Um pouco sobre civilização nas palavras de Bertrand Russell
Publicado; 30 de abril de 2009 Filed under: Educação, Filosofia | Tags: Bertrand Russell, civilização, civilização ocidental, Educação, Filosofia 2 Comments »(Publicado originalmente dia 2 de outubro de 2007 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/7218.html)
Toda teoria educacional séria deve ter dois componentes: uma concepção dos objetivos da vida e uma ciência da dinâmica psicológica, isto é, das leis da mudança mental. Duas pessoas que discordem quanto ao objetivo da vida não podem pretender concordar sobre educação. Em toda a civilização ocidental, a máquina educacional é dominada por duas teorias éticas: o cristianismo e o nacionalismo. Levadas a sério, essas duas teorias são incompatíveis, como vem sendo evidenciado na Alemanha. De minha parte, digo que onde elas divergem o cristianismo é preferível e onde elas concordam estão ambas erradas. A idéia alternativa que eu adotaria como o propósito da educação é a de civilização, termo cujo significado, tal como eu vejo, é em parte individual, em parte social. No plano individual, a civilização consiste em certas qualidades intelectuais e morais: as qualidades intelectuais são um mínimo de conhecimento geral, uma boa qualificação técnico profissional e o hábito de formar opiniões baseadas em evidências; as qualidades morais são a imparcialidade, a bondade e um certo grau de autocontrole. Eu acrescentaria ainda uma qualidade que não é moral nem intelectual, mas talvez fisiológica: entusiasmo e alegria de viver. No plano social, a civilização exige o respeito às leis, relações humanas justas, objetivos que não impliquem danos permanentes a nenhum setor da humanidade e adaptação inteligente dos meios aos fins.
Betrand Russell, Educação e Disciplina, do livro O Elogio ao Ócio.
Será possível termos uma sociedade onde a maioria das pessoas possuam as qualidades definidas por Russell no seu conceito de civilização? Será que o ser humano pode se aproximar desse ideal? O que podemos fazer para incutirmos esses propósitos em nossas crianças? Como fazer? Por onde começar, se nem o bê-a-bá é ensinado para uma fração considerável do planeta?
Eu gostaria mesmo de acreditar que é possível, mas a cada dia perco um pouco mais da esperança…
Promises: before “taking sides” on Israel and Palestine conflict, watch this movie
Publicado; 30 de abril de 2009 Filed under: Education, English, Politics | Tags: children, films, Israel, Jewish, Lemon Tree, Middle East, Palestine, Palestinian, Paradise Now, Promises, Sanabel Hassan, stupidity, war 1 Comment »(Originally posted on January 6th 2009 at http://stoa.usp.br/tom/weblog/40328.html)
The fundamental cause of the trouble is that in the modern world the stupid are cocksure while the intelligent are full of doubt. Even those of the intelligent who believe that they have a nostrum are too individualistic to combine with other intelligent men from whom they differ on minor points. This was not always the case.”
“The Triumph of Stupidity”, by Bertrand Russell
First of all, there is no winner side on this stupidity called war, there are innocent people dying.
I have no words for what is happening these days in Palestine, but I would like to recommend one of the most beautiful movies I have ever watched, Promises, recommended to me, recently, by my friend Leonardo Motta. Here is the trailer for this wonderful movie and it is really worth watching it before “taking sides” on this conflict.
Several Jewish and Palestinian children are followed for three years and put in touch with each other, in this alternative look at the Jewish-Palestinian conflict. The three filmmakers followed a group of seven local children between 1995 and 1998. They all have a totally different background. These seven children tell their own story about growing up in Jerusalem. Through this portrait of their generation, we see how deep rooted and almost insoluble the problems of the Middle East have become. When the protagonists speak out in an epilogue a couple of years later, it becomes apparent that all have lost their childlike innocence. Written by Sujit R. Varma
Watching this movie, maybe we can think better that what is being reported on news are not just statistics, there are innocent people dying and suffering. How much hatred could be avoided if people on those regions could understand how alike they are and accept their small differences?
