Para que ter filhos? Por que não adotar?

(Publicado originalmente 8 de fevereiro dee 2008 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/15577.html)

Um questionamento sem muita reflexão sobre a resposta, apesar de eu ter uma opinião formada atualmente, que pode mudar,certamente, como já mudou. Como sempre gostei de crianças, antigamente eu pensava em algum dia ter uma família e filhos. Isso na época que pouco lia jornais, menos conhecia os humanos e tinha uma visão mais otimista quanto ao rumo do planeta. *risos* Acredito que deve ser uma experiência fantástica cuidar de uma criança filha minha, apesar das dificuldades que devem existir e eu nem imagino quais são, pois não sou pai. Que seja, isso é apenas especulação.

Agora, mesmo que eu decida algum dia ter uma família com filho e tenha condições financeiras para ajudar no sustento dessa família (certamente minha esposa também ajudaria, caso contrário não seria minha esposa :-), por que ter um filho meu ao invés de adotar? Se temos um mundo como o nosso, com tantas coisas ruins, para que vou criar mais um ser consciente de tudo isso. Sei que há muita coisa boa, fato, mas tenho dúvidas se elas compensam a quantidade de coisas ruins (isso é um assunto que pretendo não tocar agora, é muito complicado!). Pode ser uma visão muito pessimista. Acho que não.

Além disso, de gerar mais um ser consciente, nascem (e nascerão! :-() tantas crianças filhas de pais irresponsáveis e ignorantes, que ou serão abandonadas, ou terão vidas miseráveis, seja financeiramente, seja sem o bom trato que toda criança deveria ter. Sobre o que é bom trato, isso me parece um pouco intuitivo, mas acho que não é bem assim para a maioria das pessoas. Basta vermos o número de crianças que vemos trabalhando para seus pais, as que apanham e tantas outras mazelas que vemos crianças sofrerem.

Levando esses dois fatores em conta, colocar mais alguém no mundo e já existe muita gente que precisa de uma família decente, não seria mais sensato adotar crianças? Qual seria a justificativa para ter um filho, caso eu queira algum dia adotar uma família? A justificativa ‘quero ter um filho com meu gene’ tem algum sentido? Não para mim.

Pensei nisso esses dias, apesar de eu saber que ainda vai demorar uns bons anos para eu chegar na situação ideal, na minha opinião, para constituir uma família. Apenas mais um pensamento aleatório.

Créditos

Foto tirada por carf (clique na foto para ampliá-la).


Igreja da Razão

(Publicado originalmente dia 9 de setembro de 2008 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/31696.html)

[…]

“O discurso começa referindo-se a uma notícia sobre um prédio de igreja rural que tinha sobre a entrada principal um luminoso de marca de cerveja. O prédio fora vendido, e estava sendo usado como bar. E de supor que, a essa altura, a turma começasse a rir. As farras da faculdade eram famosas, e a metáfora mais ou menos correspondia. O artigo dizia que os provisores receberam algumas reclamações por causa disso. Era uma igreja católica, e o padre encarregado de responder às críticas parecia bastante irritado com o que estava acontecendo. Para ele, o fato mostrava que as pessoas ignoravam o que fosse uma igreja. Pensavam que tijolos, tábuas e vidro constituíam uma igreja? Ou o formato do telhado? Aquilo era um exemplo do mesmo materialismo desprezado pela Igreja, disfarçado em piedade. O prédio em questão não era mais um lugar santo. Perdera o caráter sagrado, e pronto. O anúncio de cerveja estava à porta de um bar, não de uma igreja. Aqueles que não conheciam a diferença estavam simplesmente mostrando o que eram.

Fedro declarou então que existia o mesmo tipo de confusão com relação à universidade. E por isso era difícil compreender a perda do reconhecimento. A verdadeira universidade não é um objeto material. Não é um conjunto de edifícios que pode ser defendido pela polícia. Quando uma faculdade perdia o reconhecimento, não vinha ninguém fechar a escola. Não havia penalidades legais, multas, nem mandados de prisão. As aulas não terminavam. Tudo continuava como antes. Os alunos recebiam a mesma educação que receberiam se a escola continuasse sendo reconhecida. Só que haveria aceitação oficial de uma situação já existente. Era algo parecido com a excomunhão. A verdadeira universidade, que nenhuma assembléia poderia influenciar, e que nunca poderia ser identificada como qualquer disposição de tijolos, tábuas e vidro, simplesmente declararia que este não é mais um “lugar santo”. A verdadeira universidade deixaria este local, e só sobrariam os tijolos, os livros e as manifestações materiais.

