Excertos de ‘Cultura Livre’: visão do Lessig sobre o uso do blog nos EUA

(Publicado originalmente dia 23 de fevereiro em http://stoa.usp.br/tom/weblog/43088.html)

Criei um post aqui no meu blog com trechos do livro do Lessig, ‘Free Culture’ (‘Cultura Livre‘), onde ele explica um pouco algumas coisas interessantes sobre o uso do blog nos EUA (link deletado do Stoa). Como recentemente descobri que há uma tradução do livro para o Português, vou repetir esse mesmo trecho nesse post. Como o site Trama Universitário oferece uma grande dificuldade para download, forçando o cadastro no site exiginto vários dados, acabei deixando o arquivo numa comunidade aqui do Stoa: download aqui (11 Mb) – descompactado PDF (16 Mb).

Seguem alguns trechos do livro do Lessig, Cultura Livre, capítulo 2: “Meros copistas”. Alguns grifos foram adicionados por mim. Ainda criarei um post comentando esse trecho.

[…]

O 11 de Setembro não foi uma aberração. Foi o começo. Mais ou menos na mesma época, uma forma de comunicação que tinha crescido geometricamente estava começando a entrar no imaginário popular: o weblog, ou blog. O blog é uma espécie de diário público e, em algumas culturas, como no Japão, funciona de forma muito parecida com um diário. Nessas culturas, ele registra fatos provados de um modo público – uma espécie de Jerry Springer, disponível em qualquer lugar do mundo.

Mas nos Estados Unidos, os blogs assumiram características bem diferentes. Há alguns que usam o espaço simplesmente para falar sobre sua vida pessoal. Mas há muitos que o usam para participar do debate público. Discutindo assuntos de importância pública, criticando outros que têm visões equivocadas e as decisões de políticos, oferecendo soluções para problemas que todos nós vemos. Os blogs criam a sensação de um encontro público virtual, mas um no qual nós não esperamos estar todos ao mesmo tempo e no qual as conversas não são necessariamente ligadas entre si.

Essa é uma afirmação polêmica. Mesmo assim, diz tanto sobre nossa democracia quanto diz sobre blogs. É a parte do país mais difícil de aceitar para aqueles entre nós que amam os EUA: nossa democracia atrofiou. Claro que temos eleições, e na maioria das vezes os tribunais permitem que essas eleições sirvam para alguma coisa. Um número pequeno de pessoas vota nessas eleições. O circuito das eleições se tornou totalmente profissional e rotineiro. A maioria de nós acha que isso é democracia.

Mas a democracia nunca se tratou de eleições. Democracia significa o governo pelo povo, mas governar significa mais do que meras eleições. Em nossa tradição, isso também significa controle através de debates racionais. Foi essa a idéia que capturou a imaginação de Alex de Tocqueville, o advogado francês do século XIX que escreveu o mais importante relato da jovem Democracia na América. Não foram as eleições populares que o fascinaram – foi o júri, uma instituição que deu às pessoas comuns o direito de escolher a vida ou a morte de outros cidadãos. O mais fascinante para ele foi que o júri não votava apenas no resultado que iria impor. Ele deliberava. Os membros discutiam sobre o resultado “certo”, tentavam convencer uns aos outros do resultado e, pelo menos em casos criminais, tinham que chegar a uma decisão unânime para pôr fim ao processo. [15]

Mesmo assim, essa instituição está esmorecida nos EUA de hoje. E, em seu lugar, não há nenhum esforço sistemático para facultar aos cidadãos o debate público. Alguns estão tentando criar essa instituição. [16] E, em algumas cidades da Nova Inglaterra, algo próximo a ela continua existindo. Mas, para a maioria de nós, na maior parte do tempo não há hora ou lugar para a discussão democrática.

