Aluno baleado na cabeça é morto na USP. Será que agora as otoridades farão algo?

Há algum tempo, no começo de 2009, quando participava do projeto Stoa (uma rede social da Universidade de São Paulo), cheguei a criar uma página para mapearmos o crime dentro da USP, mais precisamente a Cidade Universitária, local que frequentei durante muitos anos (graduação, pós e durante alguns projetos dentro dessa universidade). Minha maior preocupação, na época, surgiu após ler um relato chocante do estudante Sidney (Assaltos na USP (no Campus e no entono)), pertinho da portaria onde passei diversas vezes e por onde meu irmão passava para ir para sua casa.

Agora temos uma notícia que nessa quinta feira, 19 de maio, um estudante foi assassinado no estacionamento da FEA. Não é a primeira vez que ocorre um homicídio dentro da universidade. Lembro que em 2003, após grande movimentação que vi a partir de minha sala no departamento de física matemática do IFUSP (eu era estudante de mestrado na época), um segurança pediu para eu esperar antes de ir embora, pois havia um assalto armado nos arredores. Descobri ao longo da semana que um vigia do IFUSP havia sido morto a tiro.

E esse não é o único caso em que uma segurança mais eficiente faz-se necessário. Lembro de ter lido e ouvido relatos de diversos casos de estupro, com reações das mais absurdas da segurança, como pegar a garota estuprada para ir atrás do criminoso. Os furtos e roubos (pelo menos os divulgados) sempre foram muito altos. Um ponto era o do roubo dos carros, outro o de rádio e por aí vai.

Claro que apenas a polícia militar (PM) dentro do campus do Butantã não será suficiente para ajudar a resolver os problemas de segurança. Mas esse é um problema importante que deve ser discutido e medidas serem tomadas. Praticamente não vou mais na USP, portanto não ando muito informado se alguma discussão sobre o tema e, principalmente, ações sendo tomadas – espero que sim.

Aliás, aos que são contra PM dentro do campus, lembrem-se que eles já estão aí. Ou é uma alucinação minha a viatura que sempre fica rondando a praça dos bancos? ;) Se você for um dos que é contra a polícia pois quer continuar fumando um baseado, dia 21 é uma boa oportunidade de você se manifestar. E lembre-se, se você compra o baseado dos traficantes da favela aí ao lado, só está contribuindo para aumentar a probabilidade de um jovem achar mais fácil ganhar dinheiro vendendo drogas ilícitas no Brasil, ao invés de estudar. Sugiro importar ou plantar no quintal, nesse caso.

Infelizmente alguns outros posts meus no Stoa sobre o tema foram deletados, inclusive com críticas e registros do abuso de poder das otoridades, como uma viatura andar, em plena luz do dia, na Praça do Relógio ou na praça dos bancos, em horário de grande movimentação. Tomara que o o debate reacenda dessa vez e medidas efetivas sejam tomadas. E que essas medidas sejam tomadas não só porque, dessa vez, foi um aluno morto (ou, talvez, só porque é um aluno com algum vínculo mais próximo às otoridades da universidade).

Se voltarem a usar o mapa do crime na universidade, espero que seja não apenas para visualizar as estatísticas.

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As crianças de Realengo e as crianças abandonadas do Brasil

Há um bom tempo quero escrever sobre algo que me incomoda muito, o número de crianças que vejo abandonadas e nossa (minha também) omissão diante dessa situação. Vou ser breve agora sobre um ponto que me chamou atenção por causa da barbárie que ocorreu no Rio de Janeiro.

Nas regiões que ando com mais frequência no meu dia-a-dia, centro e zona oeste da cidade de São Paulo, vejo crianças dormindo nas ruas, trabalhando nas ruas – muitas forçadas pelos pais -, trabalhando nos semáforos, prostituindo-se, usando drogas pesadas. Sem falar nas crianças abandonadas nas chamadas escolas, essas também abandonadas pela sociedade.

