Amigos da educação e suas benditas listas de presença

(Publicado originalmente 10 de abril de 2008 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/20344.html)

Recentemente, após conhecer mais estudantes de outros cursos além dos muros do instituto de física (IF), descobri que muitos cursos da USP exigem lista de presença (a ECA é um exemplo notável). Questionaram recentemente aqui no Stoa sobre por que exigem 50% da pontuação nas avaliações dos cursos, enquanto a presença exigida é de 70%. Não sei o que se passa na cabeça dos amigos da educação para defenderem que seja assim (olá, olá amigos da educação! algum de vocês poderia responder?), mas posso citar casos que vivenciei durante minha graduação, para tentarmos entender um pouco o que ocorre.

No IFUSP, durante toda minha graduação, apenas um professor de disciplinas teóricas que cursei,Kazunori Watari, exigiu lista de presença – foram os cursos de mecânica I e II (não analisarei a qualidade do curso, agora). Obviamente os cursos de laboratório também exigiam a presença (para minha infelicidade, em relação a muitas aulas), o que acho certo.

Um exemplo marcante que ocorreu comigo, logo quando entrei na USP. Passei no curso de licenciatura em física sem saber muito bem a diferença entre os cursos de licenciatura e bacharelado. Antes da matrícula, um pouco mais informado sobre as diferenças (não só sobre os objetivos dos dois cursos, como as diferenças dos cursos em si), já tinha começado a me informar na seção de alunos como mudar para o bacharelado. Me disseram que tinha que esperar o final do primeiro semestre. Antes do fim do semestre, a primeira pessoa que procurei foi a professora Maria Regina (então coordenadora do curso de licenciatura, se não me engano), por indicação de alguém que não me lembro, como uma possível ajuda para meu caso. Conversando com ela, “descobri” que seria impossível a mudança, pois o curso ‘Introdução a mecânica’, da licenciatura, tinha apenas 4 créditos, enquanto Física 0, 6 créditos (na graduação do IF os créditos correspondem a quantidade de horas de aula por semana). Fiquei um pouco triste no dia, por causa da contradição sobre o que tinham me informado na seção de alunos, logo no dia da matrícula.

Não satisfeito com a situação, procurei a comissão de graduação e a informação correta é que seria possível a mudança, como de fato ocorreu. A única coisa que tive que fazer foi um cáculo diferencial e integral II a mais (no segundo semestre, fiz cálculo II da licenciatura e bacharelado ao mesmo tempo – curioso um licenciado ter que cursar cálculo diferencial e integral light, não? Enfim, não é o assunto aqui), mais as disciplinas de laboratório da licenciatura, para substituir os laboratórios I e II do bacharelado. No final, após cumprir o exigido, mudei para o bacharelado e levei o curso numa boa.

Outros exemplos análogos da época do colégio me vêm à cabeça, mas acho que esse no começo do curso da USP exemplifica bem a mentalidade que reina nas nossas instituições de ensino, de todos os níveis. Será por acaso muitos dos alunos que chegam dos colégios esperarem uma postura paternalista dos seus professores, mesmo durantes os cursos de graduação, até mesmo no final deles? Minha hipótese é que não e uma das principais causas é, na minha opinião, essa mentalidade que assola até mesmo nossas instituições de ensino superiores.

Conseguindo convencer os amigos da educação que menos horas dentro da sala de aula é possível, sem diminuir a qualidade da formação dos alunos, o problema não pode ser resolvido de uma hora para outra, é claro. Se, logo no começo dos cursos de graduação, começarmos a mudar radicalmente o grau de exigência por uma maior independência dos alunos, ao invés de ter aulas-teatro, onde o professor engana que está ensinando e o aluno que está aprendendo, talvez teríamos muitos alunos não conseguindo se formar num tempo adequado.

Minha proposta é que, ao longo do curso, os professores vão exigindo uma maior independência. Lembrando da quantidade de horas e cursos no final de minha graduação, sempre me incomodava a quantidade de horas que tínhamos que passar dentro da sala de aula. Se um aluno prefere estudar sozinho e consegue ir bem nas avaliações do professor, por que obrigá-lo a ficar dentro da sala de aula? Gosto do que Bertrand Russell e Richard Feynman dizem a respeito disso, enfatizando que o principal do professor é levar o aluno a ver por si mesmo. Gostaria, sinceramente, de saber o que os amigos da educações tanto vêem no processo de simples transmissão de informação que, claro, deve existir, mas não é só isso.