De forma ainda mais bizarra, geralmente não há nem a permissão para que isso ocorra. Nós, a mais poderosa democracia do mundo, desenvolvemos fortes regras quando o assunto é discutir política. Tudo bem falar de política com quem concorda com você. Mas é falta de educação discutir política com gente que discorda de você. O discurso político tornou-se isolado, e discursos isolados tornam-se mais extremos. [17] Dizemos o que nossos amigos querem ouvir e ouvimos muito pouco além o que os nossos amigos dizem.

Entra em cena o blog. A própria arquitetura do blog soluciona uma parte desse problema. As pessoas escrevem quando querem escrever e as pessoas lêem quando querem ler. A maior dificuldade é o tempo sincrônico. Tecnologias que possibilitam a comunicação assíncrona, como e-mail, aumentam as oportunidades de comunicação. Os blogs permitem o debate público sem que o público precise se encontrar em um só lugar público.

Além da arquitetura, os blogs também solucionam o problema das regras sociais. Não há regra (até o momento) contra falar de política na esfera dos blogs. Essa esfera é cheia de textos políticos, tanto da esquerda, quanto da direita. Alguns dos sites mais populares são conservadores ou libertários, mas muitos são de todas as cores políticas. Mesmos blogs que não são políticos cobrem questões políticas quando o assunto se justifica.

A importância desses blogs hoje é pequena, mas não tão pequena assim. O nome de Howard Dean teria sumido das corrida eleitoral de 2004 se não fosse pelos blogs. Mesmo se o número de leitores for pequeno, os blogs estão produzindo efeitos.

Um efeito direto é sobre aqueles assuntos que tinham um ciclo diferente nos meios de comunicação de massa. O caso Trent Lott é um exemplo. Quando Lott “se expressou mal” em uma festa do Senador Strom Thurmond, basicamente elogiando as políticas segregacionistas do senador, ele calculou corretamente que o assunto desapareceria da grande mídia em 48 horas. E desapareceu. Mas não calculou o ciclo da notícia nos blogs. Os blogueiros continuaram pesquisando a história. Com o tempo, mais e mais estâncias de Lott “se expressando mal” apareceram. Finalmente, o assunto voltou à grande mídia. No final, Lott foi forçado a renunciar como líder da maioria do senado. [18]

Esse ciclo diferente é possível porque as pressões comerciais que existem em outros veículos não existem nos blogs. Jornais e redes de televisão são entidades comerciais. Eles têm que trabalhar para manter a atenção. Se perdem leitores, perdem dinheiro. Como tubarões, eles devem se manter em movimento.

Mas blogueiros não sofrem constrições similares. Eles podem ficar obcecados, podem se concentrar, ir a fundo. Se um blogueiro em particular escreve um texto particularmente interessante, mais e mais pessoas linkam aquele texto. Se o número de links para um texto qualquer aumenta, ele sobe no ranking. As pessoas lêem o que é popular e o popular é selecionado por um ranking muito democrático, criado por outros blogueiros.

Há uma segunda razão, ainda, para que os blogs tenham um ciclo diferente da grande mídia. Como me explicou Dave Winer, um dos pais desse movimento e desenvolvedor de software por várias décadas, outra diferença é a ausência de “conflito de interesses”. “Eu acredito que o conflito de interesses deve ser tirado do jornalismo”, me disse Wiener. “Um jornalista amador não tem conflito de interesses ou seus conflitos são tão fáceis de revelar que você meio que pode tirá-los da frente.”

Esses conflitos se tornam mais importantes à medida que os meios de comunicação se tornam mais concentrados (mais sobre isso abaixo). Empresas de comunicação mais concentradas podem se esconder melhor do público do que as menos concentradas – como a CNN admitiu ter feito depois da guerra do Iraque por medo das conseqüências para os seus empregados. [19] Empresas concentradas também precisam sustentar relatos mais coerentes entre si. (No meio da guerra do Iraque, li um texto na Internet de alguém que estava escutando um link de satélite de um repórter no Iraque. O quartel-general em Nova York repetia para a repórter que seu relato da guerra era muito desolador: ela precisava oferecer uma matéria mais otimista. Quando ela disse que isso não tinha fundamento, o pessoal em Nova York disse que eles estavam escrevendo “a história”)

