Igreja da Razão
Publicado; 12 de maio de 2009 Filed under: Ciência, Educação, Filosofia | Tags: academia, ensino, faculdade, igreja, igreja da razão, Pirsig, professor, racionalismo, razão, universidade, Zen e a ate da manutenção de motocicletas 2 Comments »(Publicado originalmente dia 9 de setembro de 2008 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/31696.html)
[...]
“O discurso começa referindo-se a uma notícia sobre um prédio de igreja rural que tinha sobre a entrada principal um luminoso de marca de cerveja. O prédio fora vendido, e estava sendo usado como bar. E de supor que, a essa altura, a turma começasse a rir. As farras da faculdade eram famosas, e a metáfora mais ou menos correspondia. O artigo dizia que os provisores receberam algumas reclamações por causa disso. Era uma igreja católica, e o padre encarregado de responder às críticas parecia bastante irritado com o que estava acontecendo. Para ele, o fato mostrava que as pessoas ignoravam o que fosse uma igreja. Pensavam que tijolos, tábuas e vidro constituíam uma igreja? Ou o formato do telhado? Aquilo era um exemplo do mesmo materialismo desprezado pela Igreja, disfarçado em piedade. O prédio em questão não era mais um lugar santo. Perdera o caráter sagrado, e pronto. O anúncio de cerveja estava à porta de um bar, não de uma igreja. Aqueles que não conheciam a diferença estavam simplesmente mostrando o que eram.
Fedro declarou então que existia o mesmo tipo de confusão com relação à universidade. E por isso era difícil compreender a perda do reconhecimento. A verdadeira universidade não é um objeto material. Não é um conjunto de edifícios que pode ser defendido pela polícia. Quando uma faculdade perdia o reconhecimento, não vinha ninguém fechar a escola. Não havia penalidades legais, multas, nem mandados de prisão. As aulas não terminavam. Tudo continuava como antes. Os alunos recebiam a mesma educação que receberiam se a escola continuasse sendo reconhecida. Só que haveria aceitação oficial de uma situação já existente. Era algo parecido com a excomunhão. A verdadeira universidade, que nenhuma assembléia poderia influenciar, e que nunca poderia ser identificada como qualquer disposição de tijolos, tábuas e vidro, simplesmente declararia que este não é mais um “lugar santo”. A verdadeira universidade deixaria este local, e só sobrariam os tijolos, os livros e as manifestações materiais.
Os estudantes devem ter ficado perplexos ao ouvir tais idéias, e creio que Fedro deve ter-se calado por um bom tempo, para que elas fossem absorvidas, talvez esperando por uma pergunta do tipo: “E o que acha você que é a verdadeira universidade?”
Em suas anotações encontra-se a seguinte resposta:
“A verdadeira universidade não se localiza num lugar específico. Não tem propriedades, não paga salários, não recebe taxas materiais. A verdadeira universidade é um estado de espírito. É a grande herança do pensamento racional que nos foi legada ao correr dos séculos e que não tem lugar específico para ficar. É um estado de espírito que se renova através dos séculos, graças a um grupo de pessoas que ostentam tradicionalmente o título de professor, título esse que, no fundo, também não faz parte da universidade. A verdadeira universidade é nada mais nada menos que o corpo contínuo da razão em si.
Além desse estado de espírito, a razão , existe uma entidade legal que, infelizmente, atende pelo mesmo nome, mas que é muito diferente. Esta é uma empresa sem fins lucrativos, uma filial do estado, com endereço específico. Possui propriedades, pode pagar salários, receber dinheiro e reagir também a pressões do legislativo.
Porém, esta segunda universidade, a empresa legal, não pode ensinar, não pode gerar novos conhecimentos, nem avaliar idéias. Não é a verdadeira universidade. É apenas o prédio da igreja, o cenário, o local onde se criaram condições favoráveis para que a verdadeira Igreja exista.
As pessoas que não enxergam essa diferença ficam sempre confusas, pensando que controlar o prédio da igreja é o mesmo que controlar a Igreja. Eles vêem os professores como empregados da segunda universidade que deveriam deixar a razão de lado quando lhes fosse solicitado e obedecer ordens sem objeções. Exatamente como os empregados de outros tipos de empresa.
Enxergam a segunda universidade, não a primeira.”
[...]
O objetivo principal da Igreja da Razão é sempre o velho objetivo socrático de buscar a verdade, em suas formas em constante mutação, conforme é revelada pelo processo da racionalidade. Tudo o mais deve subordinar-se a isso. Normalmente, tal objetivo não entra em choque com o intuito local de edificar a comunidade, mas às vezes ocorrem certos conflitos, como no caso do próprio Sócrates. É quando os curadores e legisladores que contribuíram com grandes quantidades de dinheiro e tempo para construir a sede da universidade se opõem às aulas ou pronunciamentos dos professores. Passam então a pressionar a administração, ameaçando cortar as verbas se os professores não disserem o que eles querem ouvir. Coisas como essas também acontecem.