At the end of Promises, when the Israeli and Palestinian children are separated, they cry. They cry because they know that it will be almost impossible for them to see each other again.They cry because now they have became friends.Yes, Israelis and Palestinians can be friends, as strange as this can sound for a narrow mind.
I remember when Sanabel Hassan, the little girl you can see on the trailer, says
No Palestinian child ever tried to explain our situation to the Jews. [...]
Arab and Jews should meet. [...] Not politicians! I want CHILDREN to meet.
How easy can it be for an adult to change the mind of a little child like Sanabel?
I hope some day we can transmit the message of this movie for most of the people from Israel, Palestine and every people solicitous about this problem. We should start with all the children. This great movie is a step. I would like to know how to help, but the most I can do for now is to manifest my concern for every innocent being killed and suffering. Until we can find out a way to improve human communication, there will never be peace.
Aditional information (updated)
Related movies on the Israeli-Palestinian conflict can be found here. I have also seen from this list Paradise Now, and, more recently, Lemon Tree, wich is not on this list. Both are also good movies. I like best the second one. If you have watched some film from this Wikipedia list, I would like to know which do you recommend and why.
Colaboração entre TV Cultura e voluntários da Wikimedia através de entrevistas do Roda Viva
Publicado; 30 de abril de 2009 Filed under: Cultura Livre, Política | Tags: Carta de Princípios, colaboração, Cultura Livre, Fundação Wikimedia, identi.ca, José Alencar, Roda Viva, TV Cultura, Twitter, vice-presidente, WikiBrasil, Wikimedia, Wikipédia, Wikiquote Leave a comment »(Publicado originalmente dia 30 de março de 2009 em http://stoa.usp.br/tom/weblog/46354.html)
A jornalista Lia Rangel, da TV Cultura, fez uma proposta para
tentarmos uma colaboração entre voluntários dos projetos da Fundação Wikimedia e a emissora. Veja a idéia inicial e participe das discussões, dando sugestões ou levantando dúvidas, para podermos melhorar o processo de colaboração.
Como estou ajudando na criação de um capítulo da Wikimedia no Brasil, além de entusiasta de muitos projetos que envolvem uma Cultura Livre, nessa segunda-feira vou participar da entrevista com o vice-presidente José Alencar. Também ajudei a criar uma página colaborativa relacionada a cidadania e política, a do Adote um Vereador, que segue essa Carta de Princípios da Wikimedia Brasil.
Esse post é para divulgar como você pode ajudar ativamente com o projeto, além de pedir sugestões, caso tenha. A entrevista será gravada amanhã às 18h30 e você pode começar a acompanhar a página abaixo a partir das 17h30 (será transmitido na TV Cultura no mesmo dia às 22h10):
Estarei lá comentando sobre a entrevista através do meu Twitter (@everton137) e do identi.ca (@everton137), da mesma forma que fiz na entrevista com professor Miguel Nicolelis (link removido do Stoa – em breve crio novamente o post). Também tentarei estimular sua contribuição nos projetos da Wikimedia através de alguns desses comentários.
Primeira, criei agora pouco uma página no Wikiquote para José Alencar. Qualquer um que estiver acompanhando a entrevista e achar que tem algo interessante para acrescentar nessa página, poderá fazer. Assim como poderá melhorar a página sobre o vice-presidente na Wikipédia, se necessário e caso seja possível agregar algum valor ao verbete enciclopédico, claro.
Eu gostaria de ver uma notícia escrita colaborativamente no Wikinotícias (veja algumas buscas por José Alencar), mas não sei muito bem como poderiam sr feitas a partir das entrevistas do Roda Viva. Fica a sugestão, alguém pode tentar.
Os voluntários dos projetos da Wikimedia que forem ao programa como comunicadores via Twitter, poderão ajudar, além das coisas que mencionei, enviando fotos dos entrevistados na Wikimedia Commons, que usa licenças em harmonia com uma cultura livre.
