Manifesto da Guerilha pelo Acesso Aberto

Aaron Swartz

Aaron Swartz

Informação é poder. Mas, como todo o poder, há aqueles que querem mantê-lo para si mesmos. O patrimônio científico e cultural do mundo, publicado ao longo dos séculos em livros e revistas, é cada vez mais digitalizado e trancado por um punhado de corporações privadas. Quer ler as revistas científicas apresentando os resultados mais famosos das ciências? Você vai precisar enviar enormes quantias para editoras como a Reed Elsevier.

Há aqueles que lutam para mudar esta situação. O Movimento pelo Acesso Aberto tem lutado bravamente para garantir que os cientistas não assinem seus direitos autorais por aí, mas, em vez disso, assegura que o seu trabalho seja publicado na Internet, sob termos que permitem o acesso a qualquer um. Mas mesmo nos melhores cenários, o trabalho deles só será aplicado a coisas publicadas no futuro. Tudo até agora terá sido perdido.

Esse é um preço muito alto a pagar. Obrigar pesquisadores a pagar para ler o trabalho dos seus colegas? Digitalizar bibliotecas inteiras mas apenas permitindo que o pessoal da Google possa lê-las? Fornecer artigos científicos para aqueles em universidades de elite do primeiro mundo, mas não para as crianças no sul global? Isso é escandaloso e inaceitável.

“Eu concordo”, muitos dizem, “mas o que podemos fazer? As empresas que detêm os direitos autorais fazem uma enorme quantidade de dinheiro com a cobrança pelo acesso, e é perfeitamente legal – não há nada que possamos fazer para detê-los.” Mas há algo que podemos, algo que já está sendo feito: podemos contra-atacar.

Aqueles com acesso a esses recursos – estudantes, bibliotecários, cientistas – a vocês foi dado um privilégio. Vocês começam a se alimentar nesse banquete de conhecimento, enquanto o resto do mundo está bloqueado. Mas vocês não precisam – na verdade, moralmente, não podem – manter este privilégio para vocês mesmos. Vocês têm um dever de compartilhar isso com o mundo.  E vocês têm que negociar senhas com colegas, preencher pedidos de download para amigos.

Enquanto isso, aqueles que foram bloqueados não estão em pé de braços cruzados. Vocês vêm se esgueirando através de buracos e pulando cercas, libertando as informações trancadas pelos editores e as compartilhando com seus amigos.

Mas toda essa ação se passa no escuro, num escondido subsolo. É chamada de roubo ou pirataria, como se compartilhar uma riqueza de conhecimentos fosse o equivalente moral a saquear um navio e assassinar sua tripulação. Mas compartilhar não é imoral – é um imperativo moral. Apenas aqueles cegos pela ganância iriam negar a deixar um amigo fazer uma cópia.

Grandes corporações, é claro, estão cegas pela ganância. As leis sob as quais elas operam exigem isso – seus acionistas iriam se revoltar por qualquer coisinha. E os políticos que eles têm comprado por trás aprovam leis dando-lhes o poder exclusivo de decidir quem pode fazer cópias.

Não há justiça em seguir leis injustas. É hora de vir para a luz e, na grande tradição da desobediência civil, declarar nossa oposição a este roubo privado da cultura pública.

Precisamos levar informação, onde quer que ela esteja armazenada, fazer nossas cópias e compartilhá-la com o mundo. Precisamos levar material que está protegido por direitos autorais e adicioná-lo ao arquivo. Precisamos comprar bancos de dados secretos e colocá-los na Web. Precisamos baixar revistas científicas e subí-las para redes de compartilhamento de arquivos. Precisamos lutar pela Guerilla pelo Acesso Aberto.

Se somarmos muitos de nós, não vamos apenas enviar uma forte mensagem de oposição à privatização do conhecimento – vamos transformar essa privatização em algo do passado. Você vai se juntar a nós?

Aaron Swartz
Julho de 2008, Eremo, Itália.

Créditos:

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Herege, peça desculpas ao seu professor!

(Publicado originalmente 27 de setembro de 2007 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/6943.html)

Apenas uma reminiscência que algumas leituras agora me fizeram lembrar.

Em 2004, na metade do meu mestrado em física de partículas elementares (mestrado fracassado, que entrarei em detalhes algum outro dia), pouco antes de partir para uma escola de verão que participei sobre física de neutrinos, em Trento, no ECT*, um evento me chocou. O professor Victor Rivelles enviou um email para a lista geral do departamento de física matemática, do IFUSP, reclamando dos alunos de pós-graduação que não iam nos colóquios do departamento. Apenas respondi ao professor que isso não era tão difícil de se compreender, além do fato consumado que nem os professores do IFUSP serviam (ainda não servem?) de exemplo aos alunos, pois frequentavam raramente os colóquios, palestras e seminários mais gerais do instituto de física da USP (não posso afirmar, não podia, nem nunca afirmei, sobre a frequência dos professores nos colóquios dos outros departamentos).