Os estudantes devem ter ficado perplexos ao ouvir tais idéias, e creio que Fedro deve ter-se calado por um bom tempo, para que elas fossem absorvidas, talvez esperando por uma pergunta do tipo: “E o que acha você que é a verdadeira universidade?”

Em suas anotações encontra-se a seguinte resposta:

“A verdadeira universidade não se localiza num lugar específico. Não tem propriedades, não paga salários, não recebe taxas materiais. A verdadeira universidade é um estado de espírito. É a grande herança do pensamento racional que nos foi legada ao correr dos séculos e que não tem lugar específico para ficar. É um estado de espírito que se renova através dos séculos, graças a um grupo de pessoas que ostentam tradicionalmente o título de professor, título esse que, no fundo, também não faz parte da universidade. A verdadeira universidade é nada mais nada menos que o corpo contínuo da razão em si.

Além desse estado de espírito, a razão , existe uma entidade legal que, infelizmente, atende pelo mesmo nome, mas que é muito diferente. Esta é uma empresa sem fins lucrativos, uma filial do estado, com endereço específico. Possui propriedades, pode pagar salários, receber dinheiro e reagir também a pressões do legislativo.

Porém, esta segunda universidade, a empresa legal, não pode ensinar, não pode gerar novos conhecimentos, nem avaliar idéias. Não é a verdadeira universidade. É apenas o prédio da igreja, o cenário, o local onde se criaram condições favoráveis para que a verdadeira Igreja exista.

As pessoas que não enxergam essa diferença ficam sempre confusas, pensando que controlar o prédio da igreja é o mesmo que controlar a Igreja. Eles vêem os professores como empregados da segunda universidade que deveriam deixar a razão de lado quando lhes fosse solicitado e obedecer ordens sem objeções. Exatamente como os empregados de outros tipos de empresa.

Enxergam a segunda universidade, não a primeira.”

[…]

O objetivo principal da Igreja da Razão é sempre o velho objetivo socrático de buscar a verdade, em suas formas em constante mutação, conforme é revelada pelo processo da racionalidade. Tudo o mais deve subordinar-se a isso. Normalmente, tal objetivo não entra em choque com o intuito local de edificar a comunidade, mas às vezes ocorrem certos conflitos, como no caso do próprio Sócrates. É quando os curadores e legisladores que contribuíram com grandes quantidades de dinheiro e tempo para construir a sede da universidade se opõem às aulas ou pronunciamentos dos professores. Passam então a pressionar a administração, ameaçando cortar as verbas se os professores não disserem o que eles querem ouvir. Coisas como essas também acontecem.

Em tais situações, os verdadeiros sacerdotes devem agir como se nem tivessem ouvido as ameaças. Seu objetivo principal nunca é servir à comunidade, acima de tudo. Seu objetivo principal é servir, através da razão, à busca da verdade.”

[…]

Excertos. Capítulo 13, Zen e a arte da manutenção de motocicletas, Robert M. Pirsig.


O problema da uniformidade na educação do Brasil: questionamentos

(Publicado originalmente dia 13 de dezembro de 2007 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/12051.html)

Um excerto do livro Da Educação (1926), de Bertrand Russel, capítulo I, Postulados da moderna teoria educacional, páginas 7, 8 e 9. Traduação de Monteiro Lobato, de 1977, do original em inglês On EducationEspecially in Early Childhood (Companhia Editora Nacional).

