O abismo entre os estratos sociais do Brasil: por que o silêncio?

(Publicado originalmente dia 29 de fevereiro de 2009 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/43203.html)

Já queria criar esse post com um trecho da Introdução do livro O povo brasileiro (1995), de Darcy Ribeiro. O post do Helder, O mendigo luthier, e alguns comentários dele me impulsionaram a terminá-lo. Ainda estou no começo do livro, mas talvez ele explique um pouquinho porque a minoria privilegiada se cala diante de uma situação tão deplorável que é o abismo social entre ricos e pobres no Brasil.

Segue a transcrição, com alguns trechos destacados por mim (págs. 20 a 22, Companhia de Bolso, 3ª reimpressão):

[…]

Subjacente à uniformidade cultural brasileira, esconde-se uma profunda distância social, gerada pelo tipo de estratificação que o próprio processo de formação nacional produziu. O antagonismo classista que corresponde a toda estratificação social aqui se exacerba, para opor uma estreitíssima camada privilegiada ao grosso da população, fazendo as distâncias sociais mais intransponíveis que as diferenças raciais.

O povo-nação não surge no Brasil da evolução de formas anteriores de sociabilidade, em que grupos humanos se estruturam em classes opostas, mas se conjugam para atender às suas necessidades de sobrevivência e progresso. Surge, isto sim, da concentração de uma força de trabalho escrava, recrutada para servir a propósitos mercantis alheios a ela, através de processos tão violentos de ordenação e repressão que constituíram, de fato, um continuado genocídio e um etnocídio implacável.

Nessas condições, exacerba-se o distanciamento social entre as classes dominantes e as subordinadas, e entre estas e as oprimidas, agravando as oposições para acumular, debaixo da uniformidade étnico-cutural e da uniformidade nacional, tensões dissociativas de caráter traumático. Em conseqüência, as elites dirigentes, primeiro lusitanas, depois luso-brasileiras e, afinal, brasileiras, viveram sempre e vivem ainda sob o pavor pânico do alçamento das classes oprimidas. Boa expressão desse pavor pânico é a brutalidade repressiva contra qualquer insurgência e a predisposição autoritária do poder central, que não admite qualquer alteração da ordem vigente.

A estratificação social separa e opõe, assim, os brasileiros ricos e remediados dos pobres, e todos eles dos miseráveis, mais do que corresponde habitualmente a esses antagonismos. Nesse plano, as relações de classes chegam a ser tão infranqueáveis que obliteram toda comunicação propriamente humana entre a massa do povo e a minoria privilegiada, que a vê e a ignora, a trata e maltrata, a explora e a deplora, como se fosse uma conduta natural. A façanha que representou o processo de fusão racial e cultural é negada, desse modo, no nível aparentemente mais fluido das relações sociais, opondo à unidade de um denominador cultural comum, com que se identifica um povo de 160 milhões de habitantes, a dilaceração desse mesmo povo por uma estratificação classista de nítido colorido racial e do tipo mais cruamente desigualitário que se possa conceber.

O espantoso é que os brasileiros, orgulhosos de sua tão proclamda, como falsa, “democracia racial”, raramente percebem os profundos abismos que aqui separam os estratos sociais. O mais grave é que esse abismo não conduz a conflitos tendentes a transpô-lo, porque se cristalizam num modus vivendi que aparta os ricos dos pobres, como se fossem castas e guetos. Os privilegiados simplesmente se isolam numa barreira de indiferença para com a sina dos pobres, cuja miséria repugnante procuram ignorar ou ocultar numa espécie de miopia social, que perpetua a alternidade. O povo-massa, sofrido e perplexo, vê a ordem social como um sistema sagrado que privilegia uma minoria contemplada por Deus, à qual tudo é consentido e concedido. Inclusive o dom de serem, às vezes, dadivosos, mas sempre frios e perversos e, invariavelmente, imprevisíveis.

Essa alternidade só se potencializou dinamicamente nas lutas seculares dos índios e dos negros contra a escravidão. Depois, somente nas raras instâncias em que o povo-massa de uma região se organiza na luta por um projeto próprio e alternativo de estruturação social, como ocorreu com os Cabanos, em Canudos, no Contestado e entre os Mucker.

Nessas condições de distanciamento social, a amargura provocada pela exacerbação do preconceito classista e pela consciência emergente da injustiça bem pode eclodir, amanhã, em convulsões anárquicas que conflagrem toda a sociedade. Esse risco sempre presente é que explica a preocupação obsessiva que tiveram as classes dominantes pela manutenção da ordem. Sintoma peremptório de que elas sabem muito bem que isso pode suceder, caso se abram as válvulas de contenção. Daí suas “revoluções preventivas”, conducentes a ditaduras vistas como um mal menor que qualquer remendo na ordem vigente.

[…]

Lembro de ter visto há anos, nos Contos da Meia-Noite, da TV Cultura (bem que poderiam fazer mais e retransmitir os episódios já existentes, hein?!), uma excelente atuação de Maria Luisa Mendonça, atriz fantástica, que mostrava bem esse isolamento entre ricos e pobres, relatando toda a parafernália tecnológica, cãmeras, muros, segurança, armas de uma família de classe média para ficarem “seguros” da violência gerada pela pobreza. Infezlimente não consigo lembrar do nome do conto, nem do autor. Se alguém aqui souber, agradeço.


One Comment on “O abismo entre os estratos sociais do Brasil: por que o silêncio?”

  1. Pablo Busatto disse:

    Acredito que o conto a que se refere seja Pequenas Distrações de Gregório Bacic publicado em 2002 no livro Peão Envenenado e Outras Provocações. A interpretação no programa Contos da Meia Noite foi feita por Beth Goulart e transmitida em 19 de dezembro de 2003 pela TV Cultura.


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