Para minha surpresa, minha então orientadora me chamou esse dia, pedindo que eu fosse me desculpar com professor Rivelles. Ela me disse que o professor Rivelles foi falar com ela (por que será que ele não veio falar diretamente comigo?), pois não tinha entendido meu email, já que meu nome não aparecia em nenhum dos livros de assinatura dos colóquios. Me explicando que eu não assinava os livros, por achar que não passava de mera formalidade, pois devíamos ir ao colóquios pelo interesse no assunto (coisa que eu ainda tinha muito na época), além de ter ido na maioria dos colóquios.

Mesmo assim, insistiram no pedido de desculpas.

Fui falar com o professor Rivelles e apenas repeti, em palavras, o que eu pensava sobre o assunto. Também expliquei para ele porque eu não assinava (quase nunca assinei – apenas quando minha orientadora me via nos colóquios do departamento, hehehe) e me parece (não ficou muito claro para mim o que ele pensou, portanto apenas parece) que ele compreendeu, apesar de não concordar comigo que eu não queria assinar o livro. Obviamente não pedi as desculpas.

Desculpas por que? Fiz algo errado? Falei alguma mentira?

Segue o email:

Re: IMPORTANTE: SOBRE OS COLÓQUIOS DO DFMA


  • To: “Victor O. Rivelles” <>
  • SubjectRe: IMPORTANTE: SOBRE OS COLÓQUIOS DO DFMA
  • FromEverton Zanella Alvarenga <>
  • Date: Thu, 29 Apr 2004 12:53:57 -0300 (BRT)
  • Cc: Lista da Física Matemática <dfma-gen@fma.if.usp.br>, “Lista soc-gen (alunos do IFUSP)” <soc-gen@socrates.if.usp.br>, Lista do Cefisma <cefisma-lista@socrates.if.usp.br>
  • Delivered-to: mailing list dfma-gen@fma.if.usp.br
  • In-reply-to: <Pine.LNX.4.44.0404281304400.4744-100000@strings.if.usp.br>
  • Mailing-list: contact dfma-gen-help@fma.if.usp.br; run by ezmlm
  • Sender: Everton Zanella Alvarenga <>

Prezados professor Rivelles e demais,

de fato é lamentável, no entanto acredito que este seja um problema que
comece bem cedo, quando os alunos ingressam no curso de graduação.
Se vocês vissem o número de alunos que iam nos seminários voltados para os
próprios alunos de graduação, ficariam desolados. Inclusive, neste ano,
_nenhum_ aluno tomou a iniciativa em continuar organizando os seminários
(http://euclides.if.usp.br/~seminar) [(1) correção desse link no final do post].Talvez porque alguns alunos que
acham que estão fazendo alguma coisa preocupam-se ou com o “movimento sem
terra” ou querem que os professores passem mais horas copiando os livros
na lousa (ao alunos, minha sugestão é que os docentes dêem 2 créditos ao
invés de 6, sobrando mais tempo para vocês estudarem e discutirem física,
e NÃO política hein).

Talvez seja interessante desde cedo os professores falarem sobre isso para
os alunos de graduação. Senão teremos que ter listas de presenças para
“estimular” os alunos a irem, ou quem sabe, atrai-los meramente pela fome
do estômago e não pela da mente. Inclusive, este fenômeno, acredito eu,
ocorre numa escala muito maior aqui no IFUSP. Basta vermos a quantidade de
professores que tem o hábito de ir nos colóquios de quinta. Talvez existam
alguns que _nunca_ foram a eventos desta natureza.

Sobre as perguntas, concordo que deveria haver mais discussões/críticas no
final/durante os colóquios/seminários por parte dos alunos, mas eu
pergunto, qual é o exemplo que os professores/pesquisadores do IFUSP dão?

Sobre a página que o senhor mandou, perceba como as coisas estão bem
_centralizadas_ e organizadas. Veja como a página é bonita e bem
estruturada. Este endereço é apenas um exemplo entre inúmeros que já vi
nas páginas de institutos de física do exterior. Será que é preciso de
dinheiro para isso?

Caso exista quórum para me ajudar, fico a disposição para fazermos uma
página para os seminários/colóquios do departamento. Cordialmente,

Everton.