Em tais situações, os verdadeiros sacerdotes devem agir como se nem tivessem ouvido as ameaças. Seu objetivo principal nunca é servir à comunidade, acima de tudo. Seu objetivo principal é servir, através da razão, à busca da verdade.”
[...]
Excertos. Capítulo 13, Zen e a arte da manutenção de motocicletas, Robert M. Pirsig.
Universidade, academia, professor, ciência e filosofia: excertos
Publicado; 11 de maio de 2009 Filed under: Ciência, Educação | Tags: A história do pensamento ocidental, academia, Bertrand, Bertrand Russell, Carpeaux, ceticismo, Ciência, dúvida, decadência, desconhecido, Educação, ensino, Feynman, Filosofia, Grécia, Platão, professor, questionamentos, universidade, USP 1 Comment »(Publicado originalmente dia 9 de janeiro de 2008 http://stoa.usp.br/tom/weblog/13471.html)
Alguns excertos do livro A história do pensamento ocidental (Wisdom of the West), de Bertrand Russell, relacionados a um assunto que muito me interessa e penso há certo tempo, desde a época em que era estudante de graduação: a missão de uma universidade. Meus pensamentos sobre o assunto ainda são imaturos.
“Na verdade, há duas atitudes que podem ser adotadas ante o desconhecido. Uma é aceitar as afirmações de pessoas que dizem conhecer, baseadas em livros, mistérios ou outras fontes de inspiração. A outra consiste em sair em busca por si mesmo, e este é o caminho da ciência e da filosofia.“
Acho que no prefácio (preciso conferir e não sei onde está o livro, agora).
“Num sentido bastante real, este continua sendo o objetivo da genuína ducação, até mesmo nos dias de hoje. Não é função de uma universidade encher a cabeça dos estudantes com o maior número possível de fatos. Sua verdadeira tarefa é inculcar neles hábitos de exame crítico e a compreesão de cânones e critério rederentes a todas as matérias.“
Pág. 74, comentário enquanto descrevia a ‘Academia’ fundada por
Platão, em Atenas.
[...] “Lembremos que ciência e filosofia eram estudadas em escolas ou sociedades onde havia estreita colaboração entre alunos e professores. A verdade importante que parece ter sido compreendida desde o início, pelo menos implicitamente, é que o ensino não é um processo de transmitir informação. Em parte, é claro, deve haver isso. Mas não é a única função do professor, nem a mais importante. Na verdade, isso é mais evidente hoje do que àquela época, quando os registros escritos eram mais raros e mais difíceis de se obter do que agora. Atualmente, é razoável pensar que qualquer pessoa que saiba ler poderá recolher informações numa biblioteca. É cada vez menos necessário um professor para transmitir mera informação. E por isso tanto maior é o mérito dos filósofos gregos, por terem compreendido como se deveria realizar uma genuína educação. O papel do professor é de orientar, de levar o aluno a ver por si mesmo.“
Págs. 88 e 89, comentário sobre a educação grega.
Esse último comentário me lembra um trecho do prefácio do ‘The Feynman Lectures on Physics’, de Richard Feynman:
“Acho, porém, que a única solução para este problema da educação é perceber que o melhor ensino só pode ser praticado quando há uma relação individual direta entre um estudante e um bom professor uma situação em que o estudante discute as idéias, pensa sobre as coisas e fala sobre elas. É impossível aprender muito apenas sentado em uma palestra ou mesmo resolvendo problemas propostos. Mas, em nossos tempos modernos, temos tantos alunos aos quais ensinar que precisamos tentar encontrar um substituto para o ideal. Talvez em algum pequeno lugar onde haja professores e alunos individuais, eles possam obter certa inspiração ou idéias destas palestras. Talvez se divirtam raciocinando sobre elas ou desenvolvendo mais algumas coisas.“
Na época, 1999, ano em que ingressei na graduação em física da USP, fiquei impressionado com as palavras do Feynman. Para quem estava acostumado com colégios tradicionais brasileiros (principalmente alguns públicos), local raro para se encontrar seres pensantes (não que mudou muita coisa na universidade, mas melhorou, sim, consideravelmente e, ainda, descobri as bibliotecas!), descobrir Feynman, primeiro, e Russell, depois, são coisas que não têm preço na vida de um jovem estudante. Russell acabei descobrindo mais tarde por causa da autobiografia dele que pode ser lida na biblioteca do IFUSP (um pouco sobre essa descoberta). Essa relação aluno-professor tive um pouco devido à iniciação científica durante o curso de graduação.