5 Comentários on “Amigos da educação e suas benditas listas de presença”

  1. Anônimo disse:

    (Comentário feito em 11 abril 2008, 03:01 BRT)

    Essa questão é meio tabu no Brasil. É mais ou menos a mesma coisa com Educação à Distância, muita gente questiona a validade da mesma porque o aluno não esteve em sala de aula, como se isso invalidasse o que o aluno aprendeu e agora sabe fazer.

    A propósito, ficou um errinho de português no teu (excelente) post: “onde o professor engano que está ensinando”

    Abraço!

  2. (Comentário feito em 11 abril 2008, 11:19 BRT )
    Muito interessante o seu post, Tom. Principalmente em relação a incentivar a independência do aluno. Eu sou aluno de licenciatura em matemática e concordo com vc que não se deveria exigir lista de presença dos alunos em matérias teóricas. Muitas vezes preferi estudar por conta própria a assistir a aula. No IME, a maioria dos professores não exige presença. Lembro até de um semestre que tive uma aula inicial de um professor e ele não tinha causado uma boa impressão. Comentando com meus amigos que ele não parecia ser muito bom, um deles me respondeu: “É óbvio! O cara faz chamada! Alguém que faz chamada não pode ser bem-intencionado!”. No fim, a chamada era uma forma de prender os alunos, assim sua sala não ficaria vazia de tão sofrível que era. Porém, se nos cursos de exatas a presença é menos importante, eu acredito que nos de humanas ela é muito importante. Eu tenho aulas na FE e vejo que a troca de idéias e as discussões são muito mais enriquecedoras do que a simples leitura da bibliografia sugerida. A construção do conhecimento vem do diálogo.

    P.S.: eu não entendi por que você coloca em questão as diferenças curriculares entre o curso de licenciatura e o bacharelado. Ora, você mesmo disse que são cursos diferentes, com diferentes objetivos, portanto cada grade curricular deve ser adequada para atingir esses objetivos específicos a que esses cursos se propõem. Caso contrário não haveria necessidade de divisão, bastava um curso apenas.

  3. Leonardo disse:

    (Comentário feito em 27 abril 2008, 14:25 BRT)
    Prezado Everton!

    Gostei muito de seu artigo, de seu ponto de vista! Sou professor, ex-aluno da USP e também vejo uma grande necessidade de criarmos indenpendência nos alunos! Deixo-os em minhas disciplinas (da área de exatas, diga-se de passagem) livres para buscar informações, trabalhá-las e interpretá-las… mas infelizmente muitos alunos não interpretam isso como uma oportunidade… e muitas vezes acham que não queremos dar é aula…

    Daí vai uma pergunta… será que os alunos também estão preparado para isso?

    É… essa mudança está acontecendo… mas bem devagar… e acredito que a educação à distância acelerá bastante o processo, não acha?

    Um abraço e parabéns!

    Leonardo.

  4. (Comentário feito em 09 junho 2008, 12:57 BRT)

    Salve, Tom.

    Minha experiência pessoal é de que os melhores professores não cobram presença: eles sabem que os alunos vão assistir as aulas deles, porque as aulas são BOAS. Mas não podemos esperar que todos os professores sejam Zaras, Flemings e Pizas.

    Professores de bons a razoáveis às vezes tem salas muito mais vazias por não cobrarem presença do que o colega do outro lado do corredor que é péssimo, mas cobra presença. O resultado é catastrófico! Os alunos do mau professor, forçados a assistir a aula, têm desempenhos muito melhores do que os alunos do bom professor, que não assistem a aula e NÃO estudam por conta própria.

    Acredito que a mudança fundamental que deve ocorrer é na mentalidade do aluno, que deve deixar de estudar por que é obrigado, e deve estudar pelo aprendizado. Claro que uma carga horária com menos aulas expositivas ajuda. Uma reformulação da grade horária com menos matérias INÚTEIS também seria desejável. Mas acredito que a responsabilidade dos alunos, como um corpo discente, é fundamental.

  5. (Comentário feito em 22 setembro 2008, 17:27 BRT)

    Everton,

    Amei seu post e concordo em partes com vc… acho que a colocação do Leonardo é muito pertinente… Será que os alunos estão preparados para essa independência??? Aqui na História… Temos professores que passam lista de presença e outros que ignoram essa formalidade… Quando a exigência na avaliação é grande, a presença também é, nem sempre importando se há controle de faltas ou não.

    É muito clara a questão de que os alunos raramente buscam o conhecimento sem serem forçados a isso!!! E é uma pena, pois, na graduação, espera-se um pouco mais de maturidade…

    Artigos como o seu fazem parar para pensar… e isso é o mais importante nesse processo!

    Parabéns!


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