On Thu, 29 Apr 2004, Victor O. Rivelles wrote:

> Caros colegas e estudantes do DFMA,
>
> É lamentável que a audiência dos colóquios esteja tão baixa. No segundo
> semestre de 2003 a média foi de 27 pessoas por seminário enquanto que
> neste semestre a média tem sido de 19! O último colóquio, em 27 de abril,
> foi assistido por apenas 11 pessoas, dos quais 7 eram estudantes!!!
>
> Que alguns professores não compareçam por não sentirem-se atraídos pelo
> tema do colóquio, ou por terem compromissos no mesmo horário, é, até certo
> ponto, compreensível. Por outro lado, a atitude apática dos estudantes que
> não comparecem aos colóquios é aterradora. Imaginar que é perda de tempo
> assistir a um seminário que não tem nada a ver com sua própria tese e
> achar que é melhor resolver uma lista de exercícios durante esse tempo, é
> ledo engano. A formação de um físico vai muito além de ser capaz de fazer
> listas de exercícios e compreender o que escreveu na tese. É necessário
> situar o problema da tese dentro de um contexto mais geral, que envolve
> uma visão detalhada de sua linha de pesquisa e a inserção dessa linha de
> pesquisa dentro das grandes tendências da física contemporânea. Caso
> contrário, faz-se do trabalho de pesquisa uma mera formalidade, algo a ser
> executado apenas para obter-se um título ou mais uma publicação. Além
> disso, é necessário preparar o terreno para o pós-doutorado, para que este
> não vire uma mera extensão do trabalho de doutorado. Para isso, é
> necessário aprender novas técnicas, novas maneiras de abordar o mesmo
> problema e visualizar conexões com outros problemas. Sem isso, o
> pesquisador fica restrito, sem idéias, incapaz de produzir resultados
> interessantes. Parece, entretanto, que muitos estudantes não se dão conta
> de que os colóquios oferecem os passos iniciais para se atingir esses
> objetivos. Não percebem que essa é a maneira mais rápida e econômica de
> adquirir novos conhecimentos que serão de grande utilidade durante e após
> o doutorado. Tenho feito um grande esforço para que os colóquios sejam
> acessíveis a todos, mesmo aos alunos que acabaram de ingressar, pedindo
> aos seminaristas para não darem enfâse à parte técnica. A grande maioria
> dos colóquios têm sido nesse estilo. Tudo pronto e fácil para ser
> digerido. Parece, porém, que o apetite científico ainda precisa ser
> estimulado.
>
> Também surpreende-me a atitude dos estudantes de outros estados. Na grande
> maioria dos departamentos de física fora de SP é extremamente difícil
> manter um série regular de seminários. O principal motivo é o custo
> envolvido. O IFUSP é uma das poucas exceções, não só pelos colóquios do
> departamento como também pela grande variedade de seminários que são
> ofertados em todo o instituto. E isso só vai ser percebido quando os
> estudantes retornarem aos seus lugares de origem, ou quando os recém
> doutores nativos, que nunca sairam de SP, obtiverem um emprego em outro
> estado. Uma oportunidade rara está sendo desperdiçada! E acrescente-se,
> financiada com recursos públicos.
>
> Muitos devem estar imaginando que estou exagerando e supervalorizando os
> colóquios. Se voce pensa assim dê uma olhada no primeiro mundo. Não é
> necessário ir até lá, a internet está aí para isso. Veja o MIT, por
> exemplo:
>
http://www-ctp.mit.edu/seminars.html
>
> O colóquio para estudantes é chamado “CPT Lunch Club”. Horário: meio-dia.
> Porque meio dia? Não há aulas nesse horário de forma que todos podem
> assistir. E o almoço? Para que ninguém use isso como desculpa o almoço
> fica por conta do MIT. Free lunch!!! Eles podem arcar com essa despesa;
> nós, ainda não.
>
> A pesquisa científica é uma atividade extremamente recompensadora quando o
> objetivo está centrado na elaboração de perguntas e na busca de respostas,
> na compreensão do conhecido e na descoberta de novos horizontes. Por outro
> lado, torna-se extremamente entediante quando usada para outras
> finalidades. Se voce sofre de sonolência durante um colóquio fique
> alerta; talvez seja a hora de reavaliar seus objetivos. Afinal, como disse
> Einstein “Most of the fundamental ideas of science are essentially simple,
> and may, as a rule, be expressed in a language comprehensible to
> everyone.”
>
> Aguardo todos no próximo colóquio! Cordiais saudações,
>
> Victor Rivelles
>

********************************************************
Universidade de São Paulo, Instituto de Física (IFUSP)
Departamento de Física Matemática