Preciso ler mais os gregos. Acho que começarei por Platão, possivelmente com The Republic (se alguém tiver alguma sugestão, ela é bem-vinda).
Também esbarrei hoje com um possível nome interessante para estudar, Otto Maria Carpeaux (alguma sugestão?):
Não está longe o dia em que o MST, julgando a USP improdutiva, não hesitará em invadir aquele campus Butantã, exigindo ciência socialista.
Na década de 1940, Otto Maria Carpeaux, em sua Viena natal, já observara à sua primeira entrada na universidade:
“Vi a biblioteca coberta de poeira, os auditórios barulhentos, estupidez e cinismo em cima e embaixo das cadeiras dos professores, exames fáceis e fraudulentos, brutalidades de bandos que gritavam os imbecis slogans políticos do dia e que se chamavam ‘acadêmicos’.”
Ainda em “A idéia da universidade e as idéias das classes médias”, Carpeaux faz uma extensa análise da motivação violenta que se apoderou das classes médias, não economicamente médias, mas sim espiritualmente. Classes médias do espírito, aquelas que jamais chegarão ao conhecimento da realidade e, por isso, tornam-se violentamente invejosas de quem o possui.
Para esses, o objetivo da vida deixa de ser o conhecimento, se um dia o foi. Enxergando-se incapazes de adquiri-lo, querem impedir que outros o busquem. Restam as manifestações de significado nulo, cheias de som e fúria. Restam as filiações políticas e os sindicatos. Resta o sentimento de coletividade irresponsável.
E Carpeaux, constatando que a história das universidades é a história espiritual das nações, coloca-nos em uma situação deveras preocupante. Se é que ainda podemos nos chamar nação.
(Por Gerson Faria)
Parece que estamos, infelizmente, bem longe do ideal da academia grega, quando nos lembramos sobre muitos fatos das nossas universidades. Qual será a relação entre os diversos problemas do nosso país, da nossa sociedade, e nossas univerversidades e centros educacionais? Quero estudar melhor o que Carpeaux diz sobre essa relação entre universidade e nação.
Aos professores: como vocês divulgam seus trabalhos para atrair alunos de iniciação científica e de pós-graduação? Que tal um blog?
Publicado; 11 de maio de 2009 Filed under: Ciência, Educação, Informática, Computação e Tecnologia | Tags: blog, divulgação científica, Educação, IFUSP, iniciação científica, USP Leave a comment »(Publicado originalmente dia 5 de dezembro de 2007 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/11420.html)
Caros professores,
certamente muitos de vocês devem concordar que um bom projeto de iniciação científica (IC) com um aluno interessado e esforçado pode ser algo bastante proveitoso, principalmente para o aluno, como também para o professor e seu grupo de pesquisa. Recentemente, pensando comigo como foi que descobri minha ex-orientadora, depois que fiquei sabendo o que é iniciação científica, percebi que foi uma mera sorte (pelo fato de eu saber sobre o pior nível de dedicação aos seus orientados e, até mesmo, competência de alguns pesquisadores do instituto). Aliás, fui informado o que era iniciação científica, no ano que entrei no IFUSP, 1999, apenas no final desse mesmo ano, Outubro, num evento promovido pela comissão de graduação do instituto. Nos anos que se seguiram, sempre houve certo esforço por parte dos estudantes, na semana re recepção aos calouros, para divulgar sobre o que é iniciação científica e como começar uma. Fico muito feliz em saber que conversas minhas com alguns recém ingressantes na universidade acabaram fazendo iniciação científica e, muitas vezes, vieram contar para mim e até pedir algum conselho ou contar o que estavam fazendo.
O evento organizado pela comissão de graduação era um conjunto de palestras dos professores do instituto, que abordavam as várias linhas de pesquisa do instituto. No lado de fora do auditório onde as palestras foram apresentadas, o Abraão, haviam cartazes preparados pelos estudantes de IC. Fiquei bastante interessado por partículas elementares (algum dia conto mais sobre esse ponto) e fui falar com alguns estudantes veteranos quem eles me indicavam. Foi puro boca-a-boca. Eu nem cogitaria pesquisar o currículo do professor, nem mesmo saber um pouco dos outros orientados o que eles achavam. Um deles, com quem falei, ex-aluno de IC da professora que mencionaram o nome, me disse que era muito puxado fazer com ela, o que, de certa forma, me motivou.