Se a inciativa der certo, vai ser bastante positiva uma maior colaboração entre a emissora e diversos voluntários envolvidos com projetos que visem uma cultura livre, pois a quantidade de conteúdo original gerado com licenças livres, em diversas mídias, será um valor muito grande para nossa sociedade, principalmente quando tivermos entrevistas com pessoas interessantes, o que ocorre com frequência no Roda Viva.
Excertos de ‘Cultura Livre’: visão do Lessig sobre o uso do blog nos EUA
Publicado; 30 de abril de 2009 Filed under: Cultura Livre, Política | Tags: aprendizagem, blog, blogs, Código Aberto, comunicação assíncrona, Cultura Livre, debate público, democracia, EUA, Lessig, Software Livre, Stoa Leave a comment »(Publicado originalmente dia 23 de fevereiro em http://stoa.usp.br/tom/weblog/43088.html)
Criei um post aqui no meu blog com trechos do livro do Lessig, ‘Free Culture’ (‘Cultura Livre‘), onde ele explica um pouco algumas coisas interessantes sobre o uso do blog nos EUA (link deletado do Stoa). Como recentemente descobri que há uma tradução do livro para o Português, vou repetir esse mesmo trecho nesse post. Como o site Trama Universitário oferece uma grande dificuldade para download, forçando o cadastro no site exiginto vários dados, acabei deixando o arquivo numa comunidade aqui do Stoa: download aqui (11 Mb) – descompactado PDF (16 Mb).
Seguem alguns trechos do livro do Lessig, Cultura Livre, capítulo 2: “Meros copistas”. Alguns grifos foram adicionados por mim. Ainda criarei um post comentando esse trecho.
[...]
O 11 de Setembro não foi uma aberração. Foi o começo. Mais ou menos na mesma época, uma forma de comunicação que tinha crescido geometricamente estava começando a entrar no imaginário popular: o weblog, ou blog. O blog é uma espécie de diário público e, em algumas culturas, como no Japão, funciona de forma muito parecida com um diário. Nessas culturas, ele registra fatos provados de um modo público – uma espécie de Jerry Springer, disponível em qualquer lugar do mundo.
Mas nos Estados Unidos, os blogs assumiram características bem diferentes. Há alguns que usam o espaço simplesmente para falar sobre sua vida pessoal. Mas há muitos que o usam para participar do debate público. Discutindo assuntos de importância pública, criticando outros que têm visões equivocadas e as decisões de políticos, oferecendo soluções para problemas que todos nós vemos. Os blogs criam a sensação de um encontro público virtual, mas um no qual nós não esperamos estar todos ao mesmo tempo e no qual as conversas não são necessariamente ligadas entre si.
Essa é uma afirmação polêmica. Mesmo assim, diz tanto sobre nossa democracia quanto diz sobre blogs. É a parte do país mais difícil de aceitar para aqueles entre nós que amam os EUA: nossa democracia atrofiou. Claro que temos eleições, e na maioria das vezes os tribunais permitem que essas eleições sirvam para alguma coisa. Um número pequeno de pessoas vota nessas eleições. O circuito das eleições se tornou totalmente profissional e rotineiro. A maioria de nós acha que isso é democracia.
Mas a democracia nunca se tratou de eleições. Democracia significa o governo pelo povo, mas governar significa mais do que meras eleições. Em nossa tradição, isso também significa controle através de debates racionais. Foi essa a idéia que capturou a imaginação de Alex de Tocqueville, o advogado francês do século XIX que escreveu o mais importante relato da jovem Democracia na América. Não foram as eleições populares que o fascinaram – foi o júri, uma instituição que deu às pessoas comuns o direito de escolher a vida ou a morte de outros cidadãos. O mais fascinante para ele foi que o júri não votava apenas no resultado que iria impor. Ele deliberava. Os membros discutiam sobre o resultado “certo”, tentavam convencer uns aos outros do resultado e, pelo menos em casos criminais, tinham que chegar a uma decisão unânime para pôr fim ao processo. [15]
Mesmo assim, essa instituição está esmorecida nos EUA de hoje. E, em seu lugar, não há nenhum esforço sistemático para facultar aos cidadãos o debate público. Alguns estão tentando criar essa instituição. [16] E, em algumas cidades da Nova Inglaterra, algo próximo a ela continua existindo. Mas, para a maioria de nós, na maior parte do tempo não há hora ou lugar para a discussão democrática.