Everton Zanella Alvarenga everton@fma.if.usp.br
Página: http://fma.if.usp.br/~everton
********************************************************

Fonte: http://fma.if.usp.br/lists/dfma-gen-2004/msg00032.html

(1) Correção do link: atualmente em

http://socrates.if.usp.br/~everton/seminarios/


Igreja da Razão

(Publicado originalmente dia 9 de setembro de 2008 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/31696.html)

[…]

“O discurso começa referindo-se a uma notícia sobre um prédio de igreja rural que tinha sobre a entrada principal um luminoso de marca de cerveja. O prédio fora vendido, e estava sendo usado como bar. E de supor que, a essa altura, a turma começasse a rir. As farras da faculdade eram famosas, e a metáfora mais ou menos correspondia. O artigo dizia que os provisores receberam algumas reclamações por causa disso. Era uma igreja católica, e o padre encarregado de responder às críticas parecia bastante irritado com o que estava acontecendo. Para ele, o fato mostrava que as pessoas ignoravam o que fosse uma igreja. Pensavam que tijolos, tábuas e vidro constituíam uma igreja? Ou o formato do telhado? Aquilo era um exemplo do mesmo materialismo desprezado pela Igreja, disfarçado em piedade. O prédio em questão não era mais um lugar santo. Perdera o caráter sagrado, e pronto. O anúncio de cerveja estava à porta de um bar, não de uma igreja. Aqueles que não conheciam a diferença estavam simplesmente mostrando o que eram.

Fedro declarou então que existia o mesmo tipo de confusão com relação à universidade. E por isso era difícil compreender a perda do reconhecimento. A verdadeira universidade não é um objeto material. Não é um conjunto de edifícios que pode ser defendido pela polícia. Quando uma faculdade perdia o reconhecimento, não vinha ninguém fechar a escola. Não havia penalidades legais, multas, nem mandados de prisão. As aulas não terminavam. Tudo continuava como antes. Os alunos recebiam a mesma educação que receberiam se a escola continuasse sendo reconhecida. Só que haveria aceitação oficial de uma situação já existente. Era algo parecido com a excomunhão. A verdadeira universidade, que nenhuma assembléia poderia influenciar, e que nunca poderia ser identificada como qualquer disposição de tijolos, tábuas e vidro, simplesmente declararia que este não é mais um “lugar santo”. A verdadeira universidade deixaria este local, e só sobrariam os tijolos, os livros e as manifestações materiais.

Os estudantes devem ter ficado perplexos ao ouvir tais idéias, e creio que Fedro deve ter-se calado por um bom tempo, para que elas fossem absorvidas, talvez esperando por uma pergunta do tipo: “E o que acha você que é a verdadeira universidade?”

Em suas anotações encontra-se a seguinte resposta:

“A verdadeira universidade não se localiza num lugar específico. Não tem propriedades, não paga salários, não recebe taxas materiais. A verdadeira universidade é um estado de espírito. É a grande herança do pensamento racional que nos foi legada ao correr dos séculos e que não tem lugar específico para ficar. É um estado de espírito que se renova através dos séculos, graças a um grupo de pessoas que ostentam tradicionalmente o título de professor, título esse que, no fundo, também não faz parte da universidade. A verdadeira universidade é nada mais nada menos que o corpo contínuo da razão em si.

Além desse estado de espírito, a razão , existe uma entidade legal que, infelizmente, atende pelo mesmo nome, mas que é muito diferente. Esta é uma empresa sem fins lucrativos, uma filial do estado, com endereço específico. Possui propriedades, pode pagar salários, receber dinheiro e reagir também a pressões do legislativo.

Porém, esta segunda universidade, a empresa legal, não pode ensinar, não pode gerar novos conhecimentos, nem avaliar idéias. Não é a verdadeira universidade. É apenas o prédio da igreja, o cenário, o local onde se criaram condições favoráveis para que a verdadeira Igreja exista.

As pessoas que não enxergam essa diferença ficam sempre confusas, pensando que controlar o prédio da igreja é o mesmo que controlar a Igreja. Eles vêem os professores como empregados da segunda universidade que deveriam deixar a razão de lado quando lhes fosse solicitado e obedecer ordens sem objeções. Exatamente como os empregados de outros tipos de empresa.

Enxergam a segunda universidade, não a primeira.”