Acabaram mencionando a professora Renata Funchal, então pesquisadora do Departamento de Física Nuclear, com quem fui, junto com um amigo, o Felipe, conversar, para saber o que precisávamos para fazer uma IC com ela. Marcamos uma reunião depois de uma semana, com a seguinte questão para responder e pensar no meio tempo: “Por que você decidiu fazer física?”
Pulando a parte da resposta minha (também crio um post, algum dia), na reunião a professora indicou 2 livros para nós lermos “A primer on particle physics: from alpha to zeta”, do Okun, e “Cosmic Onion”, do Frank Close. Ela enfatisou a importância de sabermos ler em inglês, pois essa é a língua usada pela comunidade científica. Penei no meu primeiro verão para tentar entender o livrinho do Okun. Não por causa da física, pois essa eu só viria a entender alguns anos mais tarde, depois de estudar quântica e relatividade, mas por causa do inglês, que não era lá grande coisa (na realidade, pouco sabia de minha capacidade para ler em inglês, após a aquisição de certo vocabulário através desse livrinho).
Descobri, assim, que eu podia ler livros em inglês. Fiquei bastante empolgado, pois, perambulando pela fantástica biblioteca do IFUSP, o leque de possibilidades ampliou muitíssimo, a partir de então.
Acho que tive uma boa orientação de IC e certo estou que descobri a professora em questão por acaso. Na época, não estava tão habituado com o uso dos mecanismos de busca na Internet (aprendi a ler email aos 18 anos – que diferença da nova geração!). Foi muito no boca-a-boca, mesmo.
Agora, suponham que um aluno precisa pesquisar diversos assuntos e o que cada pesquisador faz. Até mesmo (por que não?) interagir com o pesquisasdor. Como vocês divulgam seus trabalhos para atrair esse aluno? Como divulgam o seu dia-a-dia dentro da universidade? Um blog, muito mais prático e dinânimo, não é algo mais atrativo do que uma mera página estática e um currículo Lattes? Claro, também mais trabalhoso.
Você pode estar se perguntado: “Eu tenho minha página, por que faria um blog?” Num blog existe um recurso muito importante: a possibilidade das pessoas que lêem seus textos colocarem comentários, interagirem com você. Todos aqui que fazem pesquisa certamente sabem da importância de ter certo retorno por parte de terceiros sobre o que estamos fazendo. Além de ser um bom método para nos auto-avaliarmos (quem aqui garante que o que estou escrevendo está sendo bem compreendido?), pode ser também ferramenta poderosíssima para ampliarmos nosso conhecimento através de dicas e sugestões de alguém que já estudou sobre o assunto.
Num blog também existe a possibilidade de se incluir vídeos, imagens e sons de modo bastante prático! Você pode pegar a câmera do seu celular, gravar alguma mensagem e por na Internet. O mesmo pode ser feito com arquivos de aúdio e imagens.
Durante minha iniciação, fiz uma página simples de Internet, divulgando meus relatórios para as agências de fomento que pagavam minha bolsa, os pôsteres dos simpósios que participei, assim como os seminários que eu apresentei durante os cursos que fiz durante minha graduação e pós. Deixava alguns arquivos disponíveis para download (no servidor do departamento de física matemática do IFUSP, eu tinha 100 Mb para colocar tudo), o que pode facilmente ser feito aqui no Stoa. Não é preciso ser nenhum hacker para divulgar seu trabalho. E melhor ainda, está tudo centralizado! Quem sabe, no futuro, poderemos até integrar o sistema Stoa da Universidade de São Paulo com outros centros educaionais. Não seria fantástico?! Várias redes sociais com tantas pessoas com coisas importantíssimas e interessantíssimas para falar interagindo entre si e gerando conteúdo?
O blog também pode ser usado pelos seus próprios estudantes. Pode-se criar um blog comunitário onde mais de uma pessoa escreva sobre um determinado assunto, e. g., um grupo de pesquisa divulgando seu trabalho. Poderia ter algo melhor do que divulgar o que fazemos porque gostamos? :-)
Há também um fato que considero ser importantíssimo: a USP é financiada por dinheiro público. O blog não pode ser um bom meio de divulgar para quem está fora dos muros da universidade o que ocorre no dia-a-dia dela? Não pode motivar algum estudante do ensino básico quando ler algum texto de caráter de divulgação, quando bem escrito? Quantos estudantes não vão nos fóruns das comunidades da rede social que mais se popularizou entre os jovens brasileiros, o Orkut, para perguntar um pouco como é a vida pós-colégio? Usando o Orkut desde 2004, posso garantir que são muitos, mas muitos mesmo jovens que estão sedentos por saber, por aprender, por estudar. As possibilidades são infinitas e pouco custa, na minha opinião, dedicar certo tempo de nossa semana, para ajudar a orientar essas pessoas. Vejam um post explicando sucintamente a importância do material ser público (texto apagado do Stoa, em breve será publicado num outro lugar): Sobre a importância do conteúdo público / Alguém já viu conteúdo de qualidade no orkut?