Para termos uma idéia da inversão de valores da administração pública e dos representantes do povo da cidade em que vivo, um exemplo que vi, na última semana, durante a apresentação de um balanço do plano de metas da cidade depois de dois anos (veja página 7 aqui). Ainda temos 100 mil crianças que não tem acesso à creche, de uma demanda de 230 mil. Estamos atrasados para atingir essa meta. Segundo Mauricio Faria, que apresentou o balanço, houve uma parceria da cidade de São Paulo com o estado de São Paulo, no valor de R$ 60 milhões, para a construção de mais creches. Em contraposição, foram gastos R$ 2 bilhões na ampliação das marginais. É 33 vezes o valor para a construção das creches! Ora, se estão faltando vagas para as crianças, o que é mais importante? (Não quero dizer que o problema do transporte deve ser esquecido, nem pretendo levantar nada agora sobre os métodos adotados para atacar esse problema.)

Diante desse quadro de abandono das crianças – milhares, talvez milhões, se levarmos em conta as chamadas escolas! -, pelo menos na cidade que vivo – ainda pretendo fazer um relato mais detalhado -, o que não deve ser muito diferente no resto do país, alguém me explica por que tanto falam, só agora, do futuro que poderiam ter as 12 crianças assassinadas no Rio de Janeiro? Ou sobre a tentativa alucinada de achar um culpado (o maluco já está morto) para essa tragédia?

Sobre o jornalismo marrom, não é necessário explicação. É de se esperar o uso de tragédias apenas para vender jornal. O que não consigo entender é esse momentâneo surto de preocupação com o futuro das crianças, sendo que todo dia pouco ouço sobre as crianças abandonadas do Brasil. Para essa situação, sim, deveríamos refletir sobre os culpados: todos nós.


Herege, peça desculpas ao seu professor!

(Publicado originalmente 27 de setembro de 2007 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/6943.html)

Apenas uma reminiscência que algumas leituras agora me fizeram lembrar.

Em 2004, na metade do meu mestrado em física de partículas elementares (mestrado fracassado, que entrarei em detalhes algum outro dia), pouco antes de partir para uma escola de verão que participei sobre física de neutrinos, em Trento, no ECT*, um evento me chocou. O professor Victor Rivelles enviou um email para a lista geral do departamento de física matemática, do IFUSP, reclamando dos alunos de pós-graduação que não iam nos colóquios do departamento. Apenas respondi ao professor que isso não era tão difícil de se compreender, além do fato consumado que nem os professores do IFUSP serviam (ainda não servem?) de exemplo aos alunos, pois frequentavam raramente os colóquios, palestras e seminários mais gerais do instituto de física da USP (não posso afirmar, não podia, nem nunca afirmei, sobre a frequência dos professores nos colóquios dos outros departamentos).

Para minha surpresa, minha então orientadora me chamou esse dia, pedindo que eu fosse me desculpar com professor Rivelles. Ela me disse que o professor Rivelles foi falar com ela (por que será que ele não veio falar diretamente comigo?), pois não tinha entendido meu email, já que meu nome não aparecia em nenhum dos livros de assinatura dos colóquios. Me explicando que eu não assinava os livros, por achar que não passava de mera formalidade, pois devíamos ir ao colóquios pelo interesse no assunto (coisa que eu ainda tinha muito na época), além de ter ido na maioria dos colóquios.

Mesmo assim, insistiram no pedido de desculpas.

Fui falar com o professor Rivelles e apenas repeti, em palavras, o que eu pensava sobre o assunto. Também expliquei para ele porque eu não assinava (quase nunca assinei – apenas quando minha orientadora me via nos colóquios do departamento, hehehe) e me parece (não ficou muito claro para mim o que ele pensou, portanto apenas parece) que ele compreendeu, apesar de não concordar comigo que eu não queria assinar o livro. Obviamente não pedi as desculpas.

Desculpas por que? Fiz algo errado? Falei alguma mentira?

Segue o email:

Re: IMPORTANTE: SOBRE OS COLÓQUIOS DO DFMA


  • To: “Victor O. Rivelles” <>
  • SubjectRe: IMPORTANTE: SOBRE OS COLÓQUIOS DO DFMA
  • FromEverton Zanella Alvarenga <>
  • Date: Thu, 29 Apr 2004 12:53:57 -0300 (BRT)
  • Cc: Lista da Física Matemática <dfma-gen@fma.if.usp.br>, “Lista soc-gen (alunos do IFUSP)” <soc-gen@socrates.if.usp.br>, Lista do Cefisma <cefisma-lista@socrates.if.usp.br>
  • Delivered-to: mailing list dfma-gen@fma.if.usp.br
  • In-reply-to: <Pine.LNX.4.44.0404281304400.4744-100000@strings.if.usp.br>
  • Mailing-list: contact dfma-gen-help@fma.if.usp.br; run by ezmlm
  • Sender: Everton Zanella Alvarenga <>