[…]

O objetivo principal da Igreja da Razão é sempre o velho objetivo socrático de buscar a verdade, em suas formas em constante mutação, conforme é revelada pelo processo da racionalidade. Tudo o mais deve subordinar-se a isso. Normalmente, tal objetivo não entra em choque com o intuito local de edificar a comunidade, mas às vezes ocorrem certos conflitos, como no caso do próprio Sócrates. É quando os curadores e legisladores que contribuíram com grandes quantidades de dinheiro e tempo para construir a sede da universidade se opõem às aulas ou pronunciamentos dos professores. Passam então a pressionar a administração, ameaçando cortar as verbas se os professores não disserem o que eles querem ouvir. Coisas como essas também acontecem.

Em tais situações, os verdadeiros sacerdotes devem agir como se nem tivessem ouvido as ameaças. Seu objetivo principal nunca é servir à comunidade, acima de tudo. Seu objetivo principal é servir, através da razão, à busca da verdade.”

[…]

Excertos. Capítulo 13, Zen e a arte da manutenção de motocicletas, Robert M. Pirsig.


Universidade, academia, professor, ciência e filosofia: excertos

(Publicado originalmente dia 9 de janeiro de 2008 http://stoa.usp.br/tom/weblog/13471.html)

Alguns excertos do livro A história do pensamento ocidental (Wisdom of the West), de Bertrand Russell, relacionados a um assunto que muito me interessa e penso há certo tempo, desde a época em que era estudante de graduação: a missão de uma universidade. Meus pensamentos sobre o assunto ainda são imaturos.

Na verdade, há duas atitudes que podem ser adotadas ante o desconhecido. Uma é aceitar as afirmações de pessoas que dizem conhecer, baseadas em livros, mistérios ou outras fontes de inspiração. A outra consiste em sair em busca por si mesmo, e este é o caminho da ciência e da filosofia.

Acho que no prefácio (preciso conferir e não sei onde está o livro, agora).

Num sentido bastante real, este continua sendo o objetivo da genuína ducação, até mesmo nos dias de hoje. Não é função de uma universidade encher a cabeça dos estudantes com o maior número possível de fatos. Sua verdadeira tarefa é inculcar neles hábitos de exame crítico e a compreesão de cânones e critério rederentes a todas as matérias.

Pág. 74, comentário enquanto descrevia a ‘Academia’ fundada por
Platão, em Atenas.

[…] “Lembremos que ciência e filosofia eram estudadas em escolas ou sociedades onde havia estreita colaboração entre alunos e professores. A verdade importante que parece ter sido compreendida desde o início, pelo menos implicitamente, é que o ensino não é um processo de transmitir informação. Em parte, é claro, deve haver isso. Mas não é a única função do professor, nem a mais importante. Na verdade, isso é mais evidente hoje do que àquela época, quando os registros escritos eram mais raros e mais difíceis de se obter do que agora. Atualmente, é razoável pensar que qualquer pessoa que saiba ler poderá recolher informações numa biblioteca. É cada vez menos necessário um professor para transmitir mera informação. E por isso tanto maior é o mérito dos filósofos gregos, por terem compreendido como se deveria realizar uma genuína educação. O papel do professor é de orientar, de levar o aluno a ver por si mesmo.

Págs. 88 e 89, comentário sobre a educação grega.

Esse último comentário me lembra um trecho do prefácio do ‘The Feynman Lectures on Physics’, de Richard Feynman:

Acho, porém, que a única solução para este problema da educação é perceber que o melhor ensino só pode ser praticado quando há uma relação individual direta entre um estudante e um bom professor uma situação em que o estudante discute as idéias, pensa sobre as coisas e fala sobre elas. É impossível aprender muito apenas sentado em uma palestra ou mesmo resolvendo problemas propostos. Mas, em nossos tempos modernos, temos tantos alunos aos quais ensinar que precisamos tentar encontrar um substituto para o ideal. Talvez em algum pequeno lugar onde haja professores e alunos individuais, eles possam obter certa inspiração ou idéias destas palestras. Talvez se divirtam raciocinando sobre elas ou desenvolvendo mais algumas coisas.

Na época, 1999, ano em que ingressei na graduação em física da USP, fiquei impressionado com as palavras do Feynman. Para quem estava acostumado com colégios tradicionais brasileiros (principalmente alguns públicos), local raro para se encontrar seres pensantes (não que mudou muita coisa na universidade, mas melhorou, sim, consideravelmente e, ainda, descobri as bibliotecas!), descobrir Feynman, primeiro, e Russell, depois, são coisas que não têm preço na vida de um jovem estudante. Russell acabei descobrindo mais tarde por causa da autobiografia dele que pode ser lida na biblioteca do IFUSP (um pouco sobre essa descoberta). Essa relação aluno-professor tive um pouco devido à iniciação científica durante o curso de graduação.

