Herege, peça desculpas ao seu professor!

(Publicado originalmente 27 de setembro de 2007 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/6943.html)

Apenas uma reminiscência que algumas leituras agora me fizeram lembrar.

Em 2004, na metade do meu mestrado em física de partículas elementares (mestrado fracassado, que entrarei em detalhes algum outro dia), pouco antes de partir para uma escola de verão que participei sobre física de neutrinos, em Trento, no ECT*, um evento me chocou. O professor Victor Rivelles enviou um email para a lista geral do departamento de física matemática, do IFUSP, reclamando dos alunos de pós-graduação que não iam nos colóquios do departamento. Apenas respondi ao professor que isso não era tão difícil de se compreender, além do fato consumado que nem os professores do IFUSP serviam (ainda não servem?) de exemplo aos alunos, pois frequentavam raramente os colóquios, palestras e seminários mais gerais do instituto de física da USP (não posso afirmar, não podia, nem nunca afirmei, sobre a frequência dos professores nos colóquios dos outros departamentos).

Para minha surpresa, minha então orientadora me chamou esse dia, pedindo que eu fosse me desculpar com professor Rivelles. Ela me disse que o professor Rivelles foi falar com ela (por que será que ele não veio falar diretamente comigo?), pois não tinha entendido meu email, já que meu nome não aparecia em nenhum dos livros de assinatura dos colóquios. Me explicando que eu não assinava os livros, por achar que não passava de mera formalidade, pois devíamos ir ao colóquios pelo interesse no assunto (coisa que eu ainda tinha muito na época), além de ter ido na maioria dos colóquios.

Mesmo assim, insistiram no pedido de desculpas.

Fui falar com o professor Rivelles e apenas repeti, em palavras, o que eu pensava sobre o assunto. Também expliquei para ele porque eu não assinava (quase nunca assinei – apenas quando minha orientadora me via nos colóquios do departamento, hehehe) e me parece (não ficou muito claro para mim o que ele pensou, portanto apenas parece) que ele compreendeu, apesar de não concordar comigo que eu não queria assinar o livro. Obviamente não pedi as desculpas.

Desculpas por que? Fiz algo errado? Falei alguma mentira?

Segue o email:

Re: IMPORTANTE: SOBRE OS COLÓQUIOS DO DFMA


  • To: “Victor O. Rivelles” <>
  • SubjectRe: IMPORTANTE: SOBRE OS COLÓQUIOS DO DFMA
  • FromEverton Zanella Alvarenga <>
  • Date: Thu, 29 Apr 2004 12:53:57 -0300 (BRT)
  • Cc: Lista da Física Matemática <dfma-gen@fma.if.usp.br>, “Lista soc-gen (alunos do IFUSP)” <soc-gen@socrates.if.usp.br>, Lista do Cefisma <cefisma-lista@socrates.if.usp.br>
  • Delivered-to: mailing list dfma-gen@fma.if.usp.br
  • In-reply-to: <Pine.LNX.4.44.0404281304400.4744-100000@strings.if.usp.br>
  • Mailing-list: contact dfma-gen-help@fma.if.usp.br; run by ezmlm
  • Sender: Everton Zanella Alvarenga <>

Prezados professor Rivelles e demais,

de fato é lamentável, no entanto acredito que este seja um problema que
comece bem cedo, quando os alunos ingressam no curso de graduação.
Se vocês vissem o número de alunos que iam nos seminários voltados para os
próprios alunos de graduação, ficariam desolados. Inclusive, neste ano,
_nenhum_ aluno tomou a iniciativa em continuar organizando os seminários
(http://euclides.if.usp.br/~seminar) [(1) correção desse link no final do post].Talvez porque alguns alunos que
acham que estão fazendo alguma coisa preocupam-se ou com o “movimento sem
terra” ou querem que os professores passem mais horas copiando os livros
na lousa (ao alunos, minha sugestão é que os docentes dêem 2 créditos ao
invés de 6, sobrando mais tempo para vocês estudarem e discutirem física,
e NÃO política hein).

Talvez seja interessante desde cedo os professores falarem sobre isso para
os alunos de graduação. Senão teremos que ter listas de presenças para
“estimular” os alunos a irem, ou quem sabe, atrai-los meramente pela fome
do estômago e não pela da mente. Inclusive, este fenômeno, acredito eu,
ocorre numa escala muito maior aqui no IFUSP. Basta vermos a quantidade de
professores que tem o hábito de ir nos colóquios de quinta. Talvez existam
alguns que _nunca_ foram a eventos desta natureza.

Sobre as perguntas, concordo que deveria haver mais discussões/críticas no
final/durante os colóquios/seminários por parte dos alunos, mas eu
pergunto, qual é o exemplo que os professores/pesquisadores do IFUSP dão?

Sobre a página que o senhor mandou, perceba como as coisas estão bem
_centralizadas_ e organizadas. Veja como a página é bonita e bem
estruturada. Este endereço é apenas um exemplo entre inúmeros que já vi
nas páginas de institutos de física do exterior. Será que é preciso de
dinheiro para isso?

Caso exista quórum para me ajudar, fico a disposição para fazermos uma
página para os seminários/colóquios do departamento. Cordialmente,

Everton.