De forma ainda mais bizarra, geralmente não há nem a permissão para que isso ocorra. Nós, a mais poderosa democracia do mundo, desenvolvemos fortes regras quando o assunto é discutir política. Tudo bem falar de política com quem concorda com você. Mas é falta de educação discutir política com gente que discorda de você. O discurso político tornou-se isolado, e discursos isolados tornam-se mais extremos. [17] Dizemos o que nossos amigos querem ouvir e ouvimos muito pouco além o que os nossos amigos dizem.
Entra em cena o blog. A própria arquitetura do blog soluciona uma parte desse problema. As pessoas escrevem quando querem escrever e as pessoas lêem quando querem ler. A maior dificuldade é o tempo sincrônico. Tecnologias que possibilitam a comunicação assíncrona, como e-mail, aumentam as oportunidades de comunicação. Os blogs permitem o debate público sem que o público precise se encontrar em um só lugar público.
Além da arquitetura, os blogs também solucionam o problema das regras sociais. Não há regra (até o momento) contra falar de política na esfera dos blogs. Essa esfera é cheia de textos políticos, tanto da esquerda, quanto da direita. Alguns dos sites mais populares são conservadores ou libertários, mas muitos são de todas as cores políticas. Mesmos blogs que não são políticos cobrem questões políticas quando o assunto se justifica.
A importância desses blogs hoje é pequena, mas não tão pequena assim. O nome de Howard Dean teria sumido das corrida eleitoral de 2004 se não fosse pelos blogs. Mesmo se o número de leitores for pequeno, os blogs estão produzindo efeitos.
Um efeito direto é sobre aqueles assuntos que tinham um ciclo diferente nos meios de comunicação de massa. O caso Trent Lott é um exemplo. Quando Lott “se expressou mal” em uma festa do Senador Strom Thurmond, basicamente elogiando as políticas segregacionistas do senador, ele calculou corretamente que o assunto desapareceria da grande mídia em 48 horas. E desapareceu. Mas não calculou o ciclo da notícia nos blogs. Os blogueiros continuaram pesquisando a história. Com o tempo, mais e mais estâncias de Lott “se expressando mal” apareceram. Finalmente, o assunto voltou à grande mídia. No final, Lott foi forçado a renunciar como líder da maioria do senado. [18]
Esse ciclo diferente é possível porque as pressões comerciais que existem em outros veículos não existem nos blogs. Jornais e redes de televisão são entidades comerciais. Eles têm que trabalhar para manter a atenção. Se perdem leitores, perdem dinheiro. Como tubarões, eles devem se manter em movimento.
Mas blogueiros não sofrem constrições similares. Eles podem ficar obcecados, podem se concentrar, ir a fundo. Se um blogueiro em particular escreve um texto particularmente interessante, mais e mais pessoas linkam aquele texto. Se o número de links para um texto qualquer aumenta, ele sobe no ranking. As pessoas lêem o que é popular e o popular é selecionado por um ranking muito democrático, criado por outros blogueiros.
Há uma segunda razão, ainda, para que os blogs tenham um ciclo diferente da grande mídia. Como me explicou Dave Winer, um dos pais desse movimento e desenvolvedor de software por várias décadas, outra diferença é a ausência de “conflito de interesses”. “Eu acredito que o conflito de interesses deve ser tirado do jornalismo”, me disse Wiener. “Um jornalista amador não tem conflito de interesses ou seus conflitos são tão fáceis de revelar que você meio que pode tirá-los da frente.”