Preciso ler mais os gregos. Acho que começarei por Platão, possivelmente com The Republic (se alguém tiver alguma sugestão, ela é bem-vinda).

Também esbarrei hoje com um possível nome interessante para estudar, Otto Maria Carpeaux (alguma sugestão?):

Não está longe o dia em que o MST, julgando a USP improdutiva, não hesitará em invadir aquele campus Butantã, exigindo ciência socialista.

Na década de 1940, Otto Maria Carpeaux, em sua Viena natal, já observara à sua primeira entrada na universidade:

“Vi a biblioteca coberta de poeira, os auditórios barulhentos, estupidez e cinismo em cima e embaixo das cadeiras dos professores, exames fáceis e fraudulentos, brutalidades de bandos que gritavam os imbecis slogans políticos do dia e que se chamavam ‘acadêmicos’.”

Ainda em “A idéia da universidade e as idéias das classes médias”, Carpeaux faz uma extensa análise da motivação violenta que se apoderou das classes médias, não economicamente médias, mas sim espiritualmente. Classes médias do espírito, aquelas que jamais chegarão ao conhecimento da realidade e, por isso, tornam-se violentamente invejosas de quem o possui.

Para esses, o objetivo da vida deixa de ser o conhecimento, se um dia o foi. Enxergando-se incapazes de adquiri-lo, querem impedir que outros o busquem. Restam as manifestações de significado nulo, cheias de som e fúria. Restam as filiações políticas e os sindicatos. Resta o sentimento de coletividade irresponsável.

E Carpeaux, constatando que a história das universidades é a história espiritual das nações, coloca-nos em uma situação deveras preocupante. Se é que ainda podemos nos chamar nação.

(Por Gerson Faria)

Parece que estamos, infelizmente, bem longe do ideal da academia grega, quando nos lembramos sobre muitos fatos das nossas universidades. Qual será a relação entre os diversos problemas do nosso país, da nossa sociedade, e nossas univerversidades e centros educacionais? Quero estudar melhor o que Carpeaux diz sobre essa relação entre universidade e nação.


Aos professores: como vocês divulgam seus trabalhos para atrair alunos de iniciação científica e de pós-graduação? Que tal um blog?

(Publicado originalmente dia 5 de dezembro de 2007 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/11420.html)

Caros professores,

certamente muitos de vocês devem concordar que um bom projeto de iniciação científica (IC) com um aluno interessado e esforçado pode ser algo bastante proveitoso, principalmente para o aluno, como também para o professor e seu grupo de pesquisa. Recentemente, pensando comigo como foi que descobri minha ex-orientadora, depois que fiquei sabendo o que é iniciação científica, percebi que foi uma mera sorte (pelo fato de eu saber sobre o pior nível de dedicação aos seus orientados e, até mesmo, competência de alguns pesquisadores do instituto). Aliás, fui informado o que era iniciação científica, no ano que entrei no IFUSP, 1999, apenas no final desse mesmo ano, Outubro, num evento promovido pela comissão de graduação do instituto. Nos anos que se seguiram, sempre houve certo esforço por parte dos estudantes, na semana re recepção aos calouros, para divulgar sobre o que é iniciação científica e como começar uma. Fico muito feliz em saber que conversas minhas com alguns recém ingressantes na universidade acabaram fazendo iniciação científica e, muitas vezes, vieram contar para mim e até pedir algum conselho ou contar o que estavam fazendo.

O evento organizado pela comissão de graduação era um conjunto de palestras dos professores do instituto, que abordavam as várias linhas de pesquisa do instituto. No lado de fora do auditório onde as palestras foram apresentadas, o Abraão, haviam cartazes preparados pelos estudantes de IC. Fiquei bastante interessado por partículas elementares (algum dia conto mais sobre esse ponto) e fui falar com alguns estudantes veteranos quem eles me indicavam. Foi puro boca-a-boca. Eu nem cogitaria pesquisar o currículo do professor, nem mesmo saber um pouco dos outros orientados o que eles achavam. Um deles, com quem falei, ex-aluno de IC da professora que mencionaram o nome, me disse que era muito puxado fazer com ela, o que, de certa forma, me motivou.

Acabaram mencionando a professora Renata Funchal, então pesquisadora do Departamento de Física Nuclear, com quem fui, junto com um amigo, o Felipe, conversar, para saber o que precisávamos para fazer uma IC com ela. Marcamos uma reunião depois de uma semana, com a seguinte questão para responder e pensar no meio tempo: “Por que você decidiu fazer física?”

