Publicado; 10 de abril de 2011 | Autor: Tom | Filed under: Pensamentos aleatórios, Política | Tags: cidadania, Darcy Ribeiro, desigualdade social, exclusão social, humanidade, moradores de rua, omissão |
Lendo agora o texto da jornalista Cristina Castro, Não nos acostumemos mais!, e por causa de uma conversa ontem no encontro do Adote um Vereador, no Pátio do Colégio, acabei lembrando o relato de uma senhora num dia que estava indo para o aeroporto de Guarulhos, isso em 2009. Essa senhora, que já devia ter mais de 80, começou a conversar com o motorista sobre os moradores de rua, na medida em que passávamos no centro de São Paulo e víamos muitos deles dormindo na rua.
Puxando da memória o que ficou, disse ela: “Nossa, quando eu era mais jovem, se víssemos alguém morando na rua, a vizinhança, o pessoal do bairro, logo ia ver porque ele estava assim, o que havia ocorrido para estar lá, na rua e sozinho.” E o motorista, um pouco mais jovem, mostrava seu desconforto diante da situação. O número de moradores de rua hoje é tão grande hoje na cidade de São Paulo, em torno de 13 mil, que esse olhar humano diante de alguém vivendo nas ruas talvez praticamente não existe mais. Ou talvez simplesmente não sabemos o que fazer diante do quadro atual e ficamos quietos. Não podemos ficar quietos.
Durante minha graduação, entre 1999 e 2002, eu pouco vinha para o centro de São Paulo. Tanto que em alguns passeios com alguns amigos estrangeiros que fiz mais tarde, eles mais me guiavam com seus livrinhos do que o contrário. Mas tenho registrado na minha memória, durante a época da graduação, o dia em que vi, pela primeira vez, um ser humano, em plena luz do dia, agachar-se e começar a defecar, logo ali, para todos verem, sentirem o cheiro e, de certo, ignorarem. Foi algo impressionante para alguém pouco acostumado a vir para a região central de São Paulo, pois mais tarde vim a descobrir que isso não era tão incomum.
Há um ano e meio moro na região da Avenida Paulista e também venho frequentando mais a região central. É muito comum eu ter que desviar de alguém dormindo na rua quando ando por aqui ou ver um morador de rua falando sozinho, muitas vezes com cheiro de fezes e urina, algumas vezes andando à esmo nas calçadas de uma das avenidas mais ricas do pais, ali, abandonado, com todos nós não querendo passar perto por causa do cheiro e por causa do medo.
Como morador dessa região, mesmo que recente, minha impressão é que o número de moradores de rua tem aumentado, principalmente após o fechamento dos albergues da região central pelos nossos representantes. Posso falar apenas de impressão, pois nunca contei o número de mendigos, o que deve ser algumas dezenas agora, apenas na área que circulo.
Já transcrevi um trecho do livro O povo brasileiro, do Darcy Ribeiro, em que ele relata esse isolamento dos privilegiados diantes dos estratos mais pobres. O livro é de 1995, já tem mais de 15 anos e o relato é de um quadro que deve ter no mínimo duas décadas. Diante dessa situação de desumanização, que ocorre em outros momentos do nosso dia-a-dia, me pergunto muitas vezes, principalmente quando passo ao lado de um morador, ou quando vejo alguém dormindo dentro de uma caixa de papel, o que precisamos para ter um olhar mais humano para essas pessoas.
Às vezes penso se pegar minha simples câmera e começar a tirar fotos e fazer vídeos dos moradores de rua seria certo. As fotos, certamente, não seriam para fins comerciais, mas para fins de relatar essa omissão diante dos nossos olhos. É uma das idéias. Me parece claro que órgãos públicos também devem fazer alguma coisa, mas uma pressão da sociedade é necessária para que nossos representantes façam algo. Mas diante da passividade do povo brasileiros em questões que até mesmo lhe dizem respeito diretamente, ficou um tanto desanimado e pessimista.
E você, tem alguma idéia do que poderia ser feito?
Publicado; 9 de abril de 2011 | Autor: Tom | Filed under: Educação, Política | Tags: abandono, crianças, escola, realengo, tragédia |
Há um bom tempo quero escrever sobre algo que me incomoda muito, o número de crianças que vejo abandonadas e nossa (minha também) omissão diante dessa situação. Vou ser breve agora sobre um ponto que me chamou atenção por causa da barbárie que ocorreu no Rio de Janeiro.
Nas regiões que ando com mais frequência no meu dia-a-dia, centro e zona oeste da cidade de São Paulo, vejo crianças dormindo nas ruas, trabalhando nas ruas – muitas forçadas pelos pais -, trabalhando nos semáforos, prostituindo-se, usando drogas pesadas. Sem falar nas crianças abandonadas nas chamadas escolas, essas também abandonadas pela sociedade.
Para termos uma idéia da inversão de valores da administração pública e dos representantes do povo da cidade em que vivo, um exemplo que vi, na última semana, durante a apresentação de um balanço do plano de metas da cidade depois de dois anos (veja página 7 aqui). Ainda temos 100 mil crianças que não tem acesso à creche, de uma demanda de 230 mil. Estamos atrasados para atingir essa meta. Segundo Mauricio Faria, que apresentou o balanço, houve uma parceria da cidade de São Paulo com o estado de São Paulo, no valor de R$ 60 milhões, para a construção de mais creches. Em contraposição, foram gastos R$ 2 bilhões na ampliação das marginais. É 33 vezes o valor para a construção das creches! Ora, se estão faltando vagas para as crianças, o que é mais importante? (Não quero dizer que o problema do transporte deve ser esquecido, nem pretendo levantar nada agora sobre os métodos adotados para atacar esse problema.)
Diante desse quadro de abandono das crianças – milhares, talvez milhões, se levarmos em conta as chamadas escolas! -, pelo menos na cidade que vivo – ainda pretendo fazer um relato mais detalhado -, o que não deve ser muito diferente no resto do país, alguém me explica por que tanto falam, só agora, do futuro que poderiam ter as 12 crianças assassinadas no Rio de Janeiro? Ou sobre a tentativa alucinada de achar um culpado (o maluco já está morto) para essa tragédia?
Sobre o jornalismo marrom, não é necessário explicação. É de se esperar o uso de tragédias apenas para vender jornal. O que não consigo entender é esse momentâneo surto de preocupação com o futuro das crianças, sendo que todo dia pouco ouço sobre as crianças abandonadas do Brasil. Para essa situação, sim, deveríamos refletir sobre os culpados: todos nós.