Aos professores: como vocês divulgam seus trabalhos para atrair alunos de iniciação científica e de pós-graduação? Que tal um blog?

(Publicado originalmente dia 5 de dezembro de 2007 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/11420.html)

Caros professores,

certamente muitos de vocês devem concordar que um bom projeto de iniciação científica (IC) com um aluno interessado e esforçado pode ser algo bastante proveitoso, principalmente para o aluno, como também para o professor e seu grupo de pesquisa. Recentemente, pensando comigo como foi que descobri minha ex-orientadora, depois que fiquei sabendo o que é iniciação científica, percebi que foi uma mera sorte (pelo fato de eu saber sobre o pior nível de dedicação aos seus orientados e, até mesmo, competência de alguns pesquisadores do instituto). Aliás, fui informado o que era iniciação científica, no ano que entrei no IFUSP, 1999, apenas no final desse mesmo ano, Outubro, num evento promovido pela comissão de graduação do instituto. Nos anos que se seguiram, sempre houve certo esforço por parte dos estudantes, na semana re recepção aos calouros, para divulgar sobre o que é iniciação científica e como começar uma. Fico muito feliz em saber que conversas minhas com alguns recém ingressantes na universidade acabaram fazendo iniciação científica e, muitas vezes, vieram contar para mim e até pedir algum conselho ou contar o que estavam fazendo.

O evento organizado pela comissão de graduação era um conjunto de palestras dos professores do instituto, que abordavam as várias linhas de pesquisa do instituto. No lado de fora do auditório onde as palestras foram apresentadas, o Abraão, haviam cartazes preparados pelos estudantes de IC. Fiquei bastante interessado por partículas elementares (algum dia conto mais sobre esse ponto) e fui falar com alguns estudantes veteranos quem eles me indicavam. Foi puro boca-a-boca. Eu nem cogitaria pesquisar o currículo do professor, nem mesmo saber um pouco dos outros orientados o que eles achavam. Um deles, com quem falei, ex-aluno de IC da professora que mencionaram o nome, me disse que era muito puxado fazer com ela, o que, de certa forma, me motivou.

Acabaram mencionando a professora Renata Funchal, então pesquisadora do Departamento de Física Nuclear, com quem fui, junto com um amigo, o Felipe, conversar, para saber o que precisávamos para fazer uma IC com ela. Marcamos uma reunião depois de uma semana, com a seguinte questão para responder e pensar no meio tempo: “Por que você decidiu fazer física?”

Pulando a parte da resposta minha (também crio um post, algum dia), na reunião a professora indicou 2 livros para nós lermos “A primer on particle physics: from alpha to zeta”, do Okun, e “Cosmic Onion”, do Frank Close. Ela enfatisou a importância de sabermos ler em inglês, pois essa é a língua usada pela comunidade científica. Penei no meu primeiro verão para tentar entender o livrinho do Okun. Não por causa da física, pois essa eu só viria a entender alguns anos mais tarde, depois de estudar quântica e relatividade, mas por causa do inglês, que não era lá grande coisa (na realidade, pouco sabia de minha capacidade para ler em inglês, após a aquisição de certo vocabulário através desse livrinho).

Descobri, assim, que eu podia ler livros em inglês. Fiquei bastante empolgado, pois, perambulando pela fantástica biblioteca do IFUSP, o leque de possibilidades ampliou muitíssimo, a partir de então.

Acho que tive uma boa orientação de IC e certo estou que descobri a professora em questão por acaso. Na época, não estava tão habituado com o uso dos mecanismos de busca na Internet (aprendi a ler email aos 18 anos – que diferença da nova geração!). Foi muito no boca-a-boca, mesmo.

Agora, suponham que um aluno precisa pesquisar diversos assuntos e o que cada pesquisador faz. Até mesmo (por que não?) interagir com o pesquisasdor. Como vocês divulgam seus trabalhos para atrair esse aluno? Como divulgam o seu dia-a-dia dentro da universidade? Um blog, muito mais prático e dinânimo, não é algo mais atrativo do que uma mera página estática e um currículo Lattes? Claro, também mais trabalhoso.

Você pode estar se perguntado: “Eu tenho minha página, por que faria um blog?” Num blog existe um recurso muito importante: a possibilidade das pessoas que lêem seus textos colocarem comentários, interagirem com você. Todos aqui que fazem pesquisa certamente sabem da importância de ter certo retorno por parte de terceiros sobre o que estamos fazendo. Além de ser um bom método para nos auto-avaliarmos (quem aqui garante que o que estou escrevendo está sendo bem compreendido?), pode ser também ferramenta poderosíssima para ampliarmos nosso conhecimento através de dicas e sugestões de alguém que já estudou sobre o assunto.

Num blog também existe a possibilidade de se incluir vídeos, imagens e sons de modo bastante prático! Você pode pegar a câmera do seu celular, gravar alguma mensagem e por na Internet. O mesmo pode ser feito com arquivos de aúdio e imagens.

Durante minha iniciação, fiz uma página simples de Internet, divulgando meus relatórios para as agências de fomento que pagavam minha bolsa, os pôsteres dos simpósios que participei, assim como os seminários que eu apresentei durante os cursos que fiz durante minha graduação e pós. Deixava alguns arquivos disponíveis para download (no servidor do departamento de física matemática do IFUSP, eu tinha 100 Mb para colocar tudo), o que pode facilmente ser feito aqui no Stoa. Não é preciso ser nenhum hacker para divulgar seu trabalho. E melhor ainda, está tudo centralizado! Quem sabe, no futuro, poderemos até integrar o sistema Stoa da Universidade de São Paulo com outros centros educaionais. Não seria fantástico?! Várias redes sociais com tantas pessoas com coisas importantíssimas e interessantíssimas para falar interagindo entre si e gerando conteúdo?

O blog também pode ser usado pelos seus próprios estudantes. Pode-se criar um blog comunitário onde mais de uma pessoa escreva sobre um determinado assunto, e. g., um grupo de pesquisa divulgando seu trabalho. Poderia ter algo melhor do que divulgar o que fazemos porque gostamos? :-)

Há também um fato que considero ser importantíssimo: a USP é financiada por dinheiro público. O blog não pode ser um bom meio de divulgar para quem está fora dos muros da universidade o que ocorre no dia-a-dia dela? Não pode motivar algum estudante do ensino básico quando ler algum texto de caráter de divulgação, quando bem escrito? Quantos estudantes não vão nos fóruns das comunidades da rede social que mais se popularizou entre os jovens brasileiros, o Orkut, para perguntar um pouco como é a vida pós-colégio? Usando o Orkut desde 2004, posso garantir que são muitos, mas muitos mesmo jovens que estão sedentos por saber, por aprender, por estudar. As possibilidades são infinitas e pouco custa, na minha opinião, dedicar certo tempo de nossa semana, para ajudar a orientar essas pessoas. Vejam um post explicando sucintamente a importância do material ser público (texto apagado do Stoa, em breve será publicado num outro lugar): Sobre a importância do conteúdo público / Alguém já viu conteúdo de qualidade no orkut?

Repito. Apenas uma lista de artigos publicados não é suficiente, na minha opinião. Quantos não existem com uma lista enorme de artigos, mas, quando vamos ver de perto, não passam de maquininhas de produzir artigos? Sei que não é todo profissional que tem facilidade de se comunicar de maneira didática, como vi em muitos professores em minha graduação. Acredito que esse espaço aqui pode ser um bom termômetro para quem se propõe a divulgar suas idéias. ;-)

“Everything is vague to a degree you do not realize till you have tried to make it precise.”

Bertrand Russell

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(Atualizado às 22h36 no dia )



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