Repito. Apenas uma lista de artigos publicados não é suficiente, na minha opinião. Quantos não existem com uma lista enorme de artigos, mas, quando vamos ver de perto, não passam de maquininhas de produzir artigos? Sei que não é todo profissional que tem facilidade de se comunicar de maneira didática, como vi em muitos professores em minha graduação. Acredito que esse espaço aqui pode ser um bom termômetro para quem se propõe a divulgar suas idéias. ;-)
“Everything is vague to a degree you do not realize till you have tried to make it precise.”
Bertrand Russell
Post relacionado
(Atualizado às 22h36 no dia )
O problema da uniformidade na educação do Brasil: questionamentos
Publicado; 11 de maio de 2009 Filed under: Educação, Filosofia | Tags: amigos da educação, Bertrand Ru, Bertrand Russell, brasil, disciplina, Educação, nivelamento por baixo, sistema educacional, uniformidade Leave a comment »(Publicado originalmente dia 13 de dezembro de 2007 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/12051.html)
Um excerto do livro Da Educação (1926), de Bertrand Russel, capítulo I, Postulados da moderna teoria educacional, páginas 7, 8 e 9. Traduação de Monteiro Lobato, de 1977, do original em inglês On Education, Especially in Early Childhood (Companhia Editora Nacional).
Ao lermos até mesmo os melhores tratados antigos de educação, observamos certas alterações ocorridas na teoria educacional. Os dois grandes reformadores da educação, antes do século XIX, foram Locke e Rousseau. Ambos merecem a fama que gozam, porque repudiaram muitos erros largamente correntes em seus dias. Mas nenhum foi tão longe em suas idéias pessoais como a quase totalidade dos educadores modernos. Ambos, por exemplo, pertencem à tendência que levou ao liberalismo e à democracia; ainda assim, só consideraram a educação de uma criança aristocrata, à qual um homem tinha que consagrar todo o seu tempo. Por melhores que fossem os resultados desse sistema, nenhum homem de visão moderna dar-lhe-ia atenção, pois é, aritimeticamente, impossível dedicar a uma criança todo o tempo de um professor. Este sistema, pois, só pode ser empregado por uma casta privilegiada; seria impossível num mundo justo. O homem moderno, ainda quando possa buscar vantagens especiais para seus filhos na prática, só considerará o problema teórico da educação como resolvido quando a vir franqueada a todos ou, pelo menos, a todos de capazes de com ela se beneficiarem. Não quero dizer que os abastados devam desistir de certas oportunidades educacionais, pelo simples fato de não as verem franqueadas a todos. Fazê-lo seria sacrificar a civilização por amor à justiça. Minha opinião é que devemos procurar, para o futuro, um sistema educacional que abra a todos os meninos e a todas as meninas as melhores oportunidades possíveis. O sistema ideal de educação deve ser democrático, embora não comporte realização imediata. Creio que ninguém contestará isso. Vou, pois, manter-me no ponto de vista democrático. O que advogarei poderá vir a ser universal, mas no interregno da espera, o indivíduo não deverá sacrificar seus filhos ao “mal vigente”, se tiver inteligência e oportunidade para obter algo melhor. Nem essa atenuada forma de princípio democrático encontramos em Locke e em Rousseau. Rousseau, um descrente da aristocracia, nunca refletiu sobre o que, em matéria de educação, a sua descrença implicava.
Essa questão de democracia e educação é das que exigem a maior clareza. Seria desastroso insistir no ponto morto da uniformidade. Algumas crianças se revelam mais capazes do que outros e podem obter maiores benefícios de uma educação mais apurada. Alguns professores são mais preparados, ou mais naturalmente aptos do que outros, mas é impossível que todos possam ser ensinados por esse diminuto número de professores melhores. Ainda que a mais alta educação fosse desejável para todos (o que duvido), é impossível a todos tê-la no momento e, por isso, uma rígida aplicação dos princípios democráticos poderá levar à conclusão de que ninguém deverá tê-la. A adoção desse modo de ver seria fatal ao progresso científico, e faria com que o nivel geral da educação, daqui a cem anos, fosse desnecessariamente baixo. O progresso não deve ser sacrificado a uma igualdade mecânica atual; precisamos nos aproximar cuidadosamente da democracia, de modo a destruir o menor número possível de valiosos produtos que possam estar associadas à injustiça social.