Esses conflitos se tornam mais importantes à medida que os meios de comunicação se tornam mais concentrados (mais sobre isso abaixo). Empresas de comunicação mais concentradas podem se esconder melhor do público do que as menos concentradas – como a CNN admitiu ter feito depois da guerra do Iraque por medo das conseqüências para os seus empregados. [19] Empresas concentradas também precisam sustentar relatos mais coerentes entre si. (No meio da guerra do Iraque, li um texto na Internet de alguém que estava escutando um link de satélite de um repórter no Iraque. O quartel-general em Nova York repetia para a repórter que seu relato da guerra era muito desolador: ela precisava oferecer uma matéria mais otimista. Quando ela disse que isso não tinha fundamento, o pessoal em Nova York disse que eles estavam escrevendo “a história”)
Os blogs dão aos amadores um jeito de entrar no debate – “amadores” não no sentido de “inexperiente”, mas no mesmo sentido de um atleta olímpico, o de não estar sendo pago por ninguém para escrever seus relatos. Isso permite uma gama muito maior de perspectivas sobre um tema, como revelou os relatos do desastre da Columbia, quando centenas de pessoas no sudoeste dos Estados Unidos foram para a Internet contar o que viram. [20] Tal coisa também leva os leitores a ler relatos em toda gama e, nas palavras de Winer, a “triangular” a verdade. Os blogs, diz Winer, “se comunicam diretamente com a freguesia, sem nenhum intermediário” – com todos os benefícios, e custos, em que isso pode resultar.
Winer é otimista a respeito do futuro do jornalismo infectado pelos blogs. “Essa será uma habilidade essencial”, prediz Winner, “para pessoas públicas e cada vez mais para pessoas particulares também”. Não está claro se as empresas jornalísticas estão felizes com isso – alguns jornalistas ouviram dos empregadores que deveriam se dedicar menos aos blogs. [21] Mas está claro que ainda estamos em transição. “Muito do que estamos fazendo agora são exercícios de aquecimento”, me disse Winer. Há muita coisa que precisa se desenvolver antes desse espaço ter um efeito maduro. E, uma vez que a inclusão de conteúdo nesse espaço é a forma de uso da Internet que menos infringe o copyright, “vamos ser a última coisa a ser fechada”, disse Winer.
Esse debate público afeta a democracia. Winer acredita que isso acontece porque “você não tem que trabalhar para alguém que controla, para um sentinela”. É verdade, mas os blogs afetam a democracia também de outra forma. Com mais e mais cidadãos expressando o que pensam, e defendendo isso por escrito, os blogs vão mudar o modo de as pessoas entenderem questões públicas. É fácil estar errado ou enganado em sua cabeça. É mais difícil quando o produto de sua mente pode ser criticado por outros. Um ser humano que admite ter sido convencido de que está errado é raro, claro. Mas é ainda mais difícil para um ser humano ignorar quando alguém prova que ele está errado. Escrever idéias, discussões e críticas melhoram a democracia. Hoje existem provavelmente uns poucos milhões de blogs com esse tipo de texto. Quando existirem 10 milhões, será algo extraordinário.
Essa parte é importante, já que algumas pessoas questionaram sobre o uso de blogs aqui no Stoa-USP para discutir política, uma rede social onde cada membro da universidade possui um blog.
E Lessig continua explicando sobre como essas tecnologias podem influenciar o aprendizado, o principal objetivo do projeto Stoa, oferecer ferramente para melhorar o aprendizado
[...]
John Seely Brown é o cientista-chefe da Xerox Corporation. Seu trabalho, como descrito em seu site, é “aprendizagem humana e [...] a criação de ecologias de conhecimento para criar[...] inovação”.
Brown, portanto, vê essas tecnologias de criatividade digital de maneira um pouco diferente das perspectivas que rascunhei até agora. Estou certo de que ele se empolgaria com qualquer tecnologia que pudesse aprimorar a democracia. Mas ele fica empolgado de verdade com tecnologias que afetam o aprendizado.