On Thu, 29 Apr 2004, Victor O. Rivelles wrote:

> Caros colegas e estudantes do DFMA,
>
> É lamentável que a audiência dos colóquios esteja tão baixa. No segundo
> semestre de 2003 a média foi de 27 pessoas por seminário enquanto que
> neste semestre a média tem sido de 19! O último colóquio, em 27 de abril,
> foi assistido por apenas 11 pessoas, dos quais 7 eram estudantes!!!
>
> Que alguns professores não compareçam por não sentirem-se atraídos pelo
> tema do colóquio, ou por terem compromissos no mesmo horário, é, até certo
> ponto, compreensível. Por outro lado, a atitude apática dos estudantes que
> não comparecem aos colóquios é aterradora. Imaginar que é perda de tempo
> assistir a um seminário que não tem nada a ver com sua própria tese e
> achar que é melhor resolver uma lista de exercícios durante esse tempo, é
> ledo engano. A formação de um físico vai muito além de ser capaz de fazer
> listas de exercícios e compreender o que escreveu na tese. É necessário
> situar o problema da tese dentro de um contexto mais geral, que envolve
> uma visão detalhada de sua linha de pesquisa e a inserção dessa linha de
> pesquisa dentro das grandes tendências da física contemporânea. Caso
> contrário, faz-se do trabalho de pesquisa uma mera formalidade, algo a ser
> executado apenas para obter-se um título ou mais uma publicação. Além
> disso, é necessário preparar o terreno para o pós-doutorado, para que este
> não vire uma mera extensão do trabalho de doutorado. Para isso, é
> necessário aprender novas técnicas, novas maneiras de abordar o mesmo
> problema e visualizar conexões com outros problemas. Sem isso, o
> pesquisador fica restrito, sem idéias, incapaz de produzir resultados
> interessantes. Parece, entretanto, que muitos estudantes não se dão conta
> de que os colóquios oferecem os passos iniciais para se atingir esses
> objetivos. Não percebem que essa é a maneira mais rápida e econômica de
> adquirir novos conhecimentos que serão de grande utilidade durante e após
> o doutorado. Tenho feito um grande esforço para que os colóquios sejam
> acessíveis a todos, mesmo aos alunos que acabaram de ingressar, pedindo
> aos seminaristas para não darem enfâse à parte técnica. A grande maioria
> dos colóquios têm sido nesse estilo. Tudo pronto e fácil para ser
> digerido. Parece, porém, que o apetite científico ainda precisa ser
> estimulado.
>
> Também surpreende-me a atitude dos estudantes de outros estados. Na grande
> maioria dos departamentos de física fora de SP é extremamente difícil
> manter um série regular de seminários. O principal motivo é o custo
> envolvido. O IFUSP é uma das poucas exceções, não só pelos colóquios do
> departamento como também pela grande variedade de seminários que são
> ofertados em todo o instituto. E isso só vai ser percebido quando os
> estudantes retornarem aos seus lugares de origem, ou quando os recém
> doutores nativos, que nunca sairam de SP, obtiverem um emprego em outro
> estado. Uma oportunidade rara está sendo desperdiçada! E acrescente-se,
> financiada com recursos públicos.
>
> Muitos devem estar imaginando que estou exagerando e supervalorizando os
> colóquios. Se voce pensa assim dê uma olhada no primeiro mundo. Não é
> necessário ir até lá, a internet está aí para isso. Veja o MIT, por
> exemplo:
>
http://www-ctp.mit.edu/seminars.html
>
> O colóquio para estudantes é chamado “CPT Lunch Club”. Horário: meio-dia.
> Porque meio dia? Não há aulas nesse horário de forma que todos podem
> assistir. E o almoço? Para que ninguém use isso como desculpa o almoço
> fica por conta do MIT. Free lunch!!! Eles podem arcar com essa despesa;
> nós, ainda não.
>
> A pesquisa científica é uma atividade extremamente recompensadora quando o
> objetivo está centrado na elaboração de perguntas e na busca de respostas,
> na compreensão do conhecido e na descoberta de novos horizontes. Por outro
> lado, torna-se extremamente entediante quando usada para outras
> finalidades. Se voce sofre de sonolência durante um colóquio fique
> alerta; talvez seja a hora de reavaliar seus objetivos. Afinal, como disse
> Einstein “Most of the fundamental ideas of science are essentially simple,
> and may, as a rule, be expressed in a language comprehensible to
> everyone.”
>
> Aguardo todos no próximo colóquio! Cordiais saudações,
>
> Victor Rivelles
>

********************************************************
Universidade de São Paulo, Instituto de Física (IFUSP)
Departamento de Física Matemática

Everton Zanella Alvarenga everton@fma.if.usp.br
Página: http://fma.if.usp.br/~everton
********************************************************

Fonte: http://fma.if.usp.br/lists/dfma-gen-2004/msg00032.html

(1) Correção do link: atualmente em

http://socrates.if.usp.br/~everton/seminarios/


One Comment on “Herege, peça desculpas ao seu professor!”

  1. Em casa de pobre todo mundo briga e ninguém tem razão. No caso, a pobreza é a escassez de alunos e professores nos colóquios. É como quando você “Os alunos no Mit assistem aula” e ouve “Então nós temos que passar lista de presença”. Daí você responde “No Mit não tem lista de presença” e a conversa acaba. Ninguém sabe o que fazer para os alunos assistirem aula; então falam sobre lista de presença, sobre isso todo mundo tem opinião.


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