Não podemos, no entanto, considerar satisfatório um método de edcuação que não seja suscetível de universalizar-se. Os filhos de gente rica muitas vezes têm, além da mãe, uma ama, uma criada, e ainda parte do tempo da criadagem geral; isso envolve uma soma de atenção que em nenhum sistema social poderia ser dada a todas as crianças. É duvidoso que as crianças bem tratadas ganhem em fazer-se desnecessariamente parasíticas; mas, mesmo que não seja assim, nenhum espírito impoarcial poderia recomendar vantagens especiais para algumas apenas, exceto por motivos peculiaríssimos, como debilidade mental ou genealidade. Se puder, um sábio pai dos nossos dias escolherá para seus filhos um método de educação que não seja de fato universal, e por amor à experimentação, é desejável que esses pais tenham o ensejo de recorrer a novos métodos. Contudo, embora produzindo bons resultados, esses métodos hão que generalizar-se e nunca ficar restritos a uns poucos privilegiados. Felizmente, alguns dos melhores elementos da moderna pedagogia tiveram origem extremamente democrática: os trabalhos de Madame Montessori, por exemplo, começaram nas escolas maternais, nos bairros pobres. Na educação mais elevada tornasse indispensável articular capacidade excepcional com a oportunidade excepcional; aliás, não há razão alguma para que uma criança sofra com a adoção de sistemas que possam ser adotados por todos.
Muitos conceitos importantes como o de democracia e justiça, assim como os fins da educação, precisariam ser discutidos, o que não será feito agora. Sobre civilização, nas palavras do próprio Russell, coloquei um excerto sucinto do texto Educação e Disciplina, do livro O Elogio ao Ócio (1935), num outro post Um pouco sobre civilização nas palavras de Bertrand Russell.
O ponto que me chamou mais atenção foi sobre esse desastre da uniformidade, claramente tão empregada em nossas salas de aula aqui do Brasil, até mesmo nas escolas dos ricos. Precisamos relatar mais e mais o que está ocorrendo nas salas de aula, de todos os níveis, do Brasil. Noto, inclusive, que esse nivelamento por baixo ocorre até mesmo numa universidade dita ser uma das melhores do país, a Universidade de São Paulo. Me refiro aos cursos de graduação do Instituto de Física, local onde estudei nos últimos anos. Isso também precisa ser analisado, com calma, num momento posterior, pois quero enfatizar justamente esse nivelamento por baixo que ocorrem nas salas de aula.
Precisamos parar de sacrificar nossos talentos. Por favor, precisamos parar de sacrificar nossos talentos. Precisamos deixar de enganar o povo dando falsos diplomas, falsos atestados, falsas aulas, falsas escolas, falsos professores. Temos que começar a conversar, e muito, sobre tema tão importante, como é o da educação de nossa população. Só assim poderemos ter um número mínimo de pessoas para passar a levar o assunto a sério.
Quais sistemas educacionais já perceberam isso e eliminaram esse tolo amor a justiça? Quais países levam a sério assunto tão importante como o da educação? Em quais exemplos podemos nos inspirar e aprender, com seus erros e acertos? Quais foram os principais erros que cometemos para chegarmos na situação crítica atual? Como vamos convencer uma população sobre a importância da educação que, ainda, tem como fim primário da vida sobreviver, não viver? Quais foram os homens que por aqui passaram, ou ainda estão vivos, que realmente fizeram, ou ainda fazem, algo para que algumas mudanças claramente necessárias passem para o plano concreto?
As pessoas que realmente se preocupam com esse tema precisam, urgentemente, se unir. Pelo amor a nossas crianças.
Sobre a importância dos intelectuais e o estado crítico da educação no Brasil
Publicado; 11 de maio de 2009 Filed under: Educação | Tags: brasil, Educação, intelectuais, Noam Chomsky, omissão, silêncio Leave a comment »(Publicado originalmente dia 5 de dezembro de 2007 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/11315.html)
Apenas um pequeno trecho do The Responsibility of Intellectuals, do Chosmky.
“With respect to the responsibility of intellectuals, there are still other, equally disturbing questions. Intellectuals are in a position to expose the lies of governments, to analyze actions according to their causes and motives and often hidden intentions. In the Western world, at least, they have the power that comes from political liberty, from access to information and freedom of expression. For a privileged minority, Western democracy provides the leisure, the facilities, and the training to seek the truth lying hidden behind the veil of distortion and misrepresentation, ideology and class interest, through which the events of current history are presented to us. The responsibilities of intellectuals, then, are much deeper than what Macdonald calls the “responsibility of people,” given the unique privileges that intellectuals enjoy.”