Brown acredita que aprendemos experimentando. Quando “muitos de nós estávamos crescendo”, explica ele, os experimentos eram feitos em , “motores de motos e cortadores de grama, carros, rádios e assim por diante”. Mas as tecnologias digitais propiciam uma espécie diferente de experiências – com idéias abstratas em forma concreta. Os jovens no Just Think! não pensam só em como um comercial retrata um político; usando tecnologia digital, eles podem desmontar o comercial e manipulá-lo, fazer experiências com ele para descobrir como ele faz o que faz. As tecnologias digitais inauguraram uma espécie de bricolagem, ou “colagem livre”, como Brown a chama. Muitos adicionam algo ou transformam uma experiência feita em conjunto com vários outros.
O melhor exemplo em larga escala desse tipo de experiência até hoje é o software livre, ou de código aberto (Free Software/Open Source Software = FS/OSS). Os FS/OSS são softwares cujo código-fonte é compartilhado. Qualquer um pode baixar a tecnologia que faz um FS/OSS funcionar. E qualquer um ansioso por aprender como um pedaço em particular de um FS/OSS funciona pode experimentar com o código.
Essa oportunidade cria uma “espécie completamente nova de plataforma de aprendizado”, como descreve Brown. “Assim que você começa a mexer no código, você [...] liberta uma colagem livre na comunidade, para que as outras pessoas comecem a olhar seu código, experimentar com ele, testá-lo, ver se podem melhorá-lo.” Cada tentativa é uma forma de aprendizagem. “O código aberto se torna uma importante plataforma de aprendizagem.”
Nesse processo, “as coisas concretas com as quais você experimenta são abstratas, são códigos”. Os jovens estão “mudando para a habilidade de experimentar com o abstrato e essa experimentação não é mais uma atividade que você faz isolado em sua garagem. Você está experimentando em uma plataforma comunitária [...]
Você está fazendo experiências com o trabalho dos outros. E, quanto mais você experimenta, mais você o torna melhor”. Quanto mais você o torna melhor, mais você aprende.
As mesmas coisas também acontecem com conteúdo, acontecem da mesma forma colaborativa quando o conteúdo é parte da web. Como Brown coloca, “a web é o primeiro suporte que realmente faz jus a múltiplas formas de inteligência”. Tecnologias anteriores, como a máquina de escrever e processadores de texto, ajudavam a aumentar textos. Mas a web amplia muito mais do que texto. “A web [...] diz que se você é musical, se você é artístico, se é visual, se está interessado em cinema [...] então há muito que você pode fazer nesse meio. Ela pode aumentar e fazer jus a essas múltiplas formas de inteligência.”
[...]
Apenas para lembrar todo mundo, todos softwares usados no projeto Stoa são livres e de código aberto. Mais detalhes sobre isso mais tarde. Coincidentemente, estou sendo um mero copista nesse post de blog. :-)
Referências
[15] Ver, por exemplo, Alexis de Tocqueville, Democracy in America, livro 1, trans. Henry Reeve (Nova York: Bantam Books, 2000), cap. 16.
[16] Bruce Ackerman e James Fishkin, “Deliberation Day”, Journal of Political Philosophy 10 (2) (2002): 129.
[17] Cass Sunstein, Republic.com (Princeton: Princeton University Press, 2001), 65-80, 175, 182, 183, 192.
[18] Noah Shatchman, “With Incessant Postings, a Pundit Stirs the Pot”, New York Times, 16 de janeiro de 2003, G5.
[19] Entrevista por telefone com David Winer, 16 de abril de 2003.
[20] John Scwartz, “Loss of the Shuttle: The Internet; A Wealth of Information Online”, New York Times, 2 de fevereiro de 2003, A28; Staci D. Kramer, “Shuttle Disaster Coverage Mixed, but Strong Overall”, Online Journalism Review, 2 de fevereiro de 2003, disponível no link #10.
[21] Ver Michael Falcone, “Does an Editor’s Pencil Ruin a Web Log?”, New York Times, 29 de setembro de 2003, C4. (“Nem todos os veículos de notícia aceitam empregados que tenham blogs. Kevin Sites, um correspondente da CNN no Iraque que criou um blog sobre sua cobertura da guerra no dia 9 de março, parou de postar depois de 12 dias a pedido de seu chefe. Ano passado, Steve Olafson, um repórter do Houston Chronicle, foi demitido por manter um blog pessoal, publicado sob um pseudônimo, que tratava de assuntos e pessoas que ele cobria.”)