Ao lermos até mesmo os melhores tratados antigos de educação, observamos certas alterações ocorridas na teoria educacional. Os dois grandes reformadores da educação, antes do século XIX, foram Locke e Rousseau. Ambos merecem a fama que gozam, porque repudiaram muitos erros largamente correntes em seus dias. Mas nenhum foi tão longe em suas idéias pessoais como a quase totalidade dos educadores modernos. Ambos, por exemplo, pertencem à tendência que levou ao liberalismo e à democracia; ainda assim, só consideraram a educação de uma criança aristocrata, à qual um homem tinha que consagrar todo o seu tempo. Por melhores que fossem os resultados desse sistema, nenhum homem de visão moderna dar-lhe-ia atenção, pois é, aritimeticamente, impossível dedicar a uma criança todo o tempo de um professor. Este sistema, pois, só pode ser empregado por uma casta privilegiada; seria impossível num mundo justo. O homem moderno, ainda quando possa buscar vantagens especiais para seus filhos na prática, só considerará o problema teórico da educação como resolvido quando a vir franqueada a todos ou, pelo menos, a todos de capazes de com ela se beneficiarem. Não quero dizer que os abastados devam desistir de certas oportunidades educacionais, pelo simples fato de não as verem franqueadas a todos. Fazê-lo seria sacrificar a civilização por amor à justiça. Minha opinião é que devemos procurar, para o futuro, um sistema educacional que abra a todos os meninos e a todas as meninas as melhores oportunidades possíveis. O sistema ideal de educação deve ser democrático, embora não comporte realização imediata. Creio que ninguém contestará isso. Vou, pois, manter-me no ponto de vista democrático. O que advogarei poderá vir a ser universal, mas no interregno da espera, o indivíduo não deverá sacrificar seus filhos ao “mal vigente”, se tiver inteligência e oportunidade para obter algo melhor. Nem essa atenuada forma de princípio democrático encontramos em Locke e em Rousseau. Rousseau, um descrente da aristocracia, nunca refletiu sobre o que, em matéria de educação, a sua descrença implicava.

Essa questão de democracia e educação é das que exigem a maior clareza. Seria desastroso insistir no ponto morto da uniformidade. Algumas crianças se revelam mais capazes do que outros e podem obter maiores benefícios de uma educação mais apurada. Alguns professores são mais preparados, ou mais naturalmente aptos do que outros, mas é impossível que todos possam ser ensinados por esse diminuto número de professores melhores. Ainda que a mais alta educação fosse desejável para todos (o que duvido), é impossível a todos tê-la no momento e, por isso, uma rígida aplicação dos princípios democráticos poderá levar à conclusão de que ninguém deverá tê-la. A adoção desse modo de ver seria fatal ao progresso científico, e faria com que o nivel geral da educação, daqui a cem anos, fosse desnecessariamente baixo. O progresso não deve ser sacrificado a uma igualdade mecânica atual; precisamos nos aproximar cuidadosamente da democracia, de modo a destruir o menor número possível de valiosos produtos que possam estar associadas à injustiça social.

Não podemos, no entanto, considerar satisfatório um método de edcuação que não seja suscetível de universalizar-se. Os filhos de gente rica muitas vezes têm, além da mãe, uma ama, uma criada, e ainda parte do tempo da criadagem geral; isso envolve uma soma de atenção que em nenhum sistema social poderia ser dada a todas as crianças. É duvidoso que as crianças bem tratadas ganhem em fazer-se desnecessariamente parasíticas; mas, mesmo que não seja assim, nenhum espírito impoarcial poderia recomendar vantagens especiais para algumas apenas, exceto por motivos peculiaríssimos, como debilidade mental ou genealidade. Se puder, um sábio pai dos nossos dias escolherá para seus filhos um método de educação que não seja de fato universal, e por amor à experimentação, é desejável que esses pais tenham o ensejo de recorrer a novos métodos. Contudo, embora produzindo bons resultados, esses métodos hão que generalizar-se e nunca ficar restritos a uns poucos privilegiados. Felizmente, alguns dos melhores elementos da moderna pedagogia tiveram origem extremamente democrática: os trabalhos de Madame Montessori, por exemplo, começaram nas escolas maternais, nos bairros pobres. Na educação mais elevada tornasse indispensável articular capacidade excepcional com a oportunidade excepcional; aliás, não há razão alguma para que uma criança sofra com a adoção de sistemas que possam ser adotados por todos.

Muitos conceitos importantes como o de democracia e justiça, assim como os fins da educação, precisariam ser discutidos, o que não será feito agora. Sobre civilização, nas palavras do próprio Russell, coloquei um excerto sucinto do texto Educação e Disciplina, do livro O Elogio ao Ócio (1935), num outro post Um pouco sobre civilização nas palavras de Bertrand Russell.