Ando bastante incomodado com as repetidas notícias que tenho lido nos últimos anos sobre a situação da educação no Brasil. Não só com as notícias, como também com as consequências do pouco caso no nosso país com um assunto tão essencial. Acho desnecessário colocar os links para as últimas notícias, pois imagino que todos aqui devem estar cientes delas.
Guardo, em geral, no meu del.icio.us essas informações: http://del.icio.us/everton137/education+Brazil
Acredito que aqueles que se calaram tem uma grande resposabilidade para que as coisas chegassem ao estado atual. Não que sejam os únicos responsáveis. Isso seria bobagem. Mas que quem consente tem responsabilidade, ahhh, se tem!
Precisamos nos unir e, urgentemente, fazer algo.
Uma chama de esperança que não pode apagar…
Publicado; 11 de maio de 2009 Filed under: Filosofia, Pensamentos aleatórios | Tags: amor, Bertrand Russell, conhecimento, Gandhi, heróis, humanidade, Mahatma Gandhi, pensadores, Russell, Will Durant Leave a comment »(Publicado originalmente dia 13 de setembro de 2007 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/6567.html)
Lembro-me até hoje do calafrio que senti quando li o prólogo da autobiografia de Bertrand Russell, ainda no meio da minha graduação em física, há alguns anos atrás, What have I lived for (Para que vivi). Tinha descoberto mais um herói.
Three passions, simple but overwhelmingly strong, have governed my life: the longing for love, the search for knowledge, and unbearable pity for the suffering of mankind. These passions, like great winds, have blown me hither and thither, in a wayward course, over a great ocean of anguish, reaching to the very verge of despair. (grifos meus)
Até então admirava Mahatma Gandhi, apesar de apenas conhecer um pouco sobre ele através de um filme, que me marcou quando vi ainda quando eu tinha uns 15 anos, e depois sua autobiografia, que li no começo de minha graduação, por volta do ano 2000. Conheço pouco sobre Gandhi, mas quero acreditar que foi um grande homem, assim como quero acreditar que Russell o foi. Espero descobrir outros heróis.
Acho curioso terem sido raras as ocasiões, durante toda minha vida, em que encontrei pessoas que admirassem outrém. Muito pelo contrário. Cheguei, principalmente quando mais jovem do que atualmente, a me sentir como um passarinho fora do ninho quando comentava sobre minha admiração das idéias e ações de alguns homens. Felizmente, recentemente descobri o seguinte texto de Will Durant, da Introdução do livro ‘Os grandes pensadores’, que encontrei num sebo (excerto):
Dos muito ideais que na mocidade dão à vida uma significação e uma radiância que faltam a algumas friorentas perspectivas da idade madura, um pelo menos não se adormeceu em mim, permanecendo brilhante como no começo – a intrépida adoração dos heróis. Numa idade que nivela tudo e nada reverencia, ponho-me ao lado de Carlyle e acendo minhas velas, como Pico de Mirandola diante da imagem de Platão, no santuário dos grandes homens.
Digo intrépida porque sei como está fora de moda admitir na vida ou na história, gênio mais alto do que nós mesmos. O dogma democrático nivelou não somente todos eleitores com todos líderes; deleitamo-nos em demonstrar que os gênios vivos não passam de mediocridades e que os gênios mortos não passam de mitos. Ao crermos em Wells, César foi um pateta, e Napoleão, um louco. Mas como é contrário o bom-tom de louvar-nos a nós próprios, chegamos ao mesmo fim por uma senda indireta: rebaixando todos os grandes homens da terra. Em alguns isso será, talvez, um nobre impiedoso ascetismo que procura arrancar dos corações os últimos vestígios da adoração, de medo que os deuses voltem e de novo nos aterrorizem.
De minha parte apego-me à religião dos heróis e nela descubro contentamento e estímulo mais duradouro que os peculiares aos êxtases devotos da mocidade. [...]
[...]
Contemplar tais homens, insinuar-nos pelo estudo em seu convívio, observá-los no labor e aquecer-nos à flama que os consome – isto é reconquistar alguma coisa do êxtase que a juventude nos dava, quando no altar ou no confessionário sentimos a presença de Deus. Nessa sonhadora juventude criamos que a vida era um mal, e que só a morte nos poderia erguer ao paraíso. Erro. Ainda em vida podemos penetrar no Éden. Cada grande livro, cada obra de arte, cada biografia dum grande homem, constitui um apelo e um abre-te sezamo para os Campos Elísios.
Muito cedo apagamos a chama da nossa esperança e da nossa reverência. Mudemos nossos ídolos e reacendamos as velas.