Pulando a parte da resposta minha (também crio um post, algum dia), na reunião a professora indicou 2 livros para nós lermos “A primer on particle physics: from alpha to zeta”, do Okun, e “Cosmic Onion”, do Frank Close. Ela enfatisou a importância de sabermos ler em inglês, pois essa é a língua usada pela comunidade científica. Penei no meu primeiro verão para tentar entender o livrinho do Okun. Não por causa da física, pois essa eu só viria a entender alguns anos mais tarde, depois de estudar quântica e relatividade, mas por causa do inglês, que não era lá grande coisa (na realidade, pouco sabia de minha capacidade para ler em inglês, após a aquisição de certo vocabulário através desse livrinho).

Descobri, assim, que eu podia ler livros em inglês. Fiquei bastante empolgado, pois, perambulando pela fantástica biblioteca do IFUSP, o leque de possibilidades ampliou muitíssimo, a partir de então.

Acho que tive uma boa orientação de IC e certo estou que descobri a professora em questão por acaso. Na época, não estava tão habituado com o uso dos mecanismos de busca na Internet (aprendi a ler email aos 18 anos – que diferença da nova geração!). Foi muito no boca-a-boca, mesmo.

Agora, suponham que um aluno precisa pesquisar diversos assuntos e o que cada pesquisador faz. Até mesmo (por que não?) interagir com o pesquisasdor. Como vocês divulgam seus trabalhos para atrair esse aluno? Como divulgam o seu dia-a-dia dentro da universidade? Um blog, muito mais prático e dinânimo, não é algo mais atrativo do que uma mera página estática e um currículo Lattes? Claro, também mais trabalhoso.

Você pode estar se perguntado: “Eu tenho minha página, por que faria um blog?” Num blog existe um recurso muito importante: a possibilidade das pessoas que lêem seus textos colocarem comentários, interagirem com você. Todos aqui que fazem pesquisa certamente sabem da importância de ter certo retorno por parte de terceiros sobre o que estamos fazendo. Além de ser um bom método para nos auto-avaliarmos (quem aqui garante que o que estou escrevendo está sendo bem compreendido?), pode ser também ferramenta poderosíssima para ampliarmos nosso conhecimento através de dicas e sugestões de alguém que já estudou sobre o assunto.

Num blog também existe a possibilidade de se incluir vídeos, imagens e sons de modo bastante prático! Você pode pegar a câmera do seu celular, gravar alguma mensagem e por na Internet. O mesmo pode ser feito com arquivos de aúdio e imagens.

Durante minha iniciação, fiz uma página simples de Internet, divulgando meus relatórios para as agências de fomento que pagavam minha bolsa, os pôsteres dos simpósios que participei, assim como os seminários que eu apresentei durante os cursos que fiz durante minha graduação e pós. Deixava alguns arquivos disponíveis para download (no servidor do departamento de física matemática do IFUSP, eu tinha 100 Mb para colocar tudo), o que pode facilmente ser feito aqui no Stoa. Não é preciso ser nenhum hacker para divulgar seu trabalho. E melhor ainda, está tudo centralizado! Quem sabe, no futuro, poderemos até integrar o sistema Stoa da Universidade de São Paulo com outros centros educaionais. Não seria fantástico?! Várias redes sociais com tantas pessoas com coisas importantíssimas e interessantíssimas para falar interagindo entre si e gerando conteúdo?

O blog também pode ser usado pelos seus próprios estudantes. Pode-se criar um blog comunitário onde mais de uma pessoa escreva sobre um determinado assunto, e. g., um grupo de pesquisa divulgando seu trabalho. Poderia ter algo melhor do que divulgar o que fazemos porque gostamos? :-)

Há também um fato que considero ser importantíssimo: a USP é financiada por dinheiro público. O blog não pode ser um bom meio de divulgar para quem está fora dos muros da universidade o que ocorre no dia-a-dia dela? Não pode motivar algum estudante do ensino básico quando ler algum texto de caráter de divulgação, quando bem escrito? Quantos estudantes não vão nos fóruns das comunidades da rede social que mais se popularizou entre os jovens brasileiros, o Orkut, para perguntar um pouco como é a vida pós-colégio? Usando o Orkut desde 2004, posso garantir que são muitos, mas muitos mesmo jovens que estão sedentos por saber, por aprender, por estudar. As possibilidades são infinitas e pouco custa, na minha opinião, dedicar certo tempo de nossa semana, para ajudar a orientar essas pessoas. Vejam um post explicando sucintamente a importância do material ser público (texto apagado do Stoa, em breve será publicado num outro lugar): Sobre a importância do conteúdo público / Alguém já viu conteúdo de qualidade no orkut?