O ponto que me chamou mais atenção foi sobre esse desastre da uniformidade, claramente tão empregada em nossas salas de aula aqui do Brasil, até mesmo nas escolas dos ricos. Precisamos relatar mais e mais o que está ocorrendo nas salas de aula, de todos os níveis, do Brasil. Noto, inclusive, que esse nivelamento por baixo ocorre até mesmo numa universidade dita ser uma das melhores do país, a Universidade de São Paulo. Me refiro aos cursos de graduação do Instituto de Física, local onde estudei nos últimos anos. Isso também precisa ser analisado, com calma, num momento posterior, pois quero enfatizar justamente esse nivelamento por baixo que ocorrem nas salas de aula.

Precisamos parar de sacrificar nossos talentos. Por favor, precisamos parar de sacrificar nossos talentos. Precisamos deixar de enganar o povo dando falsos diplomas, falsos atestados, falsas aulas, falsas escolas, falsos professores. Temos que começar a conversar, e muito, sobre tema tão importante, como é o da educação de nossa população. Só assim poderemos ter um número mínimo de pessoas para passar a levar o assunto a sério.

Quais sistemas educacionais já perceberam isso e eliminaram esse tolo amor a justiça? Quais países levam a sério assunto tão importante como o da educação? Em quais exemplos podemos nos inspirar e aprender, com seus erros e acertos? Quais foram os principais erros que cometemos para chegarmos na situação crítica atual? Como vamos convencer uma população sobre a importância da educação que, ainda, tem como fim primário da vida sobreviver, não viver? Quais foram os homens que por aqui passaram, ou ainda estão vivos, que realmente fizeram, ou ainda fazem, algo para que algumas mudanças claramente necessárias passem para o plano concreto?

As pessoas que realmente se preocupam com esse tema precisam, urgentemente, se unir. Pelo amor a nossas crianças.


Uma chama de esperança que não pode apagar…

(Publicado originalmente dia 13 de setembro de 2007 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/6567.html)

Lembro-me até hoje do calafrio que senti quando li o prólogo da autobiografia de Bertrand Russell, ainda no meio da minha graduação em física, há alguns anos atrás, What have I lived for (Para que vivi). Tinha descoberto mais um herói.

Three passions, simple but overwhelmingly strong, have governed my life: the longing for love, the search for knowledge, and unbearable pity for the suffering of mankind. These passions, like great winds, have blown me hither and thither, in a wayward course, over a great ocean of anguish, reaching to the very verge of despair. (grifos meus)

Até então admirava Mahatma Gandhi, apesar de apenas conhecer um pouco sobre ele através de um filme, que me marcou quando vi ainda quando eu tinha uns 15 anos, e depois sua autobiografia, que li no começo de minha graduação, por volta do ano 2000. Conheço pouco sobre Gandhi, mas quero acreditar que foi um grande homem, assim como quero acreditar que Russell o foi. Espero descobrir outros heróis.

Acho curioso terem sido raras as ocasiões, durante toda minha vida, em que encontrei pessoas que admirassem outrém. Muito pelo contrário. Cheguei, principalmente quando mais jovem do que atualmente, a me sentir como um passarinho fora do ninho quando comentava sobre minha admiração das idéias e ações de alguns homens. Felizmente, recentemente descobri o seguinte texto de Will Durant, da Introdução do livro ‘Os grandes pensadores’, que encontrei num sebo (excerto):

Dos muito ideais que na mocidade dão à vida uma significação e uma radiância que faltam a algumas friorentas perspectivas da idade madura, um pelo menos não se adormeceu em mim, permanecendo brilhante como no começo – a intrépida adoração dos heróis. Numa idade que nivela tudo e nada reverencia, ponho-me ao lado de Carlyle e acendo minhas velas, como Pico de Mirandola diante da imagem de Platão, no santuário dos grandes homens.

Digo intrépida porque sei como está fora de moda admitir na vida ou na história, gênio mais alto do que nós mesmos. O dogma democrático nivelou não somente todos eleitores com todos líderes; deleitamo-nos em demonstrar que os gênios vivos não passam de mediocridades e que os gênios mortos não passam de mitos. Ao crermos em Wells, César foi um pateta, e Napoleão, um louco. Mas como é contrário o bom-tom de louvar-nos a nós próprios, chegamos ao mesmo fim por uma senda indireta: rebaixando todos os grandes homens da terra. Em alguns isso será, talvez, um nobre impiedoso ascetismo que procura arrancar dos corações os últimos vestígios da adoração, de medo que os deuses voltem e de novo nos aterrorizem.