Sobre meu afastamento do Stoa por causa de uma brincadeira de 1º de abril até a exclusão da minha conta
Publicado; 29 de abril de 2009 Filed under: Educação, Política | Tags: 1º de abril, autoritarismo, censura, CTI, demissão, Gil da Costa Marques, hierarquia, Política, reitoria, relato, Stoa, Suely Vilela, USP 25 Comments »Toda história do meu afastamento do projeto Stoa-USP, assim como a exclusão de minha conta do Stoa e todos meus textos (blog pessoal e tópicos em fóruns de discussões), começou com a publicação no Stoa de uma brincadeira no contexto de primeiro de abril, que vocês podem checar aqui, Governador avalia planos de privatização da USP em reunião com reitora.
Publiquei esse texto no final da tarde do dia 1º de abril, por volta das 18h, e logo na madrugada do dia 2 coloquei um aviso de que tratava-se de uma brincadeira, aviso que parece não ter sido suficiente para as pessoas que sentiram-se incomodadas com a brincadeira.
No dia 14 de abril fico sabendo que a consultoria jurídica da USP entrou em contato com o diretor do CTI USP, Gil da Costa Marques, e que haveria um possível processo contra ele por parte da reitoria, por causa dessa brincadeira minha. Vale lembrar que o Stoa é um projeto do CTI.
Poucos dias depois fico sabendo que as medidas tomadas serão: 1. meu desligamento do projeto Stoa e 2. um pedido de desculpas de minha parte e do coordenador do projeto Stoa, o professor Ewout ter Haar, por causa do ocorrido.
O pedido de desculpas foi publicado por mim dia 23 de abril, que pode ser lido aqui, Esclarecimento sobre inoportuno texto que simulava desestatização da USP (não está mais disponível no link original, pois todos meus textos foram apagados do Stoa). Pedi desculpas por algo que não achei errado e até agora não entendo todo estardalhaço criado e nem imaginava as dimensões que isso resultaria, pois não queria também prejudicar meus amigos colaboradores do projeto Stoa, nem que o projeto fosse por água a baixo por minha causa. Antes eu do que todo o projeto, pois sei que continuaria em boas mãos.
Os ânimos das pessoas incomodadas com o ocorrido pareciam ter acalmados após meu pedido de desculpas e as coisas ficariam assim. Entretanto, dia 27 de abril, foi publicada uma matéria no UOL sobre um bolão para acertar o dia que a greve na USP começaria, que fiz há meses usando meu blog no Stoa, veja Ex-aluno da USP faz bolão e premia quem acerta dia de início da greve na universidade. A jornalista Simone Harnik entrou em contato comigo na tarde do dia 24 de abril, uma sexta-feira, pois queria entender melhor sobre o bolão. Deixei claro para ela que eu não tinha mais nenhum vínculo com a USP, muito menos com o Stoa, apesar de eu ter ajudado a criar o projeto.
A publicação dessa matéria no UOL Educação parece ter sido a gota d’água para a reitora da USP, Suely Vilela, pois, segundo fui informado por email na noite do dia 27 de abril, ela ligou para o diretor do CTI dizendo algo do tipo “Como é que vocês afastaram o Everton do projeto e aparece essa matéria com ele na capa do UOL?”. Pressões da reitoria sobre Gil da Costa Marques surgiram, que entrou em contato com o coordenador do projeto Stoa, que entrou em contato comigo.
Fui informado que minha conta seria excluída, a pedido do diretor do CTI (pressionado pela reitora ou alguém da reitoria, imagino), o que foi feito ontem, dia 28 de abril. Eles deram um tempo para eu fazer backup dos meus textos do meu blog e fóruns de discussão, que eu já fazia assinando os feeds RSS no Google Reader (depois vou ter que publicar um a um nesse novo blog e infelizmente perdi todos comentários).