Repito. Apenas uma lista de artigos publicados não é suficiente, na minha opinião. Quantos não existem com uma lista enorme de artigos, mas, quando vamos ver de perto, não passam de maquininhas de produzir artigos? Sei que não é todo profissional que tem facilidade de se comunicar de maneira didática, como vi em muitos professores em minha graduação. Acredito que esse espaço aqui pode ser um bom termômetro para quem se propõe a divulgar suas idéias. ;-)

“Everything is vague to a degree you do not realize till you have tried to make it precise.”

Bertrand Russell

Post relacionado

(Atualizado às 22h36 no dia )


Será que isso explica um pouco sobre a apatia dos alunos brasileiros?

(Publicado originalmente dia 25 de fevereiro de 2007 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/465.html)

Excertos do texto em que Feynman comenta sobre o ensino de física no Brasil:

Depois da preleção, alguns estudantes formaram uma pequena delegação e vieram até mim, dizendo que eu não havia entendido os antecedentes deles, que eles podiam estudar sem resolver os problemas, que eles já haviam aprendido aritmética e que essa coisa toda estava abaixo do nível deles. Então continuei a aula e, independente de quão complexo ou obviamente avançado o trabalho estivesse se tornando, eles nunca punham a mão na massa. É claro que eu já havia notado o que acontecia: eles não conseguiam fazer. Uma outra coisa que nunca consegui que eles fizessem foi perguntas. Por fim, um estudante explicou-me: “Se eu fizer uma pergunta para o senhor durante a palestra, depois todo mundo vai ficar me dizendo: “Por que você está fazendo a gente perder tempo na aula? Nós estamos tentando aprender realmente alguma coisa, e você o está interrompendo, fazendo perguntas”. Era como um processo de tirar vantagens, no qual ninguém sabe o que está acontecendo e colocam os outros para baixo como se eles realmente soubessem. Eles todos fingem que sabem, e se um estudante faz uma pergunta, admitindo por um momento que as coisas estão confusas, os outros adotam uma atitude de superioridade, agindo como se nada fosse confuso, dizendo àquele estudante que ele está desperdiçando o tempo dos outros. Expliquei a utilidade de se trabalhar em grupo, para discutir as dúvidas, analisá-las, mas eles também não faziam isso porque estariam deixando cair a máscara se tivessem de perguntar alguma coisa a outra pessoa. Era uma pena! Eles, pessoas inteligentes, faziam todo o trabalho, mas adotaram essa estranha forma de pensar, essa forma esquisita de autopropagar a “educação”, que é inútil, definitivamente inútil!

Por fim, eu disse que não conseguia entender como alguém podia ser educado neste sistema de autopropagação, no qual as pessoas passam nas provas e ensinam os outros a passar nas provas, mas ninguém sabe nada. “No entanto”, eu disse, “devo estar errado.”

Esse sistema de autopropagação de informação também vi muito durante minha graduação em física pela Universidade de São Paulo. Mas escrevo sobre isso em detalhes outro dia.


Cooperação e liberdade

(Publicado originalmente dia 10 de março de 2007 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/902.html)

Excerto do capítulo “Ensinar ou não ensinar”, do livro “De Eros a Gaia”, de Freeman Dyson:

Eu pertencia a uma pequena minoria de meninos que não era dotado de força física nem habilidade atlética, tinha outros interesses que não o futebol e estava comprimido entre a opressão da lixa e do chicote. (Lixa de outros estudantes, chicote do diretor que ensinva latim) Odiávamos o diretor com sua gramática latina e odiávamos ainda mais os meninos cuja cabeça só comportava futebol. O que poderia fazer para se defender essa minoria de pobres intelectuais indefesos, que mais tarde e em outro país difou conhecida como nerd? (o outro país é os EUA) Descobrimos nosso refúgio na ciência. Sem nenhuma ajuda das autoridades escolares, fundamos uma sociedade científica. Como minoria perseguida, procuramos não chamar atenção. Realizávamos nossas reuniões de forma discreta e quieta. Não podíamos nos aventurar em experiências de verdade. Tudo o que podíamos fazer era partilhar nossos livros e explicar uns para os outros o que não entendíamos. Mas aprendíamos muito. Mais que qualquer outra coisa, aprendemos aquelas lições que não poderiam ser ministradas nos cursos formais, que a ciência é uma ação harmoniosa de cérebros contra a ignorância, que a ciência é uma vingança das vítimas contra o opressor; que a ciência é um território de liberdade e amizade em meio à tirania e o ódio.

Lendo isso, sinto calafrios.

Idealizo que melhoras ainda são possíveis. Idealizo que algumas almas ainda podem ir de encontro à liberdade e a amizade. Idealizo menos ódio.