O fachadismo da USP

(Passarei para cá, aos poucos, os textos que havia publicado no meu blog antigo do Stoa. Publicado originalmente dia 13 de outubro de 2008 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/34255.html)

Vou publicar abaixo um texto do professor João Barata, reação ao texto Vergonha na USP, do jornalista Marcelo Leite, relacionado a um recente caso de plágio no IFUSP.  O texto foi publicado no blog do Marcelo Leite. Como acho a formatação do blog do UOL tosca, vou deixar aqui também.

O único contato que tive com o professor Barata foi nas suas aulas de Teoria de Grupos. Foi um dos melhores professores, senão o melhor professor, que encontrei ao longo da graudação em física. Além dos diversos elogios de colegas de curso, que sempre ouvi das aulas de física matemática desse professor, ele é famoso pelas suas excelentes notas de aula (mais de 1500 páginas), que ficam disponíveis para download gratuitamente no site dele. No começo de seus cursos,  ele sempre entrega (ao menos entregava, imagino que não mudou) os trechos das notas para os alunos, usadas ao longo do curso.

Admiro a coragem do professor Barata em dizer algumas coisas, que muitos sabem, mas não tem coragem de falar. Alguns até imagino que tentam modificar as coisas que consideram erradas, apesar de não se pronunciarem, mas tentam de formas diferentes (não acho errada essa postura, apenas diferente). É uma pena que não valorizamos profissionais como o professor Barata, pelo contrário. :-(

Um resumo sobre o caso de plágio, que fez vir ao público problemas internos de longa data, pode ser lido em Tolerância zero, de Carlos Hotta.

Talvez o mais grave nisso tudo seja a imagem que ficam  da USP lá fora, consequentemente a de todos os pesquisadores que não cometem ‘desvios éticos’. Enquanto as autoridades da universidade acreditam que esconder o caso é a melhor solução para situações como essa, as consequências de longo prazo mostrarão que será exatamente o contrário.

Segue o texto:

Gostaria de cumprimentá-lo pela matéria “Vergonha na USP”, publicada na edição de hoje (28/09/2008) da Folha de S.Paulo.

Trata-se de uma matéria contundente e corajosa e que coloca em termos devidos diversos pontos de um dos mais lamentáveis episódios recentes da vida acadêmica uspiana e nacional.

Permita-me estender algumas considerações sobre seu texto e sobre o episódio.

Do ponto de vista de alguns dos pesquisadores docentes do Instituto de Física da USP (IFUSP), ao qual pertenço, o que está em jogo não é apenas a questão do plágio científico. Uma acusação de plágio científico é matéria grave, a exigir procedimentos de investigação e de julgamento, que devem culminar com o sentenciamento ou absolvição dos envolvidos, sempre resguardando o pleno direito de defesa aos acusados. Esses procedimentos, porém, devem ser também acompanhados de diversas salvaguardas que garantam aos denunciantes prosseguirem livres de pressões e de ameaças enquanto as investigações e os julgamentos são levados a cabo. Por diversas razões, a USP falhou nesse aspecto também.

Tem sido noticiado, mas a meu ver de forma insuficiente, que alguns dos acusados de cópia de artigos científicos, e alguns dos seus apoiadores, têm exercido pressões diretas e indiretas, interna e externamente ao IFUSP, sobre um grupo específico de pesquisadores ligados aos acusadores principais, resultando em um clima de ameaças veladas, abusos verbais e desmandos prepotentes que danifica gravemente a convivência acadêmico-científica e pessoal em nossa instituição. Aquela que já foi, talvez, o principal instituto de pesquisa em Física no país está agora, em conseqüência, talvez irreversivelmente condenado à decadência e à irrelevância científica.

Falando em nome pessoal, e talvez no de vários colegas no início ou meio de carreira (meu caso), vejo a perspectiva de continuar trabalhando nesta instituição como profundamente desanimadora. A presente crise teve a desvirtude de exacerbar problemas existentes há décadas no instituto, nos cursos ministrados, nas atribuições departamentais, na estrutura de poder e na própria postura individual dos pesquisadores. Não há reversão possível para esse estado de coisas face à conivência comodista, oportunista ou pusilânime de colegas e dos órgãos centrais da universidade.