Prezados professor Rivelles e demais,

de fato é lamentável, no entanto acredito que este seja um problema que
comece bem cedo, quando os alunos ingressam no curso de graduação.
Se vocês vissem o número de alunos que iam nos seminários voltados para os
próprios alunos de graduação, ficariam desolados. Inclusive, neste ano,
_nenhum_ aluno tomou a iniciativa em continuar organizando os seminários
(http://euclides.if.usp.br/~seminar) [(1) correção desse link no final do post].Talvez porque alguns alunos que
acham que estão fazendo alguma coisa preocupam-se ou com o “movimento sem
terra” ou querem que os professores passem mais horas copiando os livros
na lousa (ao alunos, minha sugestão é que os docentes dêem 2 créditos ao
invés de 6, sobrando mais tempo para vocês estudarem e discutirem física,
e NÃO política hein).

Talvez seja interessante desde cedo os professores falarem sobre isso para
os alunos de graduação. Senão teremos que ter listas de presenças para
“estimular” os alunos a irem, ou quem sabe, atrai-los meramente pela fome
do estômago e não pela da mente. Inclusive, este fenômeno, acredito eu,
ocorre numa escala muito maior aqui no IFUSP. Basta vermos a quantidade de
professores que tem o hábito de ir nos colóquios de quinta. Talvez existam
alguns que _nunca_ foram a eventos desta natureza.

Sobre as perguntas, concordo que deveria haver mais discussões/críticas no
final/durante os colóquios/seminários por parte dos alunos, mas eu
pergunto, qual é o exemplo que os professores/pesquisadores do IFUSP dão?

Sobre a página que o senhor mandou, perceba como as coisas estão bem
_centralizadas_ e organizadas. Veja como a página é bonita e bem
estruturada. Este endereço é apenas um exemplo entre inúmeros que já vi
nas páginas de institutos de física do exterior. Será que é preciso de
dinheiro para isso?

Caso exista quórum para me ajudar, fico a disposição para fazermos uma
página para os seminários/colóquios do departamento. Cordialmente,

Everton.

On Thu, 29 Apr 2004, Victor O. Rivelles wrote:

> Caros colegas e estudantes do DFMA,
>
> É lamentável que a audiência dos colóquios esteja tão baixa. No segundo
> semestre de 2003 a média foi de 27 pessoas por seminário enquanto que
> neste semestre a média tem sido de 19! O último colóquio, em 27 de abril,
> foi assistido por apenas 11 pessoas, dos quais 7 eram estudantes!!!
>
> Que alguns professores não compareçam por não sentirem-se atraídos pelo
> tema do colóquio, ou por terem compromissos no mesmo horário, é, até certo
> ponto, compreensível. Por outro lado, a atitude apática dos estudantes que
> não comparecem aos colóquios é aterradora. Imaginar que é perda de tempo
> assistir a um seminário que não tem nada a ver com sua própria tese e
> achar que é melhor resolver uma lista de exercícios durante esse tempo, é
> ledo engano. A formação de um físico vai muito além de ser capaz de fazer
> listas de exercícios e compreender o que escreveu na tese. É necessário
> situar o problema da tese dentro de um contexto mais geral, que envolve
> uma visão detalhada de sua linha de pesquisa e a inserção dessa linha de
> pesquisa dentro das grandes tendências da física contemporânea. Caso
> contrário, faz-se do trabalho de pesquisa uma mera formalidade, algo a ser
> executado apenas para obter-se um título ou mais uma publicação. Além
> disso, é necessário preparar o terreno para o pós-doutorado, para que este
> não vire uma mera extensão do trabalho de doutorado. Para isso, é
> necessário aprender novas técnicas, novas maneiras de abordar o mesmo
> problema e visualizar conexões com outros problemas. Sem isso, o
> pesquisador fica restrito, sem idéias, incapaz de produzir resultados
> interessantes. Parece, entretanto, que muitos estudantes não se dão conta
> de que os colóquios oferecem os passos iniciais para se atingir esses
> objetivos. Não percebem que essa é a maneira mais rápida e econômica de
> adquirir novos conhecimentos que serão de grande utilidade durante e após
> o doutorado. Tenho feito um grande esforço para que os colóquios sejam
> acessíveis a todos, mesmo aos alunos que acabaram de ingressar, pedindo
> aos seminaristas para não darem enfâse à parte técnica. A grande maioria
> dos colóquios têm sido nesse estilo. Tudo pronto e fácil para ser
> digerido. Parece, porém, que o apetite científico ainda precisa ser
> estimulado.
>
> Também surpreende-me a atitude dos estudantes de outros estados. Na grande
> maioria dos departamentos de física fora de SP é extremamente difícil
> manter um série regular de seminários. O principal motivo é o custo
> envolvido. O IFUSP é uma das poucas exceções, não só pelos colóquios do
> departamento como também pela grande variedade de seminários que são
> ofertados em todo o instituto. E isso só vai ser percebido quando os
> estudantes retornarem aos seus lugares de origem, ou quando os recém
> doutores nativos, que nunca sairam de SP, obtiverem um emprego em outro
> estado. Uma oportunidade rara está sendo desperdiçada! E acrescente-se,
> financiada com recursos públicos.
>
> Muitos devem estar imaginando que estou exagerando e supervalorizando os
> colóquios. Se voce pensa assim dê uma olhada no primeiro mundo. Não é
> necessário ir até lá, a internet está aí para isso. Veja o MIT, por
> exemplo:
>
http://www-ctp.mit.edu/seminars.html
>
> O colóquio para estudantes é chamado “CPT Lunch Club”. Horário: meio-dia.
> Porque meio dia? Não há aulas nesse horário de forma que todos podem
> assistir. E o almoço? Para que ninguém use isso como desculpa o almoço
> fica por conta do MIT. Free lunch!!! Eles podem arcar com essa despesa;
> nós, ainda não.
>
> A pesquisa científica é uma atividade extremamente recompensadora quando o
> objetivo está centrado na elaboração de perguntas e na busca de respostas,
> na compreensão do conhecido e na descoberta de novos horizontes. Por outro
> lado, torna-se extremamente entediante quando usada para outras
> finalidades. Se voce sofre de sonolência durante um colóquio fique
> alerta; talvez seja a hora de reavaliar seus objetivos. Afinal, como disse
> Einstein “Most of the fundamental ideas of science are essentially simple,
> and may, as a rule, be expressed in a language comprehensible to
> everyone.”
>
> Aguardo todos no próximo colóquio! Cordiais saudações,
>
> Victor Rivelles
>

********************************************************
Universidade de São Paulo, Instituto de Física (IFUSP)
Departamento de Física Matemática

Everton Zanella Alvarenga everton@fma.if.usp.br
Página: http://fma.if.usp.br/~everton
********************************************************

Fonte: http://fma.if.usp.br/lists/dfma-gen-2004/msg00032.html

(1) Correção do link: atualmente em

http://socrates.if.usp.br/~everton/seminarios/


USP criar portal para discutir problemas da universidade

Reinventando a roda

Em mais uma de suas iniciativas, a USP sai na frente. Diversos professores do Núcleo de Políticas Públicas da USP criaram um site onde professores serão convidados a fazer análises fundamentadas e serão aceitas contribuições espontâneas de membros da comunidade (será que incluem ex-alunos?). Veja aqui a carta enviada pelos professores explicando melhor o site, Um espaço para o debate sobre a USP, onde destaco (grifos meus):

[…]

As estruturas tradicionais de organização e gestão das universidades mostraram-se inadequadas para operar com eficiência neste novo cenário mundial e para oferecer o suporte necessário à atuação de docentes e pesquisadores. Reformas estão em curso em quase todos os países. Em comparação, nós, na USP, parecemos navegar à deriva, presos a soluções e organizações que estão se tornando rapidamente obsoletas e sem lideranças que nos permitam definir um projeto compatível com a magnitude de nosso potencial social e intelectual.

A última greve que ocorreu na USP parece que fez aflorar a insatisfação com os rumos que a universidade vem seguindo, a qual se extravasou em cartas, entrevistas, protestos e manifestos divulgados pelos jornais.