De minha parte apego-me à religião dos heróis e nela descubro contentamento e estímulo mais duradouro que os peculiares aos êxtases devotos da mocidade. […]

[…]

Contemplar tais homens, insinuar-nos pelo estudo em seu convívio, observá-los no labor e aquecer-nos à flama que os consome – isto é reconquistar alguma coisa do êxtase que a juventude nos dava, quando no altar ou no confessionário sentimos a presença de Deus. Nessa sonhadora juventude criamos que a vida era um mal, e que só a morte nos poderia erguer ao paraíso. Erro. Ainda em vida podemos penetrar no Éden. Cada grande livro, cada obra de arte, cada biografia dum grande homem, constitui um apelo e um abre-te sezamo para os Campos Elísios.

Muito cedo apagamos a chama da nossa esperança e da nossa reverência. Mudemos nossos ídolos e reacendamos as velas.

Está fora de moda admitir gênio mais alto do que nós mesmos. O livro é de meados do século passado. Talvez esteja aí um indício da resposta a minha curiosidade.


Ping-pong intelectual

(Publicado originalmente dia 12 de marçode 2007 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/931.html)

Também experimentei pela primeira vez a controvérsia do debate filosófico. Evans era um debatedor intenso, impaciente e inflexível; como mencionei antes, ele sentia prazer em constranger os ingênuos (talvez demasiado prazer). A atmosfera na sua aula era intimadora e excitante ao mesmo tempo. Como vim a saber mais tarde, essa é uma característica comum do debate filosófico. Não a sonora recitação de vagas profundidades, mas um conflito de intelectos analiticamente brilhantes, com egos palpitantes atrelados a eles. De fato, verdade seja dita, a filosofia e o ego nunca estão muito distantes. A discussão filosófica pode ser uma modalidade violenta de esporte intelectual, no qual os egos são feridos e abatidos, ou até mesmo crucificados. Observei pessoas lívidas e com a boca seca antes de fazerem uma exposição para uma audiência de pessoas seletas, e visivelmente abaladas ao término dela. Ninguém gosta de ser refutado publicamente, e em filosofia isso acontece o tempo todo. Percebi em Evans alguém com uma habilidade considerável para o debate e sem dúvida fiquei atraído pelo tipo de poder e respeito que isso proporciona. Mostrar-se por vaidade é também uma característica da vida filosófica.

‘Lógica e linguagem’, do livro ‘A construção de um filósofo‘, Colin McGinn (filósofo descrevendo o quadro de um departamento de filosofia em Oxford na década de 70).

Será que no Brasil existe um ambiente como esse? Me parece improvável, senão impóssível. Pelo menos no momento.

Muitos de nós sabemos que muito existe dessa recitação de vagas profundidades…


Cooperação e liberdade

(Publicado originalmente dia 10 de março de 2007 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/902.html)

Excerto do capítulo “Ensinar ou não ensinar”, do livro “De Eros a Gaia”, de Freeman Dyson:

Eu pertencia a uma pequena minoria de meninos que não era dotado de força física nem habilidade atlética, tinha outros interesses que não o futebol e estava comprimido entre a opressão da lixa e do chicote. (Lixa de outros estudantes, chicote do diretor que ensinva latim) Odiávamos o diretor com sua gramática latina e odiávamos ainda mais os meninos cuja cabeça só comportava futebol. O que poderia fazer para se defender essa minoria de pobres intelectuais indefesos, que mais tarde e em outro país difou conhecida como nerd? (o outro país é os EUA) Descobrimos nosso refúgio na ciência. Sem nenhuma ajuda das autoridades escolares, fundamos uma sociedade científica. Como minoria perseguida, procuramos não chamar atenção. Realizávamos nossas reuniões de forma discreta e quieta. Não podíamos nos aventurar em experiências de verdade. Tudo o que podíamos fazer era partilhar nossos livros e explicar uns para os outros o que não entendíamos. Mas aprendíamos muito. Mais que qualquer outra coisa, aprendemos aquelas lições que não poderiam ser ministradas nos cursos formais, que a ciência é uma ação harmoniosa de cérebros contra a ignorância, que a ciência é uma vingança das vítimas contra o opressor; que a ciência é um território de liberdade e amizade em meio à tirania e o ódio.

Lendo isso, sinto calafrios.

Idealizo que melhoras ainda são possíveis. Idealizo que algumas almas ainda podem ir de encontro à liberdade e a amizade. Idealizo menos ódio.