Essas questões que circunscrevem a questão do plágio, às quais me referi acima, podem parecer à primeira vista de natureza paroquial, uma “briga de comadres por migalhas de micropoder institucional”, como disse em seu artigo. Eu não o censuro por isso pois, de fato, é essa uma visão do episódio que parece refletir no meio externo à universidade. A natureza dessas questões, porém, deve sim atrair o interesse da sociedade em geral, pois diz respeito à condução da coisa pública na universidade brasileira, às dificuldades de criação de uma tradição acadêmica e científica em uma sociedade atrasada, patriarcal, corporativista e autoritária e, por fim, à postura individual freqüentemente observada em acadêmicos diante de questões relacionadas à imagem das instituições em que atuam.

Sem querer me estender demais nessas considerações, vale dizer que um dos aspectos mais lamentáveis que vivenciamos nesse episódio foram as repetidas demonstrações daquilo que chamo de “fachadismo uspiano”: uma atrofia moral, abundantemente observada no seio da USP, que se manifesta na tentativa de preservar a todo custo a imagem externa da instituição como a de a mais importante universidade do país, livre de vícios e máculas. Segundo essa prática, todos os escândalos e todos os desvios de conduta devem ser internamente abafados e ocultados para que a sociedade externa não altere sua visão da universidade como sendo a de uma vestal erudita e serena, impoluta e estática. Não é necessário dizer a pessoas inteligentes e cultas que a única postura realmente eficaz em preservar a dignidade de uma instituição, qualquer instituição, é a oposta: a da transparência isenta e austera nos julgamentos e procedimentos corretivos.

Irmão do corporativismo, essa doença largamente disseminada nas instituições públicas nacionais, o “fachadismo uspiano” alimenta-se também da pusilanimidade, traço de caráter não-raramente encontrado em nosso meio acadêmico e que expressa uma característica marcadamente nacional no trato de questões públicas: o medo do indivíduo na defesa de seus direitos e interesses, fruto de uma sociedade ainda parcialmente refratária às virtudes da democracia.

Por que a crise no IFUSP interessa ao cidadão comum? Por exibir os perigos em que vivem instituições acadêmicas que tentam crescer em um meio pobre de tradições científicas, no qual não se impôs ainda a percepção do papel substantivo do mérito científico como critério de contratações e promoções acadêmicas e administrativas.

Por que a atuação da Reitoria da USP e dos órgãos centrais dessa universidade nos referidos episódios interessa ao cidadão comum? Por um lado, por exibir o fato de que a ausência de transparência associada ao corporativismo fachadista pode conduzir à situação na qual detentores de poder protegem detentores de poder sob o olhar complacente de órgãos que abdicam de sua independência para não obstar os interesses do poder universitário. Por outro lado, por exibir as conseqüências da condução ao poder universitário de indivíduos desconhecedores da natureza de uma Universidade real, de seus fundamentos e de seus propósitos.

A percepção de que o episódio do plágio envolve uma “briguinha por poder” é precisamente, portanto, a visão que interessa aos perpetradores do plágio e seus protetores. É a visão que os mesmos têm propagado internamente também.

Por uma questão de justiça, quero ressaltar, por fim, a importância que a Imprensa tem tido no tratamento desse episódio. Creio ser unânime entre meus colegas próximos a opinião de que o pouco que foi alcançado até o momento só foi possível devido ao exercício da liberdade que alguns valorosos repórters e colunistas se permitiram. Internamente à USP todos os esforços foram vãos e a nada levariam.

Agradeço a atenção da leitura desta mensagem. Se for do seu interesse divulgá-la de alguma forma, dou-lhe expressamente permissão para tal, desde que a integridade da mesma seja, por gentileza, preservada.


2 Comentários on “O fachadismo da USP”

  1. ale disse:

    Ni!

    Engradece nesses momentos ler o Prof. Barata, com quem lamentavelmente não cursei discilpinas.

    Infelizmente, neste caso, mais atual que nunca.

    Não sejamos pusilânimes.

    ~~

  2. […] uma doença que João Barata, professor do Instuto de Física  da USP,  define muito bem:   “uma atrofia moral, abundantemente observada no seio da USP, que se […]


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