A presença freqüente de professores e alunos na imprensa tem um papel importante na vida universitária mas, ao mesmo tempo, indica um problema que não podemos mais a ignorar: o fato de que a comunidade acadêmica não encontra, dentro da USP um canal de expressão de suas críticas e de suas insatisfações. Para se fazer ouvir dentro da universidade é preciso falar de fora dela. Isto revela a falência do sistema de representação que regula a participação da comunidade acadêmica na gestão da universidade, o qual não consegue captar, traduzir, expressar e colocar em debate as posições e os anseios da comunidade universitária. Isto se reflete nos órgãos de gestão, os quais se mostram incapazes de reconhecer a gravidade da crise, de diagnosticar os problemas que precisam ser enfrentados e de definir os rumos que a universidade deve tomar. As autoridades universitárias  com poucas exceções, tem se eximido de sua responsabilidade e dos seus mais importantes compromissos institucionais, como a renovação dos programas de ensino, as iniciativas para ampliar o escopo, os objetivos e o financiamento da pesquisa, e  a interação e interlocução com a sociedade, cujos grandes dilemas nem sempre encontram a necessária repercussão nas atividades de investigação e de extensão d universidade.

[…]

Curiosamente isso me lembrou uma apresentação sobre redes sociais, num workshop organizado ano passado pela reitoria para discutir o futuro da USP. Preciso comentar? :-D

Agora me bateu uma forte dúvida: quem decidirá quais textos deverão ser publicados ou não?


Para que ter filhos? Por que não adotar?

(Publicado originalmente 8 de fevereiro dee 2008 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/15577.html)

Um questionamento sem muita reflexão sobre a resposta, apesar de eu ter uma opinião formada atualmente, que pode mudar,certamente, como já mudou. Como sempre gostei de crianças, antigamente eu pensava em algum dia ter uma família e filhos. Isso na época que pouco lia jornais, menos conhecia os humanos e tinha uma visão mais otimista quanto ao rumo do planeta. *risos* Acredito que deve ser uma experiência fantástica cuidar de uma criança filha minha, apesar das dificuldades que devem existir e eu nem imagino quais são, pois não sou pai. Que seja, isso é apenas especulação.

Agora, mesmo que eu decida algum dia ter uma família com filho e tenha condições financeiras para ajudar no sustento dessa família (certamente minha esposa também ajudaria, caso contrário não seria minha esposa :-), por que ter um filho meu ao invés de adotar? Se temos um mundo como o nosso, com tantas coisas ruins, para que vou criar mais um ser consciente de tudo isso. Sei que há muita coisa boa, fato, mas tenho dúvidas se elas compensam a quantidade de coisas ruins (isso é um assunto que pretendo não tocar agora, é muito complicado!). Pode ser uma visão muito pessimista. Acho que não.

Além disso, de gerar mais um ser consciente, nascem (e nascerão! :-() tantas crianças filhas de pais irresponsáveis e ignorantes, que ou serão abandonadas, ou terão vidas miseráveis, seja financeiramente, seja sem o bom trato que toda criança deveria ter. Sobre o que é bom trato, isso me parece um pouco intuitivo, mas acho que não é bem assim para a maioria das pessoas. Basta vermos o número de crianças que vemos trabalhando para seus pais, as que apanham e tantas outras mazelas que vemos crianças sofrerem.

Levando esses dois fatores em conta, colocar mais alguém no mundo e já existe muita gente que precisa de uma família decente, não seria mais sensato adotar crianças? Qual seria a justificativa para ter um filho, caso eu queira algum dia adotar uma família? A justificativa ‘quero ter um filho com meu gene’ tem algum sentido? Não para mim.

Pensei nisso esses dias, apesar de eu saber que ainda vai demorar uns bons anos para eu chegar na situação ideal, na minha opinião, para constituir uma família. Apenas mais um pensamento aleatório.

Créditos

Foto tirada por carf (clique na foto para ampliá-la).