Os blogs dão aos amadores um jeito de entrar no debate – “amadores” não no sentido de “inexperiente”, mas no mesmo sentido de um atleta olímpico, o de não estar sendo pago por ninguém para escrever seus relatos. Isso permite uma gama muito maior de perspectivas sobre um tema, como revelou os relatos do desastre da Columbia, quando centenas de pessoas no sudoeste dos Estados Unidos foram para a Internet contar o que viram. [20] Tal coisa também leva os leitores a ler relatos em toda gama e, nas palavras de Winer, a “triangular” a verdade. Os blogs, diz Winer, “se comunicam diretamente com a freguesia, sem nenhum intermediário” – com todos os benefícios, e custos, em que isso pode resultar.

Winer é otimista a respeito do futuro do jornalismo infectado pelos blogs. “Essa será uma habilidade essencial”, prediz Winner, “para pessoas públicas e cada vez mais para pessoas particulares também”. Não está claro se as empresas jornalísticas estão felizes com isso – alguns jornalistas ouviram dos empregadores que deveriam se dedicar menos aos blogs. [21] Mas está claro que ainda estamos em transição. “Muito do que estamos fazendo agora são exercícios de aquecimento”, me disse Winer. Há muita coisa que precisa se desenvolver antes desse espaço ter um efeito maduro. E, uma vez que a inclusão de conteúdo nesse espaço é a forma de uso da Internet que menos infringe o copyright, “vamos ser a última coisa a ser fechada”, disse Winer.

Esse debate público afeta a democracia. Winer acredita que isso acontece porque “você não tem que trabalhar para alguém que controla, para um sentinela”. É verdade, mas os blogs afetam a democracia também de outra forma. Com mais e mais cidadãos expressando o que pensam, e defendendo isso por escrito, os blogs vão mudar o modo de as pessoas entenderem questões públicas. É fácil estar errado ou enganado em sua cabeça. É mais difícil quando o produto de sua mente pode ser criticado por outros. Um ser humano que admite ter sido convencido de que está errado é raro, claro. Mas é ainda mais difícil para um ser humano ignorar quando alguém prova que ele está errado. Escrever idéias, discussões e críticas melhoram a democracia. Hoje existem provavelmente uns poucos milhões de blogs com esse tipo de texto. Quando existirem 10 milhões, será algo extraordinário.

Essa parte é importante, já que algumas pessoas questionaram sobre o uso de blogs aqui no Stoa-USP para discutir política, uma rede social onde cada membro da universidade possui um blog.

E Lessig continua explicando sobre como essas tecnologias podem influenciar o aprendizado, o principal objetivo do projeto Stoa, oferecer ferramente para melhorar o aprendizado

[…]

John Seely Brown é o cientista-chefe da Xerox Corporation. Seu trabalho, como descrito em seu site, é “aprendizagem humana e […] a criação de ecologias de conhecimento para criar[…] inovação”.

Brown, portanto, vê essas tecnologias de criatividade digital de maneira um pouco diferente das perspectivas que rascunhei até agora. Estou certo de que ele se empolgaria com qualquer tecnologia que pudesse aprimorar a democracia. Mas ele fica empolgado de verdade com tecnologias que afetam o aprendizado.

Brown acredita que aprendemos experimentando. Quando “muitos de nós estávamos crescendo”, explica ele, os experimentos eram feitos em , “motores de motos e cortadores de grama, carros, rádios e assim por diante”. Mas as tecnologias digitais propiciam uma espécie diferente de experiências – com idéias abstratas em forma concreta. Os jovens no Just Think! não pensam só em como um comercial retrata um político; usando tecnologia digital, eles podem desmontar o comercial e manipulá-lo, fazer experiências com ele para descobrir como ele faz o que faz. As tecnologias digitais inauguraram uma espécie de bricolagem, ou “colagem livre”, como Brown a chama. Muitos adicionam algo ou transformam uma experiência feita em conjunto com vários outros.