O pedido de desculpas acabou sendo publicado pela equipe Stoa na noite do dia 28 de abril, veja Sobre uma falsa notícia veiculada no Stoa, o que acabou repercutindo muito mal de imediato e gerou protestos por parte de usuários do Stoa (atualização: os textos publicados no Stoa foram alterados para ficarem visíveis apenas para usuários online, portanto coloquei links para locais externos onde foram publicados):
- Comentário a respeito do “Sobre uma falsa notícia veiculada no Stoa”, por Walrus
- CENSURA NA USP?, por Fernanda Pinheiro
- Aos responsáveis pelo escandaloso ato de censura no Stoa: aprendam a rir de si mesmos, por Luiz Yassuda
- Na cabeça da reitora, a USP já foi privatizada: pra ela!, por Alexandre Abdo (veja também um outro texto publicado no trezentos, pelo mesmo autor)
Após terrível repercusão, o Stoa foi colocado em estado de manutenção, me parece que a pedido do diretor do CTI, de modo que ninguém pode ver textos na página principal, nem logar-se no sistema.
Salvei os textos acima no meu computador, pois temo que o sistema Stoa será desligado da tomada, assim, sem mais nem menos, pois parece que o sistema hierárquico da Universidade de São Paulo funciona assim: alguém com mais poder político pode fazer e desfazer o que quiser, sem precisar dar satisfação ou justificativas racionais alguma a todos envolvidos (afinal, são quase 9 mil usuários cadastrados no Stoa!).
Nesse texto quis apenas relatar o que ocorreu e a cronologia dos fatos, tentando ser o mais imparcial possível. Depois escrevo mais sobre o ocorrido e a sucessão dos fatos, iniciados por uma fatídica brincadeira de 1º de abril.
Posts relacionados
- Censura na USP, por Rafael Prince
- Como Suely Vilela faz a USP se igualar aos censores da Ditadura Militar, por Joildo Santos
- Na cabeça da reitora, a USP já foi privatizada: pra ela!, por Alexandre Abdo, publicado no trezentos
Atualizado às 17h35: Foram colocados links para os textos que criticavam o ocorrido, pois os mesmos, inicialmente publicados no Stoa, foram deixados visíveis apenas para quem tem conta no Stoa. Também acrescentei posts relacionados.
Bolão da greve na USP publicado no UOL
Publicado; 28 de abril de 2009 Filed under: Cultura Livre, Educação, Filosofia, Política | Tags: 2009, bolão, cultura, greve, UOL, USP 3 Comments »A jornalista Simone Harnik entrou em contato comigo na última sexta-feira para entender um pouco melhor sobre o bolão da greve e publicou hoje uma matéria sobre o assunto no UOL Educacão, veja Ex-aluno da USP faz bolão e premia quem acerta dia de início da greve na universidade.
Provavelmente o vencedor foi o estudante de direito Rafael Prince, pois funcionários da USP afirmaram que devem entrar em greve no próximo dia 5, a data apostada por ele. Já entrei em contato com ele via Twitter para ver como entregarei os prêmios. O livro de Ferreira Gullar, doado gentilmente pela Carlyne Paiva, também será entregue e vou falar com meu amigo Gustavo D’Andrea qual livro ele vai doar.
Infelizmente a brincadeira foi mal compreendida por algumas pessoas.
Meu primeiro post no meu blog do wordpress
Publicado; 28 de abril de 2009 Filed under: Pensamentos aleatórios | Tags: migração, novo blog, primeiro post, WordPress 1 Comment »Vamos ver como funcionar esse blog aqui. Depois tenho que migrar todos meus posts do Stoa para cá. É uma pena que não sei se tem como colocar aqui, de forma prática, todos comentários feitos lá. Depois penso nisso.
Espero poder discutir e gerar discussões, no sentido em que todos envolvidos aprendem uns com os outros, a partir dos meus textos que publicarei aqui.
Não hesite em contrariar o que ler por aqui, de preferência com argumentos, caso discorde dos textos ou acrescentar sua idéia se tiver algo legal para colaborar. ;-)

