições financeiras, psicológicas e que possam dar amor para uma criança, porém enfrentam dificuldades para gerar um bebê, por que não dar essa oportunidade a eles? Não vejo o ato da doação no presente contexto apenas como uma fuga do problema (cuidar de uma criança ainda imaturos), mas como a melhor solução para o problema.

O desenrolar do filme é muito bom. A graciosa atuação de Ellen Page é muito divertida. Escolheram uma ótima atriz para o papel da adolescente que enfrenta o problema junto com o seu amigo Paulie, o pai da criança. Alguns obstáculos enfrentados pelo casal que vai receber a criança, como a incerteza de que Juno vai realmente doar a criança, também são interessantes. Para um casal que se gosta e quer ter filhos, como deve ser chata a situação de criarem uma expectativa de adotar alguma criança, mas acabarem recebendo um não. Apesar de que, na minha opinião, para se adotar não é necessário que a criança seja apenas recém nascida.

Escrevi um dia desses que, atualmente, não cogito, de forma alguma, ter um filho meu. Como tentei argumentar sobre meu ponto de vista, para que ter filhos? Por que não adotar?

Fica aqui minha sugestão dessa divertida comédia-dramática, com uma trilha sonora bem bacana e, principalmente, sobre um tema tão importante abordado de forma inteligente. Importante pois, afinal, termos tantas crianças com cuidados aquém do que merecem é o começo do mundo tão cruel em que vivemos.

(Publicado originalmente 25 de março de 2008 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/19102.html)