O melhor exemplo em larga escala desse tipo de experiência até hoje é o software livre, ou de código aberto (Free Software/Open Source Software = FS/OSS). Os FS/OSS são softwares cujo código-fonte é compartilhado. Qualquer um pode baixar a tecnologia que faz um FS/OSS funcionar. E qualquer um ansioso por aprender como um pedaço em particular de um FS/OSS funciona pode experimentar com o código.

Essa oportunidade cria uma “espécie completamente nova de plataforma de aprendizado”, como descreve Brown. “Assim que você começa a mexer no código, você […] liberta uma colagem livre na comunidade, para que as outras pessoas comecem a olhar seu código, experimentar com ele, testá-lo, ver se podem melhorá-lo.” Cada tentativa é uma forma de aprendizagem. “O código aberto se torna uma importante plataforma de aprendizagem.”

Nesse processo, “as coisas concretas com as quais você experimenta são abstratas, são códigos”. Os jovens estão “mudando para a habilidade de experimentar com o abstrato e essa experimentação não é mais uma atividade que você faz isolado em sua garagem. Você está experimentando em uma plataforma comunitária […]

Você está fazendo experiências com o trabalho dos outros. E, quanto mais você experimenta, mais você o torna melhor”. Quanto mais você o torna melhor, mais você aprende.

As mesmas coisas também acontecem com conteúdo, acontecem da mesma forma colaborativa quando o conteúdo é parte da web. Como Brown coloca, “a web é o primeiro suporte que realmente faz jus a múltiplas formas de inteligência”. Tecnologias anteriores, como a máquina de escrever e processadores de texto, ajudavam a aumentar textos. Mas a web amplia muito mais do que texto. “A web […] diz que se você é musical, se você é artístico, se é visual, se está interessado em cinema […] então há muito que você pode fazer nesse meio. Ela pode aumentar e fazer jus a essas múltiplas formas de inteligência.

[…]

Apenas para lembrar todo mundo, todos softwares usados no projeto Stoa são livres e de código aberto. Mais detalhes sobre isso mais tarde. Coincidentemente, estou sendo um mero copista nesse post de blog. :-)

Referências

[15] Ver, por exemplo, Alexis de Tocqueville, Democracy in America, livro 1, trans. Henry Reeve (Nova York: Bantam Books, 2000), cap. 16.

[16] Bruce Ackerman e James Fishkin, “Deliberation Day”, Journal of Political Philosophy 10 (2) (2002): 129.

[17] Cass Sunstein, Republic.com (Princeton: Princeton University Press, 2001), 65-80, 175, 182, 183, 192.

[18] Noah Shatchman, “With Incessant Postings, a Pundit Stirs the Pot”, New York Times, 16 de janeiro de 2003, G5.

[19] Entrevista por telefone com David Winer, 16 de abril de 2003.

[20] John Scwartz, “Loss of the Shuttle: The Internet; A Wealth of Information Online”, New York Times, 2 de fevereiro de 2003, A28; Staci D. Kramer, “Shuttle Disaster Coverage Mixed, but Strong Overall”, Online Journalism Review, 2 de fevereiro de 2003, disponível no link #10.

[21] Ver Michael Falcone, “Does an Editor’s Pencil Ruin a Web Log?”, New York Times, 29 de setembro de 2003, C4. (“Nem todos os veículos de notícia aceitam empregados que tenham blogs. Kevin Sites, um correspondente da CNN no Iraque que criou um blog sobre sua cobertura da guerra no dia 9 de março, parou de postar depois de 12 dias a pedido de seu chefe. Ano passado, Steve Olafson, um repórter do Houston Chronicle, foi demitido por manter um blog pessoal, publicado sob um pseudônimo, que tratava de assuntos e pessoas que ele cobria.”)



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