Amigos da educação e suas benditas listas de presença

(Publicado originalmente 10 de abril de 2008 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/20344.html)

Recentemente, após conhecer mais estudantes de outros cursos além dos muros do instituto de física (IF), descobri que muitos cursos da USP exigem lista de presença (a ECA é um exemplo notável). Questionaram recentemente aqui no Stoa sobre por que exigem 50% da pontuação nas avaliações dos cursos, enquanto a presença exigida é de 70%. Não sei o que se passa na cabeça dos amigos da educação para defenderem que seja assim (olá, olá amigos da educação! algum de vocês poderia responder?), mas posso citar casos que vivenciei durante minha graduação, para tentarmos entender um pouco o que ocorre.

No IFUSP, durante toda minha graduação, apenas um professor de disciplinas teóricas que cursei,Kazunori Watari, exigiu lista de presença – foram os cursos de mecânica I e II (não analisarei a qualidade do curso, agora). Obviamente os cursos de laboratório também exigiam a presença (para minha infelicidade, em relação a muitas aulas), o que acho certo.

Um exemplo marcante que ocorreu comigo, logo quando entrei na USP. Passei no curso de licenciatura em física sem saber muito bem a diferença entre os cursos de licenciatura e bacharelado. Antes da matrícula, um pouco mais informado sobre as diferenças (não só sobre os objetivos dos dois cursos, como as diferenças dos cursos em si), já tinha começado a me informar na seção de alunos como mudar para o bacharelado. Me disseram que tinha que esperar o final do primeiro semestre. Antes do fim do semestre, a primeira pessoa que procurei foi a professora Maria Regina (então coordenadora do curso de licenciatura, se não me engano), por indicação de alguém que não me lembro, como uma possível ajuda para meu caso. Conversando com ela, “descobri” que seria impossível a mudança, pois o curso ‘Introdução a mecânica’, da licenciatura, tinha apenas 4 créditos, enquanto Física 0, 6 créditos (na graduação do IF os créditos correspondem a quantidade de horas de aula por semana). Fiquei um pouco triste no dia, por causa da contradição sobre o que tinham me informado na seção de alunos, logo no dia da matrícula.

Não satisfeito com a situação, procurei a comissão de graduação e a informação correta é que seria possível a mudança, como de fato ocorreu. A única coisa que tive que fazer foi um cáculo diferencial e integral II a mais (no segundo semestre, fiz cálculo II da licenciatura e bacharelado ao mesmo tempo – curioso um licenciado ter que cursar cálculo diferencial e integral light, não? Enfim, não é o assunto aqui), mais as disciplinas de laboratório da licenciatura, para substituir os laboratórios I e II do bacharelado. No final, após cumprir o exigido, mudei para o bacharelado e levei o curso numa boa.

Outros exemplos análogos da época do colégio me vêm à cabeça, mas acho que esse no começo do curso da USP exemplifica bem a mentalidade que reina nas nossas instituições de ensino, de todos os níveis. Será por acaso muitos dos alunos que chegam dos colégios esperarem uma postura paternalista dos seus professores, mesmo durantes os cursos de graduação, até mesmo no final deles? Minha hipótese é que não e uma das principais causas é, na minha opinião, essa mentalidade que assola até mesmo nossas instituições de ensino superiores.

Conseguindo convencer os amigos da educação que menos horas dentro da sala de aula é possível, sem diminuir a qualidade da formação dos alunos, o problema não pode ser resolvido de uma hora para outra, é claro. Se, logo no começo dos cursos de graduação, começarmos a mudar radicalmente o grau de exigência por uma maior independência dos alunos, ao invés de ter aulas-teatro, onde o professor engana que está ensinando e o aluno que está aprendendo, talvez teríamos muitos alunos não conseguindo se formar num tempo adequado.

Minha proposta é que, ao longo do curso, os professores vão exigindo uma maior independência. Lembrando da quantidade de horas e cursos no final de minha graduação, sempre me incomodava a quantidade de horas que tínhamos que passar dentro da sala de aula. Se um aluno prefere estudar sozinho e consegue ir bem nas avaliações do professor, por que obrigá-lo a ficar dentro da sala de aula? Gosto do que Bertrand Russell e Richard Feynman dizem a respeito disso, enfatizando que o principal do professor é levar o aluno a ver por si mesmo. Gostaria, sinceramente, de saber o que os amigos da educações tanto vêem no processo de simples transmissão de informação que, claro, deve existir, mas não é só isso.