Está fora de moda admitir gênio mais alto do que nós mesmos. O livro é de meados do século passado. Talvez esteja aí um indício da resposta a minha curiosidade.
Novo blog da minha participação no Adote um Vereador
Publicado; 5 de maio de 2009 Filed under: Política | Tags: Adote um Vereador, blog, mudança, novo blog Leave a comment »
Meu novo blog da campanha ‘Adote um Vereador‘ passará a ficar hospedado em http://adoteumvereador.wordpress.com. Os textos num blog coletivo que organizei no Stoa para a campanha <http://stoa.usp.br/vereadores/weblog> foram todos apagados, mas eles estão salvos no meu agregador (exceto os comentários).
Aos poucos vou colocando os textos que havia escrito e passo a escrever novos sobre o vereador que adotei, Floriano Pesaro. Infelizmente tenho participado pouco do Adote por causa de um período conturbado.
Ato público contra o AI5 Digital: Divulgue!
Publicado; 5 de maio de 2009 Filed under: Cultura Livre, Informática, Computação e Tecnologia, Política | Tags: AI5 Digital, Assembléia Legislativa de São Paulo, Azeredo, debate, Internet, manifesto, Pablo Ortellado, PL, privacidade, São Paulo, senador Azeredo Leave a comment »
Transmissão ao vivo pela TV Web do site da Assembléia, clique aqui.
Iniciativa: Deputados Estaduais Simão Pedro – PT
Rui Falcão – PT, Adriano Diogo – PT, Raul Marcelo – PSOL, Carlos Gianazi – PSOL, Jonas Donizetti – PDT;
Deputados Federais Paulo Teixeira – PT
Luiza Erundina – PSB, Manoela D’Avila – PCdoB, Ivan Valente – PSOL
Convocatoria: Intervozes – Instituto Paulo Freire - Rede Livre de Compartilhamento da Cultura Digital, GPOPAI – USP – Epidemia – Coletivo Ciberativismo – Coletivo Digital – Teatro Mágico – Laboratório Brasileiro de Cultura Digital – Attac-Br – 4 Linux – Oboré – CADESC – Francisco Whitaker, Comissão Brasileira de Justiça e Paz, da CNBB – Grupo TORTURA NUNCA MAIS – APN -Agentes de Pastoral Negros do Brasil-SP – Centro Cultural Afro-brasileiro Francisco Solano Trindade – Ação Educativa – A Comunidade para o Desenvolvimento Humano – Partido Pirata.
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Repassando o email do professor Pablo Ortellado (USP), que recebi através de uma lista de emails do GPOPAI.
Veja o texto elaborado por voluntários da WikiBrasil, um possível capítulo da Wikimedia sendo criado no Brasil: Lei sobre crimes eletrônicos. Você pode também discutir o assunto na lista de emails da WikiBrasil.
Ping-pong intelectual
Publicado; 5 de maio de 2009 Filed under: Filosofia | Tags: argumentação, controvérsia, debates, ego, esporte, Filosofia, vagas profundidades Leave a comment »(Publicado originalmente dia 12 de marçode 2007 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/931.html)
Também experimentei pela primeira vez a controvérsia do debate filosófico. Evans era um debatedor intenso, impaciente e inflexível; como mencionei antes, ele sentia prazer em constranger os ingênuos (talvez demasiado prazer). A atmosfera na sua aula era intimadora e excitante ao mesmo tempo. Como vim a saber mais tarde, essa é uma característica comum do debate filosófico. Não a sonora recitação de vagas profundidades, mas um conflito de intelectos analiticamente brilhantes, com egos palpitantes atrelados a eles. De fato, verdade seja dita, a filosofia e o ego nunca estão muito distantes. A discussão filosófica pode ser uma modalidade violenta de esporte intelectual, no qual os egos são feridos e abatidos, ou até mesmo crucificados. Observei pessoas lívidas e com a boca seca antes de fazerem uma exposição para uma audiência de pessoas seletas, e visivelmente abaladas ao término dela. Ninguém gosta de ser refutado publicamente, e em filosofia isso acontece o tempo todo. Percebi em Evans alguém com uma habilidade considerável para o debate e sem dúvida fiquei atraído pelo tipo de poder e respeito que isso proporciona. Mostrar-se por vaidade é também uma característica da vida filosófica.
‘Lógica e linguagem’, do livro ‘A construção de um filósofo‘, Colin McGinn (filósofo descrevendo o quadro de um departamento de filosofia em Oxford na década de 70).
Será que no Brasil existe um ambiente como esse? Me parece improvável, senão impóssível. Pelo menos no momento.
Muitos de nós sabemos que muito existe dessa recitação de vagas profundidades…
